Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Receitas

Suco de jabuticaba: bebida contra os radicais livres

Saiba mais sobre

Descartes e a questão mente-corpo

O conceito de divisão entre matéria e substância ajudou a fundamentar o conhecimento científico no Ocidente

geralt / Pixabay / CC0 Creative Commons

A obra "Discurso sobre o método", de Descartes, possibilitou o surgimento do racionalismo moderno

Matéria

A maioria das terapias integrativas, muito em voga nos dias de hoje, investiga nas perturbações da alma as causas do surgimento das doenças do corpo. Pressupõe-se que os sintomas patológicos do organismo seriam apenas a manifestação ou a expressão de distúrbios que se encontram no domínio da mente, da alma e do espírito. Essas terapias estão baseadas em uma interação nada simples entre corpo e alma. Muitos filósofos se dedicaram a resolver essa questão desafiadora. O filósofo francês René Descartes (1596-1640) não foi apenas um deles, seu trabalho influenciou profundamente a filosofia e a ciência da sociedade contemporânea.

Descartes postulava que, além de Deus, o universo era constituído por outras duas substâncias. Uma delas era a res extensa (do latim, “coisa extensa”). A matéria que conhecemos e, mais especificamente, o corpo seriam modificações dessa substância. Assim, o corpo pode ser medido e calculado, pois possui extensão. Outra característica importante do corpo é o movimento: o sangue circula, os músculos se flexionam e se estendem. Por fim, como substância extensa, o corpo não pensa. O pensamento é uma operação que nunca pode ser atribuída ao corpo. Para Descartes, onde não houver alma, não há pensamento.

Pensamento e dualismo

A outra substância era a res cogitans (do latim, “coisa pensante” ou alma). A alma foi caracterizada por Descartes como algo imaterial e, portanto, sem extensão. Por esse motivo, a largura, o comprimento e a profundidade são medidas que não podem ser aplicadas à alma. Ela também foi caracterizada como uma substância pensante, mas, ao contrário do que frequentemente se concebe nos dias de hoje, pensar não era somente raciocinar. Pensar também é ser afetado de alegria, sofrer com uma frustração ou desejar realizar uma atividade para adquirir prazer. A divisão ou dicotomia entre alma e corpo, elaborada por Descartes, é conhecida como dualismo cartesiano.

Essa teoria não se preocupou apenas em definir a substância pensante e a substância extensa, mas também em explicar como uma age sobre a outra. Como é possível que a alma, substância imaterial e sem uma extensão espacial, tenha qualquer poder sobre o corpo, constituído de matéria e com contornos espaciais claramente delimitados? Descartes também questionava o seguinte: se o corpo é matéria, como pode ele afetar a alma, que não possui contornos espaciais claramente definidos? Sendo duas substâncias totalmente diferentes, como a alma e o corpo podem interagir entre si? Segundo Descartes, a alma está vinculada ao corpo de dois modos.

Alma, corpo e glândula pineal

Em primeiro lugar, por não possuir extensão (vimos que a alma não é material), ela está unida ao corpo todo e não apenas a alguma região em particular. Em segundo lugar, de acordo com Descartes, a alma exerce suas funções, mais particularmente por meio de uma glândula do cérebro: a glândula pineal, órgão intermediário que torna possível a interação entre a alma e o corpo. Duas propriedades desse órgão explicariam sua função de intermediário entre a alma e o corpo: unidade e mobilidade. Segundo Descartes, ela seria um única e capaz de reunir as percepções “duplas” provenientes dos órgãos dos sentidos. As imagens visualizadas pelos dois olhos ou os sons percebidos pelos dois ouvidos, por exemplo, encontrariam sua unidade nessa glândula.

Porém, ela também é, segundo Descartes, um órgão móvel, o que a torna capaz de afetar e de ser afetada pelos espíritos animais. Para o filósofo, os espíritos animais são elementos orgânicos responsáveis pela transmissão de movimentos e de sensações, algo equivalente aos impulsos neuroelétricos nos dias de hoje. A interação entre alma e corpo, proposta pelo dualismo cartesiano, entretanto, apresenta um grave problema. Sabemos o que ocorre no caminho que vai do mundo exterior até os sentidos da visão e desses até a glândula pineal. Os objetos exteriores afetam os órgãos dos sentidos, que transmitem imagens até a glândula pineal por meio dos espíritos animais. No entanto, continuamos sem saber como a alma, substância imaterial e sem extensão, pode perceber imagens materiais projetadas na glândula pineal. Como se realiza esse “salto” entre a alma e a glândula pineal, órgão do corpo humano?

Ciência e esoterismo

Segundo problema. De acordo com Descartes, a alma “percebe” as imagens projetadas na glândula pineal. Mesmo que seja possível que uma substância pensante (alma) perceba imagens projetadas em uma substância material (glândula pineal), não sabemos quais são os processos que ocorrem no interior da alma para que as imagens sejam percebidas por ela. Atualmente, algumas leituras do que Descartes escreveu sobre a glândula pineal descambam para o esoterismo. Porém, também já se sabe hoje que ela, nos vertebrados, é fonte de melatonina, hormônio derivado do triptofano (C11H12N2O2), aminoácido cristalino que regula o ciclo de sono. A produção desse hormônio pela glândula pineal está diretamente ligada à ausência de luz, ou seja, ela só acontece quando fechamos os olhos. Não acreditamos que, com essas observações, a questão da interação entre a alma e o corpo esteja plenamente resolvida. Ao contrário, depois de Descartes, muitos outros filósofos e cientistas se debruçaram sobre esse tema, tão instigante e tão complexo. Nossa intenção é simplesmente apontar para a riqueza do debate em torno do dualismo cartesiano.

Foto: Shutterstock