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Peru e as belezas escondidas de Lima, Ancash e Machu Pichu

Sem dinheiro e documento, repórter se (re)descobre no país de Vargas Llosa ao percorrer roteiro pouco explorado por brasileiros

ajshalom / Pixabay / CC0 Creative Commons

Ancash

Logo no desembarque, o carimbo da dúvida atingiu meu passaporte. “Viajo porque preciso”, penso ainda no saguão do Aeroporto Internacional Jorge Chávez, espécie de triunfo arquitetônico de Lima – e eleito o melhor da América Latina, em 2014. Mas o destino, tanto quanto a razão da viagem, me guiava ao sentido inverso da sentença. Porque o verbo viajar carrega em sua essência enorme bagagem de significados, e feito mais de imprecisões que certezas. Logo de cara, tive de aprender a viver sem dinheiro e documento. Um milésimo de descuido e, pimba, meu plano de voo toma novos rumos. Fui roubado.

Mas o furto imediato na capital peruana não abalou o andamento da aterrissagem. Parti rumo ao desconhecido, ciente apenas de que teria de traçar novos caminhos: negociar hospedagem, ir à embaixada brasileira para solicitar um novo documento, fazer boletim de ocorrência para não ter problemas com o uso do cartão. Essas foram as primeiras medidas. Depois disso, contaria com o acaso para que o céu se abrisse e a viagem fizesse (novamente) sentido.


Nativa nos arredores de Huaraz (esq.) e senhor durante feira gastronômica em Miraflores (dir.)

Miraflores

“Viajo porque preciso, mesmo diante de tantos imprevistos”, digo em voz alta. Foi assim que cheguei a Miraflores, o bairro-fetiche de Lima, a capital peruana, o “hogar dulce hogar” de Mario Vargas Llosa. Paro numa esquina qualquer e folheio a esmo Travessuras da Menina Má: o território que serve de cenário para o livro nos anos 50, de certa forma, ainda estava lá. Parques magníficos, turistas de todos os cantos, gastronomia em altíssima temporada, ciclovias, praias geladas, festas e...caos, muito caos. Miraflores, meu caro Llosa, agora é um bairro do mundo.

Orla de Miraflores vista do Parque do Amor: o requinte do cartão postal da capital peruana

Não demorou para que o acaso (sempre ele) me resolvesse as pendengas de estar fora de casa sem grana, mas com muita gana de reescrever o próprio roteiro. E não faltou gente para mostrar que, se você está com a mente limpa tudo ficará chévere – saudação peruana para legal, bacana, da hora. Ao lado do colombiano Diego Cano e com ajuda de uma dezena de gringos, engavetei as frustrações pelos problemas inicias e dei início à exploração do bairro. Cafés escondidos, mercados municipais (o Ricardo Palma, embora feio e um pouco sujo, é um oásis da comida barata), feiras, botecos, noitadas na grama, caminhadas quilométricas pela orla e, claro, outros tantos imprevistos.


Sete mil corpos ainda estão soterrados após o terremoto de 1970 em Campo Santo de Yungay

A Miraflores de Llosa está lá, presente no Café La Tiendecita Blanca, no xadrez jogado nas ruas, nos parques, nas ruazinhas charmosas e arborizadas, nos ceviches não "gourmetizados" e na multidão que se ajuda e se ama como se o sonho hippie dos anos 60 (e as consequentes e fracassadas tentativas de revolução) ainda fossem possíveis. Já não são. Mesmo assim, a vida no bairro mais charmoso da capital peruana ainda é um sonho, como se todas as pessoas de lá vivessem em um “país à parte”, até mesmo para os nativos.

O delicioso bairro evidenciou duas coisas: estar sem documento e dinheiro não melhorou minha viagem, mas me obrigou a fazer check-out nas conveniências e trilhar um novo caminho. Viajar, no fim das contas, se tornou saborosamente impreciso.

Ancash

A ideia inicial era conhecer o Peru do Amazonas ao deserto, do litoral ao pico culminante. Mas isso requer tempo e grana. Quando recuperei meu cartão (a empresa responsável demorou longos 12 dias para enviar um novo) tive de refazer o roteiro e dar prioridade para poucos mas cuidadosamente selecionados destinos. E o primeiro de todos, por haver neve, ser muito barato e ainda pouco explorado, foi a região de Ancash, no norte. Com base em Huaraz, uma província turbulenta, suja e ainda pouco turística, temia ter feito a escolha errada. Mas com novas pesquisas e o aval dos próprios peruanos, mudei de ideia assim que parti rumo ao topo do Nevado Pastoruri. Estar a 5240 metros de altitude e praticamente isolado de civilização causou impacto tão grande que as primeiras lágrimas (segurei o choro quando perdi os documentos) vieram ao mesmo tempo em que a neve caía.

O impacto maior, no entanto, ainda estava por vir. Num dos passeios pelo norte, o motorista que nos conduzia ao Parque Nacional Huascaran (outro destino imperdível) nos perguntou se gostaríamos de alterar a rota para conhecer o Campo Santo de Yungay. Sem saber do que se tratava, não fiz objeções. No primeiro passo no local tudo veio à tona: estávamos sobre a cidade soterrada no triste e histórico terremoto de 31 de maio de 1970, que matou 26.800 das 28 mil pessoas que viviam por ali. Impossível ficar imune. Impossível não desmoronar diante de tanta energia.


De Santa Teresa a Machu Pichu: metade do preço, o dobro do tempo e o triplo de emoção

Machu Pichu

Com uma semana para o fim do prazo programado da viagem, ainda não tinha incluído Machu Pichu no roteiro. “Você foi ao Peru e não foi até lá?”, era o questionamento que temia receber assim que voltasse ao Brasil. Tinha 500 soles (algo como 650 reais) em mãos e, segundo meus cálculos, isso só daria para a viagem de ida e volta até Cusco e de ônibus. Resolvi encarar e tentar contar, mais uma vez, com os benefícios do acaso. Depois de 22 horas e meia de viagem de Lima a Cusco, cheguei e imediatamente parti em busca de alternativas para seguir viagem até Machu Pichu. Com ajuda de outros gringos, fechei um pacote com toda grana que tinha em mãos para fazer o temido, perigoso e assustador Camino de Santa Teresa: seis horas de van por uma das estradas mais tensas do Peru, mais 11 quilômetros de caminhada na floresta até Aguas Calientes e mais dois mil degraus até a base do Império Inca. “Para quem passou 12 dias praticamente sem dinheiro, enfrentar a natureza seria moleza”, pensei, num lapso tão equivocado quanto inocente. O Caminho de Santa Teresa é, na essência, muito mais interessante que a própria cidade de pedra de Machu Pichu.

Conhecer a cidade foi sem dúvida muito marcante, porém, nada se compara ao desafio de enfrentar a caminhada e conhecer suas belezas escondidas. Durante o trajeto, tornou-se evidente que, como escreveu Mario Vargas Llosa: "a incerteza é uma margarida cujas pétalas nunca acabam de desfolhar". Passo a passo, ou melhor, pétala por pétala, cheguei em Machu Pichu e aprendi a razão dos versos de Paulo Leminski:

"não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino"

Fotos: Henrique Nunes


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