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Anorexia e bulimia têm raiz na família

Para o psicanalista Carlos Bicalho é preciso tirar o foco do corpo e caminhar para o campo psíquico

3938030 / Pixabay / CC0 Creative Commons

“O importante é priorizar o sujeito e não os fatores externos”, enfatiza Bicalho

“Acho que vou te decepcionar.” Com essa frase o psicanalista Carlos Bicalho iniciou a entrevista ao Portal NAMU sobre transtornos alimentares. Especialista em doenças sexualmente transmissíveis, sexualidade e distúrbios alimentares, ele fez essa afirmativa, pois discorda dos teóricos que classificam anorexia e bulimia como patologias do século 21.

Para Bicalho, os fatores socioculturais são determinantes no desencadeamento dos transtornos, mas não é de hoje que eles influenciam na incidência dessas doenças. “Existem estudos que relatam a anorexia, por exemplo, na Idade Média”, comenta. “Naquele período, quem norteava os aspectos socioculturais era a Igreja. As moças tinham o costume de jejuar para se aproximar do sagrado. Essa era uma prática anoréxica.”

Atualmente, alguns especialistas afirmam que a pressão para se enquadrar no padrão de beleza é o principal motivo para o aumento de casos de anorexia e bulimia na adolescência. Com base na teoria psicanalítica de Freud, Bicalho vai contra essa corrente e acredita que esse fator apesar de ser determinante, não é o essencial. “Precisamos ter coragem de caminhar no campo psíquico e tirar o foco apenas do corpo. Os distúrbios alimentares podem ser apenas sintomas de problemas mais profundos. Eles indicam a existência de um nó relacional na tríade pai-mãe-filho.”

“Uma adolescente pode até querer ter o corpo que a mídia mostra, mas ela não chega ao extremo de parar de comer por isso. O que determina o comportamento da anoréxica é o desequilíbrio na relação mãe-pai-filha”, acredita.

Para a psicanálise, anorexia e bulimia estão relacionadas com a dificuldade em romper, durante a adolescência, a relação simbiótica entre mãe e filha. “A menina quando entra na puberdade é bombardeada por diversas questões sobre o seu corpo de menina-mulher. Essa transformação física, numa mentalidade ainda muito infantil, faz com que essa adolescente se aproxime da mãe de forma dúbia: ela busca o amparo materno como um pedido de socorro e, ao mesmo tempo, considera a mãe como uma rival que ela quer e não quer se identificar”, explica.

Uma adolescente pode até querer ter o corpo que a mídia mostra, mas ela não chega ao extremo de parar de comer por isso.

Para equilibrar essa relação, Bicalho considera a presença paterna fundamental. “O pai é importante, porque assumindo uma postura firme, ajuda mãe e filha a não se perderem nessa relação e marca o espaço de um terceiro.”

A bulimia é o distúrbio alimentar mais difícil de ser percebido pela família, porque a adolescente guarda a doença como um segredo. “Muitas vezes quem indica os pacientes bulímicos para terapia são os dentistas, pois o suco gástrico desgasta o esmalte dos dentes. Adolescentes com anorexia ou obesidade quem traz, normalmente, é a família. Ainda assim, os pais demoram até aceitar que eles precisam de tratamento, porque é sempre mais difícil admitir os problemas da própria família.”

Na bulimia, a pessoa come além do seu limite, porque sabe que vai se livrar daquilo depois, comenta Bicalho. “Ela é maquiavélica, é autopunição.”

A "doença do milênio" pode ser um esconderijo

A obesidade pode ser enquadrada como uma patologia característica da sociedade atual e difere-se da anorexia e da bulimia nessa questão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define, inclusive, a obesidade como “doença do milênio” e como uma das primeiras causas de morte evitáveis no mundo. Para Bicalho, essa doença elevou-se ao status de pandemia global por dois fatores principais: o estilo de vida sedentário predominante e a enorme facilidade para o consumo de alimentos industrializados.

Apesar desses fatores, o psicólogo não deixa de considerar o acúmulo de peso como uma ferramenta de somatização, conceito psicanalítico que admite o sofrimento físico como reflexo do emocional. Por exemplo, a obesidade na adolescência pode representar uma estratégia por meio da qual a pessoa utiliza o corpo como um esconderijo.

“Uma adolescente obesa pode ser uma menina que não queira se tornar mulher, ela se esconde no próprio corpo.” Uma grande massa corporal também seria uma forma de transferir o olhar do outro do sujeito para o corpo, fenômeno classificado como corpo-objeto na psicanálise. “A obesidade não é o único caso em que isso acontece, existem muitas maneiras de transformar o sujeito em objeto”, lembra o psicólogo.

Uma adolescente obesa pode ser uma menina que não queira se tornar mulher, ela se esconde no próprio corpo

Bicalho ressalta a complexidade dessas questões. Cada caso também pode ter razões específicas que influenciam no desenvolvimento do transtorno e, só através da análise clinica, é possível identificá-las. “O importante é priorizar o sujeito e não os fatores externos.”

A mente e o espelho nem sempre dizem a mesma coisa

Os conceitos de corpo real e corpo idealizado definidos pela psicanálise se relacionam com os distúrbios alimentares. Na anorexia, por exemplo, a adolescente, apesar de sua magreza, tem a impressão de que está gorda, ou seja, o seu corpo idealizado está muito distante do real.

A percepção do próprio corpo começa quando nascemos. Bicalho explica que o simples toque dos pais auxilia a formação dessa imagem mental. “Quando os pais dão banho na criança, ela sente esse limite do seu corpo”, exemplifica.

As pessoas que consideramos nossas referências também interferem na formação da autoimagem. “Se a criança for branca e seus pais negros, ela não vai saber que é branca, porque ela se reconhece nos seus pais”, conta.

O olhar alheio é considerado por Bicalho como o fator principal na construção do corpo idealizado. “No caso da criança branca com os pais negros, se os pais a olharem reconhecendo sua cor, futuramente, esse desejo irá se transformar no dela própria e ela conseguirá reconhecer-se como branca.”

“Quem delimita a nossa noção do corpo é o olhar do outro”, conclui. Outro exemplo é "a mãe que não enxerga a filha obesa como tal, desse modo, a filha não vai se achar gorda.”

A busca pelo equilíbrio das funções

Para evitar esses distúrbios, o psicanalista reforça que o importante é a função materna e a função paterna cumprirem o seu papel e estarem em equilíbrio independente de quem está exercendo a função. “Em alguns casais o quadro se inverte, a mãe cumpre a função paterna e o pai a função materna. Mesmo nos casais homossexuais um exerce a função materna e o outro a paterna. Ainda que não seja a mesma pessoa o tempo todo, alguém sempre está exercendo uma das funções”, esclarece.

Para a psicanálise, a função paterna é a que põe limite, é a castradora e a função materna é a que proporciona o aconchego, o conforto. Bicalho também alerta sobre a decadência da função paterna nos dias atuais. “A realidade é que na maioria das casas brasileiras quem está comandando é a mulher e isso está influenciando na educação dos filhos. Como a tendência é que a mãe cumpra a função materna, na maioria das vezes, esse papel se sobressai e fica faltando na educação a parte de colocar de limites.”

Em alguns casais o quadro se inverte, a mãe cumpre a função paterna e o pai a função materna. Mesmo nos casais homossexuais um exerce a função materna e o outro a paterna.

“Também o aumento da carga horária de trabalho e a ausência no desenvolvimento dos filhos têm gerado nos pais um sentimento de culpa. Por isso, no momento que estão com eles, os pais tendem a não castrar, não frustrar, ou seja, se ausentam da educação e acabam oferecendo apenas aconchego a seus filhos, o que reforça ainda mais a função materna.”

A demora dos filhos em sair de casa é outro fenômeno influenciado pela decadência da função paterna. “Com a função materna predominante, o conforto e o aconchego de casa também ficam mais fortes e se sobressaem ao desejo de independência”, relaciona o psicanalista.

No caso dos transtornos em meninas adolescentes, “a função paterna é importante porque na relação simbiótica mãe e filha, ambas querem que o corpo da filha continue infantil, porque isso significa continuar ocupando a posição de filha, mas o pai olha para o corpo da filha querendo que ela amadureça e isso equilibra a relação, põe limite”, explica.

Aos pais, Bicalho deixa uma mensagem: “O mais importante é lembrar que educar os filhos exige tempo e eles precisam desse tempo. Estamos vivendo o desamparo generalizado”, finaliza.

Foto: Benjamin Watson / Flickr: anorexia / CC BY 2.0Danielle Helm / Flickr: daniellehelm / CC BY 2.0