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Pescoço, medo e tablet

Os problemas musculares que nos atingem na era digital têm origens evolutivas muito antigas

John Perry / Flickr: Modern pastimes / CC BY-SA 2.0

Sempre que recebo clientes com dores na cervical ou na lombar elas me contam a mesma história: “acordei assim, não fiz nada de diferente”. Esse processo começa muito sutil durante o nosso dia. É a forma como você senta, deita e dorme. É o grau de estresse que sofre o dia inteiro. É o seu completo desconhecimento do seu corpo e dos milhões de sinais que ele envia a todo momento dizendo que você está sentado errado ou trabalhando demais. Tudo isso que faz você acordar “do nada” de pescoço travado.

Uma das razões para esse tipo de dor ser tão popular está na nossa biologia evolutiva. Em um programa de TV do mundo animal onde um leão ataca a presa, pode-se notar que o alvo que a fera busca é sempre o pescoço. Isso ocorre porque é certo o sucesso da caçada se o predador conseguir desconectar o corpo da presa de sua mente. Um corpo sem cérebro é um corpo morto! Sem o cérebro comandando impulsos para o corpo fugir, nada mais acontece, o que não ocorre se ele for capturado pela perna, por exemplo.

Impulsos primitivos

É no nosso cérebro reptiliano (localizado na base do crânio junto ao pescoço, a mais primitiva parte do nosso cérebro humano) que está armazenada essa memória de medo e ataque. Graças a esses impulsos primitivos sobrevivemos para nossa evolução no mundo animal. Mas o grande problema de estresse hoje em dia também está associado a esse instinto. Não moramos mais na selva, não encontramos leões a cada esquina, porém nosso cérebro não consegue perceber a diferença entre um perigo real e um imaginário. Aquele carro que cruza a sua frente ou o chefe nervoso cobrando seu trabalho é interpretado com o mesmo perfil de milênios de evolução. A resposta do seu corpo a essa ameaça é a mesma da gazela fugindo: contrair os músculos do pescoço numa tentativa de escondê-lo e minimizar um golpe.

Sentimentos e anatomia

Não quero abordar aqui o assunto de forma técnica. O importante para a maioria das pessoas é perceber que o estresse, que é um instinto de sobrevivência da espécie, na nossa rotina diária desencadeia os sentimentos de medo e raiva. E medo e raiva estão localizados bem nessa região cervical. O medo contrai esses músculos atrás do pescoço e ombros. Já no movimento da raiva são mobilizados os músculos do maxilar e laterais do pescoço. Faça o teste, exagere a postura de um animal raivoso rosnando. Passe seus dedos pelo pescoço e face e perceba as áreas que estão rígidas. Provavelmente ao se tocar notam-se áreas doloridas. É a expressão corporal da sua raiva. E o acúmulo dessa tensão pode chegar até os casos de bruxismo, tão comuns hoje em dia: as pessoas rangem os dentes à noite desencadeando uma série de problemas.

Na vida moderna, além do estresse, essa dor comumente está conectada a dores no dedo médio da mão direita, pulso e ombro. É a posição adotada para a movimentação do mouse durante o dia inteiro de trabalho no computador, que tensiona todo o braço direito. A postura necessária para uma boa movimentação da mão força seu corpo a contrair o pescoço elevando o ombro e firmando o braço. Suas mãos ficam bastante leves e ágeis, mas a consequência é um excesso de tensão nos ombros e pescoço.

E a nova geração de eletrônicos está transformando a forma como estamos digitando. Os tablets, com suas telas touchscreen, jogaram toda a tensão de digitação de suas mãos a apenas um movimento de indicador da mão direita.

Nesse caso, valem todas as dicas de ergonomia, que você pode acessar em vários sites. Eu destacaria o apoio de pulsos e cotovelos e a tela do computador na altura dos olhos, para não ficar olhando para baixo. Outra dica que dou é alternar o uso do mouse com a mão esquerda. O que a princípio pode ser desconfortável, com um pouco de prática se torna uma ferramenta até bem útil, liberando a mão direita para digitações.

Alongamentos diários simples e exercícios musculares (yoga ou pilates) vão proporcionar aos seus músculos o relaxamento e fortalecimento necessário para sustentar sua postura o dia inteiro.

A massagem é um grande aliado nesse processo para soltar a musculatura tensa da região. Mas um trabalho completo envolve terapia para perceber essas emoções, corrigir e dar consciência postural durante o dia, e envolve também adicionar à sua vida uma “válvula de escape”, alguma atividade que proporcione ao seu corpo um momento de relaxamento e prazer.

Como o assunto de dor cervical é complexo e interdisciplinar, por enquanto vou me limitar a essas dicas. Pois com essas pequenas mudanças você já poderá ter uma melhora na sua qualidade de vida. A seguir estão os meus “top 5” para uma boa coluna:

Terapia de autoconhecimento

Você só vai se livrar das tensões causadas pelo medo depois que aprender a reconhecer o medo em você. A maioria das pessoas nem sequer sabe que são ansiosas até terem uma gastrite, ou que são nervosas até terem um infarto!

Autoconhecimento é a palavra que está faltando à humanidade. E aí vale tudo: terapia freudiana, jungiana, reichiana, humanista, transpessoal, psicodrama. O importante é que você entenda como você pensa e sente.

Massagem relaxante e quiropraxia

Meu quiropata diz que da mesma forma que alinhamos e balanceamos um carro com regularidade, também precisamos nos alinhar. Afinal, quem nunca cochila no sofá ou acorda com o pescoço dolorido após uma viagem? E a coluna vertebral é o eixo central por onde passam todos os comandos do seu cérebro, dizendo para o intestino funcionar, para a digestão ocorrer de forma correta, etc. Para entender isso, visualize uma mangueira de água que você pisou em cima. Ela vai diminuir o fluxo da água no final. E se nossa coluna não está alinhada, os impulsos elétricos também não têm sucesso em chegar ao órgão necessário.

Já a massagem relaxa, solta os músculos, acalma os nervos. Durante uma sessão o terapeuta pode perceber onde você está colocando suas tensões e aí compreender suas posturas do dia a dia. Além disso, a pele é um órgão que tem contato direto com o cérebro. O mesmo grupo de células que forma o sistema nervoso durante a formação do embrião também forma a pele. Então, tocando a pele do paciente o terapeuta está acalmando o seu cérebro.

Consciência corporal e postura

Sua coluna está mais para uma pilha de bloquinhos de jogo de montar do que para um pilar de concreto de sustentação. São os músculos paravertebrais e abdominais que a mantêm firme, alinhada, porém, flexível. Então, exercícios que fortaleçam esses músculos são importantíssimos para a correta postura. E nesse quesito eu indico esses três tipos de prática: yoga, pilates e RPG.

O dia inteiro você passou pensando em problemas, dando ao seu corpo descargas e mais descargas de adrenalina (estresse). Nosso corpo é uma máquina e precisa de descanso e manutenção, como qualquer uma. Se você leva uma vida de muito estresse dê ao seu cérebro a mesma quantidade de endorfina (prazer). Equilíbrio é a palavra-chave na nossa vida. E não precisa sair de férias para se sentir bem. Você pode simplesmente ouvir uma música que goste, ler um livro, sair para caminhar com o cachorro, encontrar os amigos, parar para olhar as flores do seu jardim. Coisas simples do cotidiano que nutrem o corpo e a alma, mas que na nossa rotina deixamos de lado.

Meditação para uma mente mais tranquila

A ciência vem pesquisando os benefícios que uma mente tranquila traz ao corpo. Como me ensinou minha primeira mestra em meditação: medite para que você não seja fonte de sofrimento nem para você nem para os outros. Deixo aqui uma referência para quem ainda não se convenceu: Neurofisiologia da meditação, de Marcello Árias Dias Danucalov e Roberto Serafim Simões.

Assim como o corpo físico pode ser moldado por dietas e estilo de vida, podemos também treinar a mente para cultivar atitudes mais equilibradas. Assim, a mente se torna domada e disciplinada. Isso eleva o nosso ser a um estado de potencial humano maior para agir no mundo com compaixão e bondade.

Foto 1: Simon James / Flickr: Day 80 - A Pain in the Neck / CC BY-SA 2.0; David Lankford / Flickr: Viking Photography / CC BY 2.0; Yacine Petitprez / Flickr: Smartphone / CC BY-SA 2.0

Referências

KELEMAN, S. Anatomia emocional. São Paulo: Summus, 1992.