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Meditação contra a obesidade

As técnicas de mindfulness têm sido empregadas com sucesso para diagnosticar e tratar transtornos alimentares

potamos.photography / Flickr: old jeans / CC BY-ND 2.0

O aumento dos índices de obesidade pode estar relacionado a problemas cognitivos

O número de pessoas obesas tem aumentado dramaticamente nos últimos anos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 35% dos adultos apresentam algum grau de sobrepeso.1 A obesidade está relacionada às principais causas de morte, como disfunções renais, diabetes e doenças cardiovasculares. É comum aos profissionais de saúde ouvir relatos de pacientes que enfrentam dificuldades para emagrecer ou não conseguem manter os bons resultados atingidos em algum momento do tratamento dietético.

Relação entre cognição e obesidade

Há muitos fatores que predispõe um indivíduo à obesidade. Os estudos mais recentes mencionam influências genéticas, comportamentais, alterações metabólicas e neuroendócrinas, além da presença de mecanismos cognitivos, ou seja, de percepção do mundo, que regulam a tendência ao consumo alimentar excessivo.

Alterações no sistema de regulação da dopamina, neurotransmissor produzida pelo cérebro e responsável pelos movimentos e mecanismos do sono, humor e memória, estão associadas ao processamento de recompensas e prazer. Além disso, experimentos científicos indicam que as respostas a essa substância podem ser condicionadas a estímulos que foram previamente ligados à nutrição. É possível que ocorra o destaque do estímulo relacionado à alimentação em detrimento de outros, quando apresentados em uma mesma situação.

Estudos que apoiam esta hipótese apontam que indivíduos obesos, quando comparados a pessoas saudáveis, apresentam respostas mais rápidas nas tarefas que envolvem palavras da categoria alimento, além não se sentirem inibidas com imagens relacionadas em comparação com palavras ou imagens neutras. Além disso, os resultados sugerem que quanto maior a orientação inicial, maior também a chance de essas pessoas possuírem alto índice de massa corporal (IMC). A maior disponibilidade desse estímulo no campo da atenção pode aumentar a sensação de fome e a desinibição para comer.

Redução de vulnerabilidade

É possível regular com sucesso a atividade de dopamina e o processamento emocional com estratégias cognitivas, como eliminação e retribuição de conceitos (ou reavaliação da situação). Outros estudos, que também envolvem estratégias de autoinstrução, como pensar nas consequências em longo prazo de ingerir alimentos calóricos, mostram a ativação de regiões pré-frontais do cérebro associadas à vontade e ao controle dos impulsos.

A utilização de atividades cognitivas controladas pode reduzir a tendência não intencional e a chance de comer de forma desordenada. Os programas de controle de peso contribuem para a perda de massa corporal quando combinam equilíbrio nutricional e exercícios físicos bem orientados e controlados. Contudo, algumas intervenções adicionais de desenvolvimento de habilidades de controle cognitivo e emocional e de aceitação e atenção plena, são importantes para aperfeiçoar o tratamento em longo prazo, modificar os padrões do comportamento alimentar e evitar a recuperação do peso.

Mindfulness e sobrepeso

As terapias cognitivo-comportamentais afirmam que a inter-relação entre cognição, emoção e comportamento contribuem para o funcionamento normal do ser humano. “Há uma interação recíproca de pensamentos, sentimentos, comportamentos, fisiologia e ambiente”, afirma Paulo Knapp, autor do livro Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. As distorções cognitivas, ou pensamentos disfuncionais, são bastante prevalentes em indivíduos com sobrepeso em razão de nossas emoções e comportamentos serem influenciados pelo que pensamos.

Há diversas formas como as pessoas interpretam suas experiências sobre peso, alimentação e valor pessoal, como a crença de que ser magro está associada a autocontrole e que competência e superioridade interferem diretamente na constituição da autoestima. A mudança deste componente pode influenciar na modificação de comportamentos e atitudes, além de contribuir para um funcionamento mais flexível frente aos alimentos e transformação das sensações negativas relacionadas ao próprio peso.

Intervenções

Outra intervenção que pode contribuir para um funcionamento mais adaptativo são as práticas baseadas em mindfulness, ou atenção plena, exercício meditativo encontrado em diversas tradições culturais, religiosas e filosóficas. O médico norte-americano Jon Kabat-Zinn2 define o mindfulness como “a ação de focar a atenção intencionalmente na experiência do presente de forma a aceitar, sem julgamento ou apego, a forma como esta experiência deve ou não deve ser”. O estado mental de atenção plena pode ser treinado por meio de técnicas ou exercícios meditativos e psicoeducativos fundamentais.

Tais práticas ajudam no desenvolvimento do foco necessário para a vida diária e auxiliam na percepção de respostas automáticas que muitas vezes refletem hábitos e comportamentos não saudáveis. Um estudo realizado na Universidade de Maastricht, Holanda, pelo pesquisador Hugo Alberts sugere que os programas de intervenções baseadas em mindfulness contribuem para a diminuição da compulsão alimentar. Programas que incluam práticas meditativas e controle cognitivo e emocional podem melhorar a capacidade de autorregulação e monitoramento sobre o comportamento de comer. Desta forma, elas possuem um papel importante para o tratamento de doenças como a obesidade e para a promoção de saúde. Os projetos de tratamentos complementares promovem um estilo de vida mais saudável, reduzem os sintomas de estresse e melhoram o bem-estar.

Artigo elaborado em colaboração com Isabela Maria Magalhães Lima

Referências

1. WHO. Obesity and overweight. Fact sheet nº 311. 2014. Disponível em: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en>. Acesso em 24 out. 2014.

2. KABAT-ZINN, J. Full catastrophe living: using the wisdom of your mind to face stress, pain and illness. New York: Dell Publishing, 1990.

3. ALBERTS, H. J. E. M.; MULKENS, S.; SMEETS, M. Coping with food cravings. Investigating the potential of a mindfulness-based intervention. Appetite, London, v. 55, p. 160-63, 2010.