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Compreende-se que a resiliência esteja ligada ao ímpeto de reagir de forma positiva a uma situação opressora

mrhayata / Flickr: Woman / CC BY-SA 2.0

Esse texto tem como finalidade propiciar uma compreensão sobre o que é resiliência e quais são os possíveis benefícios que ela proporciona quando o paciente está internado.

O interesse pelo tema surgiu em atendimentos realizados no Hospital São Paulo, na cidade de São Paulo, quando se percebeu que alguns pacientes da ortopedia apresentavam melhor adesão ao tratamento médico que outros, independentemente da qualidade de seu diagnóstico. Pacientes que tecnicamente encontravam-se em um estado mais grave em relação à sua doença, muitas vezes apresentavam uma reação mais otimista que aqueles cujo quadro, a princípio, não punha em risco sua integridade física.

Nos atendimentos, pude observar uma variedade de recursos de enfrentamento em pacientes distintos, mas com uma semelhança entre si: a capacidade de se apropriar da condição hospitalar de modo positivo em uma disposição inata do indivíduo e sua rápida adaptação ao contexto por meio de estratégias que lhe permitissem a redução do nível de ansiedade, angústia, estresse ou qualquer outro sintoma psíquico.

Proatividade

De acordo com Araújo1 e dentro do campo das ciências humanas, o termo resiliência pode ser definido como a capacidade de se sobrepor à adversidade. Ao contrário do que possa parecer, o conceito difere da mera noção de sobrevivência, já que sugere uma postura ativa por parte do sujeito, ou seja, um enfrentamento da doença. Dessa forma, compreende-se que a resiliência esteja ligada não somente a fatores de resistência, mas também ao ímpeto de reagir de forma positiva a uma situação opressora.

Ela pode ainda ser definida por meio de duas situações básicas: a adversidade, que é representada pelas vivências negativas e a adaptação positiva, exposta pelos aspectos de competência e sucesso social presentes na vida do indivíduo.

Ao longo do trabalho, passei a identificar em alguns pacientes características intrínsecas à concepção de resiliência, dentre as quais ressalto o desenvolvimento de recursos psíquicos que pareciam contribuir para a diminuição do nível de desprazer vivenciado pelo doente, melhor descrito da seguinte maneira: “(...) não é evitação de riscos, nem invulnerabilidade, mas estabelecimento de mecanismos para estimular o enfrentamento de riscos e suportar as adversidades futuras, além de administrar as sequelas dos danos psicossociais ultrapassados”.5

Pontos fortes

Flach2, por sua vez, descreveu alguns dos principais atributos da resiliência no que se refere à prática clínica dentro da psicologia:

  • Sentido de autoestima forte e flexível;
  • Independência de pensamento e ação sem medo de permanecer nesse estado;
  • Habilidade de dar e receber nas relações pessoais e um círculo de amigos bem estabelecido que inclua um ou mais indivíduos que sirvam como confidentes;
  • Alto grau de disciplina pessoal e sentido de responsabilidade;
  • Reconhecimento e desenvolvimento de seus próprios talentos;
  • Mente aberta e receptiva a novas ideias;
  • Disposição para sonhar;
  • Grande variedade de interesses;
  • Senso de humor apurado;
  • Percepção dos sentimentos próprios e dos outros e capacidade de comunicá-los de forma adequada;
  • Grande tolerância ao sofrimento;
  • Concentração: um compromisso com a vida e um contexto filosófico no qual as experiências pessoais possam ser interpretadas com significado e esperança mesmo em momento mais desastrosos.

Ferramentas que fortalecem

Podemos então nos perguntar: o que funciona mais? Proteger o indivíduo de uma situação de risco ou promover estratégias para favorecer fatores de proteção? Essa mesma questão é levantada por Araújo1 e sustentada com base na visão de autores da psicologia positivista que priorizam a investigação dos aspectos saudáveis opondo-se ao método tradicional e sua ênfase em aspectos psicopatológicos.

Considerando que a resiliência não é algo imutável, uma vez que está sujeita a alterações na forma e intensidade com que se apresentam ao longo de uma experiência, surge uma indagação: quais são os fatores que, no ambiente hospitalar, contribuem para que esses aspectos saudáveis sejam despertados e preservados nos pacientes?

Esforço conjunto

Notei que, de modo geral, o estabelecimento de diálogo entre pacientes e equipe médica ocorria a todo tempo. Essa troca poderia gerar ganhos ou prejuízos de acordo com a maneira que a informação havia sido transmitida ou interpretada no caso do paciente.

Kitayama e Bruscato defendem que a tolerância à dor pode ser influenciada pelo significado atribuído a ela4, o que nos faz pensar de que modo os diversos estímulos que englobam o contexto hospitalar, como a relação entre médico e paciente, podem atuar sobre a concepção de doença na percepção do internado.

Deve-se atentar ainda quanto aos recursos de enfrentamento utilizados pelo paciente, definidos pelos autores como “(...) os esforços cognitivos e comportamentais específicos, adotados pelo indivíduo para administrar uma condição de estresse. As estratégias de enfrentamento dependem dos recursos individuais de saúde, crenças e compromissos, habilidades intelectuais e sociais, suporte social e recursos materiais”.Fortes, por sua vez, conclui que “diante de uma condição crônica, o indivíduo deve desenvolver um convívio com a doença que preserve ao máximo sua autonomia, reforçando sua capacidade, atividade criativa e trabalho em equipe”.3

Os atendimentos realizados no Hospital São Paulo tiveram como primeira meta acolher a demanda dos pacientes em situação de internação, dando suporte ao setor de ortopedia e, posteriormente, de neurocirurgia. Considero que tenha sido essencial para minha conduta a relação com os demais membros da equipe, incluindo médicos, fisioterapeutas e enfermeiros, com o intuito de somar nossas percepções de psicólogos às habilidades competentes desses profissionais.

Durante o período de atendimento, me foi concedida a oportunidade de compreender a importância da relação entre médico e paciente, assim como a relevância do papel da família que, por seu envolvimento, desprendimento, disponibilidade e, principalmente, demonstração de afeto, contribui para que haja estabilidade emocional do doente e que ele assimile sua condição hospitalar de forma mais equilibrada.

Por esse motivo, a família também é reconhecida em seu papel de cuidadora, sendo constantemente afetada pela realidade vivida pelo paciente em contato com sua doença, o que sugere que sua necessidade de escuta tenha também de ser suprida.

Pude observar como o paciente que se encontra em situação de internação têm vários âmbitos de sua vida, familiar, profissional e social prejudicados. Eles apresentam como resposta à sua condição os mais diversos sintomas psíquicos e, consequentemente, fisiológicos, à medida que o desajuste emocional compromete a adesão ao tratamento e pode trazer prejuízos consideráveis na evolução de seu quadro clínico.


Veja também:
O inconsciente é musical
Sandra Cabral: cotidiano e resiliência
Psicoterapia e a expressão do ser

Referências

1. Araujo, C. A.; A resiliência. In: Spinelli, M.R. Introdução à psicossomática. São Paulo: Atheneu, 2010.

2. Flach, F. A resiliência. A arte de ser flexível. São Paulo: Saraiva, 1991.

3. Fortes, S. O paciente com dor. In: Botega, N. J. (org.). Prática psiquiátrica no hospital geral: interconsulta e emergência. Porto Alegre: Artmed. 2002.

4. Kitayama, M. M. G.; Bruscato, W. L. Abordagem psicológica da dor no paciente grave. In: Andreoli, P. B. A. A.; Erlichman, M. R. Psicologia e humanização. São Paulo: Atheneus, 2010.

5. Rutter, M. Resiliência: Algumas considerações conceituais. Jornal da saúde do adolescente, 1983.