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O poder transformador da yoga

Conheça os valores da filosofia oriental que sustentam a prática milenar amplamente difundida no Ocidente

gorkhe1980 / Pixabay / CC0 Creative Commons

É difícil encontrar uma atividade hoje em dia que seja tão paradoxal quanto a prática de yoga. Nunca tivemos tanta informação disponível sobre esse estilo de vida milenar, com inúmeras publicações, especiais de TV e DVDs de pessoas capacitadas falando sobre o tema e, ao mesmo tempo, cada vez menos sabemos sobre o que realmente é, em essência, o yoga.

Normalmente, o tópico de qualquer matéria sobre o assunto gira em torno dos asanas (os exercícios), ou do pranayama (a respiração), ou mesmo da meditação, e embora isso tudo seja muito bom, trazendo muitos benefícios, olhar para esses elementos e tentar enxergar a essência do yoga é o mesmo que tentar descobrir o que é um elefante somente lendo a respeito da tromba, das patas e da cauda.

Iniciando a prática

Como exemplo prático, podemos ter em mente a pessoa que entra em um estúdio de yoga, com o desejo de iniciar sua prática e dá de cara com aquele bando de nomes esquisitos: asthanga, vinyasa, hatha. Será que tudo isso é yoga? Ficar se contorcendo em cima de um tapetinho ou passar horas e horas regrando a respiração serve a qual propósito? E onde entra a meditação?

Para se ter uma visão da linha mestra que justifica todo o conjunto, precisamos voltar à origem. E quando se fala em yoga, é em direção aos Vedas (textos clássicos indianos) que precisamos olhar, porque é lá que essa palavra foi “registrada” primeiro. As aspas estão ali, pois no início a tradição do yoga era oral e, portanto, só foi escrita muito mais tarde. De qualquer forma, os Vedas são o corpo de conhecimento recebido pelos grandes sábios do passado (chamados rshis) e que foram compilados em quatro livros por um desses sábios conhecido como Vyasa: Rig, Sama, Yajur e Atharva.

Cada um desses quatro livros é dividido em duas partes, sendo que na primeira (a maior delas) temos mantras que versam sobre os rituais, a conduta correta (dharma) e também sobre as melhores formas para propiciar as antigas deidades védicas (como Indra, o relâmpago, ou Vayu, o vento). Essa primeira parte fala, portanto, sobre karma (ação) e como essa ação pode conduzir o sujeito a dois dos grandes objetivos da vida: segurança e prazer (regrado pelo dharma, a boa conduta).

Simples e complexo

Só que o ser humano não se resume a um buscador de segurança e prazer. Segundo esses textos, ele anseia sempre a mais e sua sensação de inadequação pode ir mais fundo. Mais cedo ou mais tarde, ele percebe que sofre de uma sede que não pode ser saciada pelos meios que conhece, ou seja, fazendo ações para obter coisas, simplesmente porque essa roda gira infinitamente.

A felicidade que se encontra pela realização de um objetivo ou aquisição de um objeto logo dá lugar novamente à tristeza e à carência. Assim, a segunda parte dos Vedas fala sobre liberação, sobre como podemos nos ver livres do sofrimento. E a esse propósito servem as Upanishads, textos com diálogos entre mestre e discípulo sobre a real natureza do "ser", já completo em si e livre de limitação. O reconhecimento dessa natureza é chamado yoga, bem como o caminho (sadhana) para a obtenção desse fim pode ser chamado yoga.

Caminho

Assim, podemos resumir a prática de yoga como o caminho que tomamos em direção a nós mesmos, um meio de conhecimento que pode revelar nossa real natureza. Porém, a coisa não é tão simples, é claro. No meio do caminho estão as identificações equivocadas com o corpo, a mente, as emoções e pensamentos. Como se não bastasse, muitas vezes não estamos livres para tomar nossas atitudes em relação a isso, pois agimos sob influência de uma programação.

Hábitos do nosso dia a dia (ou trazidos de outra, diz essa tradição) mantêm a mente presa a padrões de comportamento frente a determinadas situações. Todos já passamos por situações em que a programação tomou conta. Isso ocorre, por exemplo, quando alguém fala alguma coisa que mexe com algo dentro de nós e, de repente, puft! já respondemos rispidamente, ironicamente ou até mesmo partimos para uma agressão. Depois pensamos como perdemos o controle e mal podemos acreditar que fomos nós que fizemos isso ou aquilo.

Minimizando os problemas

Felizmente, temos formas de trabalhar esses aspectos. Para neutralizar a ação de todos esses elementos negativos, podemos então contar com vários recursos que já conhecemos. Nesse momento, entram em cena as posturas (asanas), que podem atuar em desequilíbrios do corpo e minimizar o impacto das emoções negativas sobre ele.

Também assim trabalha o pranayama (respiração), para regrar o aspecto sutil do corpo e prover a mente com a capacidade de acalmar-se e concentrar-se. Depois, temos também a meditação, que transforma a mente em um instrumento poderoso de auto-observação e, em última instância, pode até mesmo levar o praticante a uma experiência direta desse “eu” completo e livre de limitação.

Fazendo sentido

Agora, tudo faz mais sentido. Posturas, respiração e meditação estão a serviço da tradição para preparar a mente para o autoconhecimento que também pode ser obtido através do estudo dos Vedas. E eles nos dizem que já somos aquilo que buscamos, já temos a felicidade que tanto almejamos. Só precisamos nos dar conta disso. Isso é yoga.

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