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Passos da meditação cristã

Meditar sobre a vida de Jesus é um fio que liga as mais diferentes tradições

Foto: Moyan Brenn/ Flickr: Moyan_Brenn/ CC by 2.0

Ao buscar o silêncio, o cristão se esforça para ser um agente do divino

Meditar é um ato essencialmente cristão e isso pode ser surpreendente para quem associa a palavra com yoga ou práticas orientais. A prática da meditação é algo que os monges cristãos faziam poucos séculos depois de Cristo. A própria palavra é a causa desse mal-entendido em razão de ter adquirido vários significados ao longo dos séculos.

Originalmente ela vem de medesthai, que em grego significa "estar atento" e "pensar sobre". Dessa raiz vieram palavras que hoje parecem distintas, mas são ligadas como galhos de uma árvore: medir, medicar, médico, moderar e meditatio, que em latim refere-se à prática ou exercício contemplativo.

Origem do termo

Essas palavras convocam à ponderação e cura daquilo que está em desequilíbrio. Da observação cautelosa vem a descoberta, o cuidado e a harmonia em um processo de introspecção e análise do universo interior e exterior.

A partir do século 19, o uso do termo meditatio para se referir às práticas contemplativas que chegaram ao conhecimento dos europeus fazia menção a uma técnica que os cristãos já praticavam há séculos, mas de forma diferente às dos orientais, mas similar no conjunto.

Princípios da meditação cristã

O fundamento da meditação cristã é contemplar diferentes aspectos de Deus, de Jesus e da filosofia do próprio cristianismo em relação a ela mesma. Não é necessário sentar em uma posição especial ou respirar de maneira específica. O importante é elevar o pensamento a Deus e ao divino.

Como em toda prática meditativa, o fundamental é exercitar a focalização da mente em um ponto – nesse caso, em um assunto. A insistência no que é proposto ajuda quem medita a se aprofundar e encontrar uma verdade interior que o conduz à presença de Deus.

Oração da união

Teresa de Ávila escreveu sobre “As cinco mansões de Deus”, uma jornada de meditação. Ela descreve um estado parecido com a oração em que as palavras e a conversa com o divino cessam naturalmente e dão espaço a uma sublime comunhão.

No início da meditação, a pessoa pede, com o coração ardente em fé, que possa entrar nas Mansões onde habita o sagrado. As palavras dão espaço a um silêncio mental, embora a intensidade e o ardor da vontade de estar na presença de Deus continuem.

Quietude

O segundo estágio é a “Oração da quietude”, que fornece uma sensação de extraordinária paz e quietude, seguida de uma crescente certeza do contato com Deus e a alegria de estar em Sua Presença. O terceiro estágio é a Oração da União, descrito assim por Teresa de Ávila:

“Uma união da alma com Deus, acompanhada da certeza Dele estar em nossa Alma, e a suspensão de todas as atividades internas. Não há distrações porque a alma está absorvida em Deus. Não há fadiga, não importa o quanto a união dure, porque ela não resulta de esforço, mas de alegria. À alma resta apenas zelo ardente para glorificar a Deus; desapego de todas as coisas, perfeita entrega, e grande caridade.”

A experiência mística de união com Deus, o Criador de Tudo, é também o objetivo da meditação oriental dos indianos. Entretanto, para a vasta maioria dos teólogos cristãos, a união da alma com Deus se dá pela proximidade do Espírito Santo.

Meditações de Ignácio de Loyola

Santo Ignácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, da qual o Papa Francisco faz parte, criou uma série de exercícios espirituais meditativos usados por cristãos desde 1548.

O exercício contemplativo é dividido em quatro semanas, que se tornam mais intensas quando praticadas em sequência. Ele menciona meditações sobre a natureza do mundo e do homem, a relação do ser humano com Jesus e Deus, e a vida de Cristo.

Retiro

Na primeira semana, normalmente em um local isolado, a pessoa contempla o pecado e a natureza humana. O sentimento de desassossego e fraqueza que geralmente aparece nessa etapa cria uma sede por harmonia e uma busca por soluções. Na segunda semana, medita-se sobre a vida de Jesus. Na terceira, o foco é a paixão de Jesus e o seu amor por nós.

A última semana é a alegria do reencontro com a ressurreição de Cristo, a redenção e a esperança que disso vêm. É recomendado que um mentor experiente acompanhe o progresso do meditador, guiando-o e aconselhando-o, para elucidar as experiências internas que acompanham esse exercício.

Nova vida

Na meditação de Inácio de Loyola, o objetivo é encontrar o que ele chama de consolação, que nesse contexto significa algo profundo. Trata-se da certeza da presença de Deus, de estar alinhado com a Sua Vontade, realizar Sua Obra e ser adequadamente protegido e infinitamente amado.

O que se busca, como é tradicional entre os membros da Companhia de Jesus, é aplicar na prática as descobertas e transformações resultantes da meditação para dar à vida uma nova perspectiva.

Outras técnicas de meditação cristã

O que foi descrito até tem raízes em técnicas antigas e anteriores à reforma protestante. Entretanto, as apresentadas até aqui são consideradas válidas por todos os cristãos às vezes com pequenos ajustes.

Meditar sobre a vida de Jesus é um fio que liga as mais diferentes tradições do cristianismo. A prática se concretiza ao escolher um episódio ou aspecto histórico do messias e refletir longamente sobre ela.

Pensar ou meditar?

É perfeitamente possível meditar com base em um dos mistérios da fé, como a natureza do Espírito Santo ou a graça de Deus. A diferença entre apenas pensar sobre o assunto e realmente meditar consiste em estar presente e sentir plenamente aquilo que se pensa.

Ao meditar sobre a vida de Jesus na Galileia, por exemplo, a pessoa irá se concentrar em sentir a simplicidade da vida de Jesus, os caminhos de poeira por onde andava, os perigos que enfrentava, a carência aguda, a ignorância do povo e o amor do messias pelas pessoas. O meditador não irá apenas refletir, mas efetivamente sentir em si o amor, a simplicidade e o desapego como se ali estivesse, ombro a ombro com o Cristo.

A força das palavras

Outro método bem difundido atualmente é a emulação do que os orientais realizam com os mantras, ou seja, a meditação com uma palavra repetida por um longo período. Também nesse método é necessário sentir, e não apenas repetir. As palavras utilizadas podem ser várias e em língua coloquial se necessário: graça, amor, perdão, entrega, fé, aceitação, sublime ou, redenção.

Em cada repetição, o meditador procura primeiro encontrar o conceito em si, depois sentir a dimensão divina e ao fim unir-se a aquilo em que medita: a graça e o meditador tornam-se um só.

Visão protestante

Os quacres, cristãos protestantes que recomendavam a simplicidade na vida e o retorno às raízes bíblicas da fé, meditam na Luz Divina que emana de Deus e de tudo aquilo que vem de Deus. Baseiam-se na passagem de João 8:12: “Jesus disse: 'Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida.”

A intenção dos quacres é encontrar essa luz em si mesmos. Eles dizem: “É no silêncio que começa a brilhar a luz interior”. Trata-se realmente de meditar, visualizar, conectar-se com essa intensa luz e não apenas à sua metáfora.

Objetivos da meditação cristã

Para a maioria dos cristãos ao longo dos séculos, o objetivo da meditação não era relaxar, mas alinhar-se com a Vontade de Deus. Embora paz e serenidade sejam frequentemente efeitos da meditação, eles não são o principal. O meditador intenta ser uma pessoa melhor em si mesmo e em suas ações no mundo.

Assim, ao realinhar-se periodicamente com Deus e ao buscar o silêncio e a Presença Divina, o cristão se esforça para ser um agente na quietude interna, reafirmar a Vontade Sublime e sentir o Amor Divino por todas as coisas e toda a criação.