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Como levar uma vida prazerosa?

Segundo Epicuro, a verdadeira felicidade reside nos prazeres que dão mais sentido ao nosso dia a dia

Quinn Dombrowski / Flickr: Laughing / CC BY-SA 2.0

O epicurismo debate ideias capazes de tornar nosso cotidiano mais agradável

O prazer é um assunto de grande polemicidade. Em sociedades conservadoras, preservar a coesão dos laços sociais e familiares, assegurar a continuidade de hábitos tradicionais e garantir a obediência às normas de conduta sociais - muitas delas enraizadas desde as antigas gerações -, são alguns dos mecanismos coercitivos que não permitem a discussão sobre a importância do prazer para a humanidade. O epicurismo, ao contrário, pretende abordar essa temática sem juízos de valor.

Prazer

Raramente uma doutrina religiosa ou filosófica condenou ou condena o prazer em si mesmo, pois o prazer sempre é benéfico para quem o usufrui. Qualquer argumentação contrária precisa ser capaz de convencer seus interlocutores de que o prazer pode ser prejudicial ao sujeito ou à sociedade, isto é, deve conduzir uma educação que faça aos jovens um alerta para os perigos que o prazer pode trazer. O prazer não é o mal, mas pode ser acompanhado de inúmeros males, de inúmeras dores.

Não é difícil aceitar e compreender que o prazer pode vir acompanhado pela dor. Uma noite de bebedeira eufórica e barulhenta pode ser sucedida por uma manhã de ressaca e de estado depressivo; uma refeição exageradamente abundante pode facilmente conduzir o banqueteador da mesa para o banheiro; a expectativa de uma rede social repleta de curtidas e elogios pode vir acompanhada do menosprezo pela própria vida depois que o computador ou o celular é desligado.

Os perigos do prazer parecem ser bastante evidentes para a moral conservadora e para o senso comum. No entanto, é inegável o bem que o prazer nos traz enquanto ele não é sucedido pela dor. Dificilmente uma doutrina religiosa contestaria essa máxima. A busca desenfreada pelo prazer seria uma alternativa à moral conservadora? Sim, mas nesse caso o prazer pode vir quase sempre acompanhado da dor, às vezes de uma dor acintosamente mais intensa que o prazer alcançado. Chegamos então a um dilema: como alcançar o máximo de prazer com o mínimo de dor?

Hedonismo

O hedonismo (comportamento ou, em sentido mais técnico, doutrina que elege o prazer como bem supremo) pode ser uma resposta a essa questão. Frequentemente, o hedonismo é entendido como aquele comportamento que busca desenfreadamente o prazer. Contudo, já existiram correntes filosóficas que enfrentaram seriamente essa questão e que apresentaram soluções interessantes e notáveis. Estamos falando do epicurismo, cujo fundador foi Epicuro.

Nascido na ilha de Samos, Epicuro (342/341 a.C.-270 a.C.) foi um filósofo grego que ficou famoso por fundar uma escola filosófica nos subúrbios de Atenas, conhecida como o Jardim. A localidade da escola não era casual. Naquele período, com as conquistas militares de Alexandre Magno e com a formação do Império Macedônico, as cidades-Estado da Grécia Antiga perderam sua autonomia política e, consequentemente, seus cidadãos tornaram-se súditos de um poder imperial. Acabaram, portanto, sem o direito de governar sua própria cidade.

Com essa mudança de estatuto (o grego deixando de ser cidadão da pólis e tornando-se súdito de um reino ou império), o sentido das investigações filosóficas também foi alterado. Em uma época em que o grego, em certa medida, não exercia mais nenhuma participação no governo da pólis, a filosofia se preocupou cada vez menos com a atuação política do indivíduo para se dedicar cada vez mais à investigação de seu comportamento ético. Nesse momento, vários pensadores passaram a estudar mais especificamente questões ligadas à felicidade individual.

Medo da morte

Epicuro foi um dos filósofos que ofereceram uma interessante solução. Segundo ele, para alcançar a felicidade era preciso superar, em primeiro lugar, o maior temor do ser humano. Aquele sentimento capaz de abalar os momentos alegres mais ternos e doces: o temor da morte. 
A morte era temida principalmente pelo julgamento divino a que todo ser humano era suscetível depois da vida. Qual era a garantia de que um ser humano não seria condenado a sofrimentos infindáveis após a sua morte? Para oferecer uma resposta satisfatória a essa questão e, em seguida, apresentar uma doutrina que conduzisse o ser humano à felicidade, Epicuro associou e articulou duas correntes de pensamento da Antiguidade: o atomismo e o hedonismo.

Atomismo

De acordo com Epicuro, o cosmo é constituído de corpos e vazio. Entre os corpos, há aqueles que são compostos e aqueles dos quais os compostos são constituídos. Esses últimos elementos são indivisíveis, imutáveis e eternos e são chamados de átomos. Todos os corpos, portanto, são átomos ou compostos de átomos. Já o vazio é o meio por onde os átomos se locomovem e se localizam.

Os corpos não se tornam vazio nem o vazio pode vir a ser um corpo. O vazio é o nada, o não-ser, e o não-ser não pode gerar o ser (corpos), assim como o ser não pode ser corromper até se tornar o não-ser, ou seja, deixar de ser. Desse modo, quando percebemos através de nossos sentidos que um corpo desapareceu ou foi destruído, o que ocorreu foi a desagregação dos átomos que compunham aquele corpo. Esses átomos voltam a se locomover no vazio, podendo se entrechocar com outros átomos, evento que altera sua trajetória anterior, ou se agregar a outros átomos, constituindo corpos compostos.

Nesse primeiro momento, acentuamos uma perspectiva ontológica do atomismo. Sem nos aprofundarmos muito na visão epicurista, estivemos preocupados em mostrar quais são os elementos fundamentais do cosmo e como eles se relacionam. No entanto, se entendermos o que é a morte do ponto de vista da mecânica dos átomos, então conseguiremos compreender as consequências éticas do atomismo epicurista. Assim como a destruição de um corpo, a morte nada mais é que a desagregação ou dispersão dos átomos que compunham aquele organismo, impedindo a continuidade de suas funções vitais, inclusive da sensibilidade. Para Epicuro, aquilo que está privado de sensibilidade não é nada para nós, portanto, a morte também não é nada para nós. Se a morte não é nada, então não existem motivos para temer as punições e os castigos divinos depois do fim da vida. Epicuro ainda acrescenta que os deuses, sendo bem aventurados e livres de preocupações, não se interessam pela graça ou desgraça dos mortais.

O temor da morte era provocado pela superstição de que conservaríamos nossa sensibilidade após a morte, nos tornando suscetíveis de sofrermos os castigos divinos. Entretanto, o conhecimento dos princípios que regem o cosmo demonstra que, em virtude da desagregação dos átomos que constituíam o corpo, a morte é privação de sensibilidade, explicação que torna irracional qualquer temor pela morte. O atomismo nos afastou dessa superstição que nos causava dor, mas é o hedonismo de Epicuro que coroará o caminho da vida feliz.

Epicuro elencou o prazer como o bem supremo da vida. Argumentou que o bem promovido pelo prazer é evidente para qualquer um, o que dispensa uma reflexão filosófica mais rigorosa. Se permanecesse nesse estágio, Epicuro teria contribuído muito pouco para a investigação ética. Contudo, percebeu que determinados prazeres podem acarretar dores equivalentes ou de intensidade superior. Sendo assim, nem todo prazer conduz a uma vida feliz.

Prazer natural versus prazer fútil

O hedonismo de Epicuro classifica o prazer em duas categorias: prazer natural e prazer fútil. O primeiro se subdivide em prazer natural necessário e prazer natural não necessário. O prazer natural necessário abrange satisfações como a saciedade da fome e da sede. Não satisfazer esse tipo de desejo pode provocar dor na forma de cansaço, fraqueza ou desidratação, perturbando a tranquilidade do indivíduo. Por esse motivo, o desejo de um prazer natural necessário deve ser satisfeito por aquele que busca uma vida feliz. Já o prazer natural não necessário é uma derivação do prazer anterior. Matar a sede com vinho ou cerveja, e não com água, saciar a fome com um prato refinado, e não com um marmitex, são exemplos desse tipo de prazer. O objetivo é o mesmo do prazer natural necessário, mas alcançado de modo não necessário. Por esse motivo, o prazer natural não necessário pode ser dispensado, pois não satisfazer a sede com uma taça de vinho, e sim com um copo de água, ou não matar a fome com um prato refinado, e sim com um marmitex, não provoca dor.

Por fim, o prazer fútil é todo aquele prazer criado pelas opiniões dos homens, como a fama, o sucesso profissional e a riqueza. Assim como ocorre com o prazer natural não necessário, não satisfazer os desejos que conduzem ao prazer fútil não provoca dor. Por isso, o prazer fútil deve ser evitado por quem busca a vida feliz.

A classificação dos prazeres realizada por Epicuro não é mera exposição didática. Se a intensidade do prazer é medida pela sua capacidade de reduzir ou mesmo de eliminar qualquer tipo de dor, então os prazeres que podem acarretar dores maiores devem ser evitados, ao passo que prazeres que eliminam a dor ou que são antecedidos de reduzidas dores devem ser alcançados. Todo prazer é bom, mas nem todo prazer deve ser buscado.

Ética epicurista

A ética epicurista não se identifica, portanto, com a busca cega e desenfreada pelo prazer, pela realização dos mais variados caprichos ou pela ausência de qualquer critério na escolha dos prazeres, mas está muito mais próxima de um verdadeiro comportamento ascético. Os ensinamentos de Epicuro conduzem seus seguidores a um cuidado de si mesmo, caminho necessário para se atingir a vida feliz.

Talvez seja difícil de sustentar, nos dias de hoje, a satisfação exclusiva dos prazeres naturais não necessários. Já não distinguimos com clareza os limites que separam o prazer natural do prazer fútil ou mesmo que separam o prazer natural necessário do prazer natural não necessário. Para ser configurado como prazer natural necessário, o arroz que compõe minha refeição deve ser orgânico ou pode ser transgênico? Deve ser plantado em minha horta doméstica ou pode ser comprado no supermercado? Os remédios alopáticos podem ser utilizados para reduzir as dores do corpo ou devemos recusar a ingestão de qualquer produto proveniente da indústria farmacêutica?

Felicidade

A investigação dos prazeres realizada por Epicuro, entretanto, pode levantar uma importante questão. Ao contrário de Paulo de Tarso, para quem “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm” (Coríntios, 6:12), Epicuro estava preocupado com a felicidade do ser humano aqui na Terra, e não com a salvação de sua alma após sua morte, supostamente garantida com a obediência a determinadas regras morais. Por isso, nem todo prazer deve ser buscado não porque seja o único modo de garantir a salvação da alma, e sim porque nem todo prazer conduz à redução ou eliminação da dor e do sofrimento. Sendo assim, podemos nos perguntar de maneira muito didática: o que nos move é a salvação de nossa alma, o que nos faz suspeitar do prazer, a satisfação de todo e qualquer prazer, independentemente da dor acarretada por esse comportamento, ou a busca pela felicidade?


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