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Espiritualidade laica

A noção costuma ser associada à religião, mas ela não se limita a isso

avi_acl / Pixabay / CC0 Creative Commons

A perspectiva religiosa situa o ser humano em relação a uma divindade com a finalidade de salvação da alma. Aqui, encontra-se um problema: a relação entre ser superior, alma e espírito. Como se costuma dizer na filosofia: é preciso separar as coisas.

Matéria sutil

Espírito, mente, pensamento e alma são palavras que costumam ser pensadas em oposição a um único conceito: a matéria. Mas, será que é assim mesmo? Essa questão diz respeito à composição da realidade e sua composição e à essência do ser humano. Somos a união de matéria e espírito ou de um corpo e de uma alma? Somos um composto ou uma unidade?

A relação existente entre corpo e alma e espírito e matéria é geralmente pensada como contrária no sentido e no significado. Será essa distinção pertinente? Precisamos realmente pensar o mundo e nós mesmos com base nessa oposição? Para os gregos – e Aristóteles em particular – a matéria é aquilo de que os corpos são feitos por oposição à forma não por oposição à inteligência ou espírito. Este é entendido como a morada dos estados mentais de todo tipo, como o pensar, o imaginar e o sentir e pertence ao domínio daquilo que se passa em nossa cabeça ou em nosso coração, ou seja, nossa interioridade.

Material versus imaterial

Esse é o ponto fundamental da discussão. Se é verdade que a matéria não se define necessariamente por oposição ao espírito, este, sim, se define por oposição à matéria, ou seja, ele é o imaterial e eterno. O filósofo romano Lucrécio afirmou, no século I antes de nossa era, que o espírito é uma matéria sutil. Para ele, o espírito é composto pelos mesmos elementos que qualquer corpo material e por isso formam o que ele denomina como todo.

É importante ter bem claro que a mente, ou espírito, é o núcleo de nossa capacidade de imaginar, sonhar, desejar e criar. É a atividade mental que nos permite escrever um texto, compor uma música, pintar um quadro ou fazer um desenho. Assim como é ela que nos faz saltar de uma discussão puramente científica para uma consideração poética ou mesmo engraçada.

Como interagem o espírito e a matéria?

Por trás da discussão sobre o monismo (concepção de uma substância única) ou dualismo (duas substâncias) do ser humano, está a questão da interação compulsória entre elas quando se considera que são realmente duas. Na modernidade, para alguns pensadores, a resposta é que o corpo age sobre a alma pelas sensações e paixões e que o contrário se dá pela vontade ou, se quisermos, pela consciência.

Uma ocorrência corporal como cortar o dedo tem por efeito uma resposta mental de dor que é a mensagem de ida e volta nos neurotransmissores. O ato de pensar que “é hora de sair da cama” é a causa de uma ocorrência corporal (sair da cama). Como explicar essa interação e que duas realidades sem nada em comum e sem ponto de contato possam se influenciar? Essa foi uma discussão recorrente entre os filósofos. do século 17. René Descartes, por exemplo, dizia que essa união acontecia na glândula pineal, localizada no centro do cérebro. Ela funcionaria como uma encruzilhada na qual os espíritos animais e materiais (corpos minúsculos que circulam no sangue) chegam ao cérebro e são redistribuídos ao corpo.

Esse fenômeno, conhecido atualmente como paralelismo psicofísico, refere-se a cada ocorrência corporal correspondente a uma ocorrência mental, ou seja, a atuação em paralelo da psique e do físico. O entendimento filosófico predominante hoje é monista, pois defende que a realidade do ser humano é una e não dupla.

Espiritualidade

A noção de espiritualidade tem significados diferentes e depende do contexto em que é utilizada. Para as religiões, é entendida como a perspectiva do ser humano em relação a um ser que é superior. Do ponto de vista filosófico, tem a ver com a oposição entre matéria e espírito ou exterioridade e interioridade. Ela designa ainda a busca de do sentido da vida, de esperança e de libertação por meio de rituais, iniciações, desenvolvimento pessoal etc.

O conceito passou a ser secular e já não é exclusividade do controle religioso institucional. A filosofia, que assim como a ciência discute qualquer tema com rigor e precisão, não especula e não diminui o valor do empirismo. Não se pode discutir a espiritualidade como algo relacionado a crenças religiosas ou não. Nossa interioridade (ou espiritualidade, se quisermos) não se reduz ao raciocínio ou ao intelecto.

A espiritualidade pode assumir várias práticas:

  • reflexão, engajamento social e diálogo.
  • meditação e prece.
  • trabalho manual ou intelectual, leitura e instrução.

Algumas dessas atividades são solitárias e outras coletivas. Algumas interiores e outras vividas no exterior, na vida civil. Algumas são contemplativas e outras práticas. O entanto, todas são válidas e respeitáveis, pois permitem abordar a espiritualidade de uma determinada maneira.

Espiritualidade laica ou sabedoria para mortais

Havia na cultura grega uma tensão que permitiu a transição dos mitos ao pensamento racional (filosofia), sobretudo pela influência da recusa do que é místico e pela predominância do que é razoável no mito (a religião grega). Essa negação do misticismo se traduziu numa tradição de lucidez. A tensão, que para o filósofo Luc Ferry é uma espiritualidade laica, ocorre antagônica e simultaneamente em duas frentes: o ordenado e o espontâneo em um lado e a filosofia (ciência) e a religião em outro.

Na obra “A sabedoria dos mitos gregos”, Luc Ferry explica que, por definição filosófica, a noção denominada por ele como “salvação de Deus”, forja-se como herança dos mitos gregos. Ela é uma resposta à questão da vida boa que não passa por um ser supremo nem pela fé, mas por um esforço próprio de pensamento e pela razão. Em suma, é “uma exigência de lucidez, como condição última para a serenidade, compreendida em seu sentido mais simples e forte: uma vitória [...] sobre o medo, o medo da morte, em particular, que [...] nos impede de viver bem.1”

Ferry diz “curiosamente” porque o que os mitos põem em cena são deuses e eles são os protagonistas. Mas é “pelo contraste com os Imortais e sem esperança alguma de alcançá-los e, com isso, com plena consciência dos limites da condição humana”1 que aprendemos a “resolver sozinhos, e nesse sentido, de maneira ‘leiga’, a questão do ‘saber viver’”1.

Nessa mesma linha de abordagem Nietzsche dirá que muitos são os que, apesar de se dizerem iluministas, ainda são prisioneiros da religião (transcendência e valores morais). Em vez de Deus, veneram falsos deuses e ídolos. Essa é a razão, para o filósofo, de estarem na mira da filosofia do martelo todos os que não aceitam a vida como ela é. São niilistas que merecem marteladas de desconstrução porque negam a vida.

Nietzsche propõe uma concepção libertadora da vida. Sua linha filosófica se assemelha golpe do martelo: destrói à pancadas, sem dó, construções arcaicas e obsoletas que impedem a construção de um novo edifício do pensar e do viver humano. O pensador do alegre saber preconiza que deixemos para trás e para sempre os ranços da humanidade típicos do saber moral, pois ela foi construída e imposta à humanidade com a finalidade de escravizar, dominar e vergar, não para libertar ou fazer crescer.

O filósofo ainda nos fala do prazer de criar, da vontade de vida que deve se afirmar eternamente a si mesma. Segundo suas proposições, não se pode ter prazer de criar quando se está preocupado com as convenções e imposições morais, sociais e políticas como fazem muitos intelectuais academicistas. Só o pensador de espírito livre conhece esse prazer.

Cada um de nós deve ter a liberdade de poder questionar e quebrar os dogmas do mundo exterior e os de sua própria racionalidade momentânea. Essa dinâmica incessante está expressa na metáfora do martelo desmonta à marteladas as ideias pré-concebidas. No fundo, abordar uma questão de vários ângulos e pensar sobre ela em diferentes perspectivas é algo bem simples e saudável.

Foto: Thinkstockphotos

Referências

1. Ferry, Luc. A sabedoria dos mitos gregos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.