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Corpo tranquilo, mente calma

A respiração calma e consciente auxilia no foco de atenção para viver o momento presente

LaVladina / Flickr / CC BY 2.0

Início esse artigo com uma parábola budista:

Certa vez, um guerreiro estava passeando pela floresta e encontrou um grande mestre meditando sob uma árvore. Dirigiu-se a ele e apresentou-se: “mestre, se me permite a intromissão, gostaria de perguntar: o que são realmente o inferno e o céu? ”

O mestre abriu seus olhos, de repente, e começou a despejar uma torrente de insultos e impropérios na direção do guerreiro, que passou rapidamente da surpresa à fúria. Sacou sua espada e quando estava prestes a decapitar o mestre, este disse: “Isto é o inferno. ”

Ao voltar a si e perceber que a raiva o tinha cegado, o guerreiro jogou a arma ao chão, se ajoelhou, chorou e pediu perdão ao monge por quase tê-lo matado. Ele o perdoou e disse: “Isto é o céu. ” 

O poder da mente

Se isso fosse um conto da carochinha, haveria no final a seguinte frase com a moral da história: “Se você não pode achar a paz dentro de si, não a encontrará em lugar nenhum”.

O fato é que não importa onde ou com quem estivermos. Em última instância, quem ditará se a situação é ou não desagradável será nossa mente. Há dias em que nem mesmo um engarrafamento, de três horas, pode nos tirar do sério. Enquanto em outros basta o elevador demorar 15 segundos para perdermos a paciência.

A vida é assim mesmo? Será que nos resta sermos escravos dos nossos humores? Em princípio, pode parecer que sim. Em uma passagem no capítulo 6 do Bhagavad Gita (livro clássico da tradição do yoga), Krishna diz a Arjuna, seu discípulo, que “verdadeiramente, a mente é instável, tumultuosa, poderosa e obstinada. Considero que dominá-la é mais difícil que controlar o vento!”.

Possibilidades

É evidente que não podemos simplesmente ser comandados por nossos humores. Não fazer simplesmente o que nos vem à cabeça é importante para o convívio social. Para o praticante de yoga, que é sempre um aspirante a meditador, saber navegar as ondas mentais é ainda mais importante.

Se o mestre Krishna afirmou que é mais fácil prender o vento que confinar a mente, como poderemos controlar essa que é a função mais sutil de nosso ser?

A ideia não é tentar conter ou liberar o que vem à cabeça, mas saber quais pensamentos valorizar ou não. Isso caracteriza uma faceta de saucam, ou a pureza mental de que nos fala o mestre Patañjali em sua mais célebre obra, os Yoga Sutras, do século 5 a.C.

Nesse trabalho ele lista dez comportamentos chamados yamas e niyamas, cujo objetivo é tornar a mente um terreno mais fértil para a meditação e as práticas espirituais, como a yoga. Ele fornece orientações sobre como atingir a mente por um meio que conhecemos bem: a respiração. Essa é a meta mais significativa da prática do pranayama. 

Respire sua paz

Não é difícil perceber a existência de uma relação estreita entre nossos estados mentais e a respiração. Percebemos que quando estamos excitados ela fica acelerada e curta; quando assustados, torna-se incerta e pesada.

Com base nesse princípio, podemos seguir o conselho do mestre Patñnjali e tentar equilibrar prana e apana, ou seja, tornar inspiração e expiração equivalentes em intensidade, som e duração. A respiração calma, consciente e compassada confere à mente um ar sereno. Quando assim respiramos, fixamos a atenção no momento presente.

Isso é importante, pois a incerteza e a ansiedade estão relacionadas às questões futuras e as bases da autocrítica e do arrependimento ancoradas no passado. Presentes no aqui e no agora, podemos apreciar a paz de estar em nossa própria companhia. Abrimos as portas para duas das mais prezadas qualidades de um iogue segundo a tradição do Vedanta, filosofia hindu baseada nos Vedas, antigas escrituras sagradas: a tranquilidade e a capacidade de foco da mente.

Se a mente é a nossa principal porta de percepção do mundo, precisamos que ela seja objetiva para podermos lidar da melhor forma com os problemas diários.

Respirar bem, portanto, não é apenas uma questão de saúde física como dizem os médicos. É um bálsamo que se torna cada vez mais essencial para o dia a dia na medida em que sentimos o benefício imenso de ter uma mente mais tranquila e focada. E isso não precisa ser feito somente durante uma aula de yoga.

Por incentivarem a sincronia entre movimento e respiração, atividades como corrida ou natação são excelentes meios para entrar em contato com esse aspecto pré-meditativo do ato de respirar.

Já que estamos sempre respirando, por que não tentar?

Foto: Patrik Jones/ Flickr: LaPrimaDonna/ CC by 2.0