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Como enfrentar o caos atual?

Os avanços tecnológicos criaram um novo pensamento crítico e transformaram a relação entre filosofia e arte

Márcio Motta / Flickr: Paulista Avenue / CC BY 2.0

A filosofia não ocupa a mesma importância no debate contemporâneo que há um ou dois séculos. Anteriormente, muitos filósofos sentiam-se autorizados a estabelecer o domínio de cada disciplina científica e a definir a função e o escopo da atividade artística. No entanto, a ciência se desenvolveu, se diversificou e conquistou autonomia em relação à filosofia. Do mesmo modo, a arte rompeu com os cânones tradicionais e trilhou um caminho próprio e singular em relação ao saber filosófico. 

Mudança de paradigma

Hoje, são os próprios cientistas que definem os rumos de suas atividades, seja no interior do laboratório ou em contato com o meio ambiente. Também são os artistas que atribuem forma e sentido à produção que ocorre no interior de seus ateliês ou em performances em espaços públicos

As transformações sofridas pela ciência e pela arte dificultaram ou mesmo impediram que o conhecimento filosófico tradicional mantivesse sua soberania quase absoluta em relação aos outros saberes humanos. Apesar da perda do antigo prestígio e privilégio, é importante pontuar que a filosofia não deixou de se desenvolver, muita vez rompendo com visões até então solidamente estabelecidas. 

Indagações

Um dos principais desenvolvimentos do saber filosófico diz respeito à sua própria definição. Em meio a tantas mudanças no conhecimento contemporâneo, qual pode ser a resposta para a pergunta: “o que é a filosofia”? Atualmente, ganhou muita importância compreender como os filósofos do chamado pós-modernismo definem sua própria atividade intelectual. 

Para responder tais perguntas, vamos recorrer a dois filósofos do pós-modernismo francês: Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992). Ambos não se autodenominavam pós-modernos, mas suas investigações filosóficas convergiram com as tendências do pós-modernismo, pelo menos na tentativa de romper com pressupostos filosóficos tradicionais. 

Transversalidade

A definição de filosofia de Deleuze e Guattari é complexa, não porque seja de difícil acesso, e sim porque também envolve a definição da ciência e da arte. A abordagem pode parecer contraditória com o que dissemos anteriormente, que não cabe mais aos filósofos dizer o que deve ser a produção científica e a criação artística. Isso não os impede, contudo, de dizer o que é cada uma dessas atividades humanas com base no que os próprios cientistas e artistas fazem. 

Para entender o que é a filosofia, precisaremos investigar os laços invisíveis que a aproximam e a vinculam à ciência e à arte. Segundo Deleuze e Guattari, essas três atividades humanas expressam três maneiras diferentes de superar um desafio: vencer o caos, atravessando-o com um plano secante. O filósofo, o cientista e o artista não ignoram nem evitam o caos, mas o enfrentam. E esse embate, esse mergulho no caos, não é inocente: o plano traçado sobre o caos é o ato vitorioso e fundador da filosofia, da ciência e da arte. 

Caos e origem

O filósofo, o cientista e o artista, entretanto, nunca enfrentam o caos de forma definitiva. O plano secante que transpassa o caos não o apreende ou o compreende por inteiro. É, na verdade, a uma fatia dele que temos acesso. Sempre haverá a possibilidade de um novo mergulho, de uma nova luta contra o caos, que pode resultar em uma nova filosofia, uma nova ciência ou uma nova arte. 

Há ainda um segundo motivo que nos mostra que sempre poderá haver diferentes aprofundamentos no caos. Enfrentá-lo não é, em hipótese alguma, reencontrar uma origem perdida, em que tudo estava reunido e em harmonia. O caos não pode ser identificado com as noções de paraíso e de criação das diferentes religiões. Confrontá-lo também não é a oportunidade de conhecer a essência do mundo, que finalmente se mostraria ao sábio. 

Pertinência da filosofia

Assim, precisamos sublinhar um importante aspecto dessa luta realizada pelo filósofo, pelo cientista e pelo artista. O caos não reflete a essência do mundo ou do homem, não é o espelho da alma autêntica e verdadeira, não é a origem primitiva de todo pensamento pensado ou ainda por pensar. Enfrentar o caos não nos leva a relembrarmos o que já sabíamos intimamente, não nos revela uma realidade superior. Enfim, desafiar continuamente o caos não nos reconcilia com nada. 

Aparentemente, entender a filosofia como uma atividade incapaz de nos revelar uma realidade superior e preexistente é a expressão do pessimismo e do relativismo do pensamento contemporâneo. A filosofia não é mais vista como fonte para a essência e a verdade do mundo. Agora, a força e a vitalidade filosóficas teriam sido tão reduzidas que os filósofos se tornaram incapazes de dizer algo sobre o mundo que valesse a pena ser ouvido. 

Pensamento e criação

A tarefa do filósofo ao enfrentar o caos nos afasta desse equívoco. Segundo Deleuze e Guattari, “a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos”. O filósofo não aprofunda o sentido de conceitos já conhecidos, não analisa as consequências de um conceito em um raciocínio. Ele cria novos conceitos para dar consistência ao caos. O mergulho no caos é uma experiência singular que não se repete nunca. É sempre inovadora. Por esse motivo, cada imersão demanda do filósofo a criação de conceitos que deem consistência a esse enfrentamento. Conceitos já conhecidos e estabelecidos não são suficientes para atribuir consistência a todos os mergulhos no caos.

Com essa nova definição, a filosofia deixa de ser uma atividade reflexiva ou analítica para se tornar uma atividade criativa. Na sociedade contemporânea, não cabe mais ao filósofo, segundo Deleuze e Guattari, revelar a essência do mundo ou dizer o que devemos fazer. Para eles, a tarefa do filósofo é criar conceitos, cuja utilização pode variar de pessoa para pessoa. Ambos entendem que a filosofia abandonou a pretensão de reconciliar o homem consigo mesmo ou de revelar a origem de todo o pensamento. Agora, ela assumiu definitivamente o papel de criar conceitos novos e interessantes. Seu principal objetivo é tornar a existência humana intelectualmente mais rica e desafiadora.

Foto: piotr / Flickr: meeting pot / CC BY 2.0