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Cesariana: uma opção de risco

Por que as cesáreas são tão comuns se a maioria dos especialistas no Brasil defende a diminuição dessas cirurgias?

Candiix / Pixabay / CC0 Creative Commons

Na maioria dos países, os sistemas de saúde são os grandes responsáveis pelo combate às epidemias. No Brasil é diferente, aqui, um gravíssimo problema ganhou corpo dentro dos hospitais e maternidades: é a epidemia de cesarianas. A rede pública e principalmente a rede privada produziram números que colocam o país na segunda colocação mundial no número desse tipo de cirurgia no planeta. Os problemas gerados por isso são vários. O principal é o crescimento no número de bebês prematuros e das chances desses recém-nascidos utilizarem UTIs. Quando não necessária, a cesariana é, portanto, uma escolha arriscada. No final das contas, o crescimento indiscriminado de cesarianas no Brasil aumenta também os índices de mortalidade neonatal no país.

O tempo normal de uma gestação varia entre 37 a 42 semanas. No Brasil, muitas cesarianas são feitas logo após o término da 37ª semana. Em razão disso, muitos bebês nascem com falta de amadurecimento do pulmão. Quando isso ocorre, o recém-nascido não é capaz de respirar normalmente. Essa dificuldade, por sua vez, elevou drasticamente o número de bebês que acabam em UTIs neonatais sofrendo de problemas como Síndrome da Dificuldade Respiratória (SDR) ou Síndrome da Angústia Respiratória (SAR) – também conhecida por Doença da Membrana Hialina. Estudos feitos em países como Austrália¹ e Dinamarca² indicam que bebês nascidos de cesarianas têm mais chances de sofrer com problemas respiratórios e de acabar internado em uma UTI neonatal.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) abriu para consulta pública neste mês de outubro duas resoluções voltadas para a redução de cesarianas desnecessárias no sistema privado de saúde brasileiro. Uma delas prevê a ampliação do acesso à informação e obriga as operadoras a divulgar a taxa de cirurgias cesáreas realizadas pelos médicos e estabelecimentos de saúde. Com isso, a beneficiária passa a ter uma referência em que possa se basear para medir a confiança em determinado profissional.

Para a obstetriz Natalia Rea Monteiro, que trabalha com parto humanizado, as medidas representam um avanço, mas ainda há muito para ser feito. “Tendo acesso a essas informações, a mulher pode ver que o médico tem uma taxa de 80% de cesáreas, por exemplo, e prever que ele não vai fazer o parto normal, porque esse não parece ser um procedimento que ele costuma utilizar”, afirma.

“Com o cartão da gestante, você pode circular, ou seja, fazer o seu pré-natal em um determinado lugar e o parto em outro. Você carrega suas informações junto com você, e assim qualquer profissional pode entender a sua história e fazer o parto. Já o partograma é um instrumento que monitora como está acontecendo aquele parto, como está evoluindo, quantas horas foram no trabalho de parto, o que aconteceu, se teve algum problema”, explica Martha Oliveira, diretora da ANS. Segundo ela, o partograma foi sugerido como instrumento obrigatório, inclusive para controle das próprias operadoras.

Médicos versus obstetrizes

Na outra resolução, a ANS dispõe sobre a obrigatoriedade da utilização de três novas ferramentas para servir a gestante: o partograma, o cartão da gestante e a carta de informação. A carta avisa que o final da gestação é fundamental para a formação do bebê dentro do útero, e alerta sobre os perigos da cesárea agendada para antes do trabalho de parto, que pode acarretar problemas respiratórios e outras morbidades neonatais.

A ação da ANS responde a algumas das demandas da própria sociedade civil, de redes como Parto do Princípio, Artemis, GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), entre outras. Durante o congresso Ecos - Normal é Natural: da pesquisa à ação, realizado no Rio de Janeiro, que contou com a presença de profissionais de todo o mundo, foram definidas por consenso algumas propostas de reivindicações que não foram cobertas pelas propostas da ANS. Dentre elas está a efetivação da atuação da enfermagem obstétrica ou obstetriz na saúde suplementar (equipe do hospital ou autônoma) em toda a atenção ao parto, desde a admissão, trabalho de parto, parto, pós-parto e alta hospitalar.

“Na nossa avaliação, quem deveria acompanhar o parto é a obstetriz ou a enfermeira obstetra, que é como acontece nos outros países. Não é o médico que faz o parto na Holanda ou na Alemanha, por exemplo, que são referências em taxas de partos normais. O parto é um evento fisiológico da vida da mulher, então não necessitaria de um médico, uma pessoa hiper especializada, mas alguém que tenha paciência e cuidado com aquela mulher, principalmente”, contesta a obstetriz Natália. Ela lembra que a média de tempo do parto de mulheres que tem o primeiro filho é de cerca 12 horas.

Cartaz: "Doutor só quer operar? Então deixa a parteira partejar"

Além desta, outras reivindicações levantadas no congresso incluem:

  • divulgação pública contínua dos dados de cesariana dos estabelecimentos e por profissional (e não apenas sob demanda, como está na resolução da ANS);
  • alteração no texto do cartão da gestante com relação à informação sobre complicações para o bebê, de forma que fique explícita a importância do trabalho de parto;
  • implantação de sistema de informação perinatal;
  • e a inclusão no rol de procedimentos de saúde da consulta de enfermagem e solicitação de exames pelo enfermeiro obstetra/obstetriz.

Epidemia de cesarianas

De acordo com a pesquisa Nascer no Brasil, quase 90% dos partos realizados pelo sistema privado de saúde no Brasil são cesáreas. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), somente 15% dos partos deveriam ser realizados por meio desse procedimento cirúrgico. Quando somada à rede pública, o Brasil apresenta uma taxa ainda muito preocupante, de 52% de cesáreas.

Para Martha Oliveira, os dados epidêmicos são reflexo de uma confluência de causalidades. “Nós construímos dentro da nossa cultura que é necessário fazer o pré-natal com aquele médico, e ele tem que se deslocar de onde ele estiver para me atender no momento do trabalho de parto, ficar comigo lá o tempo inteiro, tudo com uma única pessoa. Essa lógica que a gente construiu, de ausência de plantonistas em hospitais, de marcar o parto com antecedência, toda essa lógica se esgotou”.

Tanto aqui quanto nos Estados Unidos, o principal motivo para os médicos preferirem as cesarianas é financeiro. Além de ser mais arriscada, a cesáriana pode custar mais caro, já que muitos médicos cobram a "taxa de disponibilidade" quando o parto ocorre fora do horário de plantão.

Apesar de as medidas da ANS ainda não contemplarem todas as reivindicações da sociedade civil organizada, o próprio ministro da Saúde, Arthur Chioro, reconheceu, em evento recente realizado no Hospital Albert Einstein, que este é um tema que tem recebido maior atenção do governo. “É um desconforto para todos nós. Pro movimento de mulheres, pros hospitais, pros prestadores de serviços, pros próprios profissionais, pras sociedades de especialistas, mas não é um problema que a gente tenha aquela bala de prata, uma solução única que vá resolver o problema”, disse o ministro.

Informativo sobre acompanhantes no parto do Ministério da Saúde

Foto: Lou Bueno / Flickr: Lab2112 / CC BY 2.0; Circuito Fora do Eixo / Flickr: Fora do Eixo / CC BY 2.0