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Como manter o equilíbrio emocional

A dica de Elisa Kozasa é substituir reações emocionais automáticas por respostas mais conscientes

moise_theodor / Pixabay / CC0 Creative Commons

"Em muitos casos, a gente só percebe a emoção depois que ela já provocou algum dano", diz Kozasa

“Nossa, fiz isso de novo”

Se você repete sempre a frase acima, é porque faltam tempo e reflexão para observar qual é a melhor resposta para cada situação, diz Elisa Kozasa. Segundo a pesquisadora em neurofisiologia de estados de consciência, podemos tirar nosso comportamento do automático e reverter nossas emoções destrutivas. O conselho é pensar: "calma, preciso ver realmente o que eu quero fazer agora.” 

Em entrevista para o portal NAMU, Kozasa explica o que é viver em equilíbrio e fala sobre o sentimento da raiva.

Você considera que atualmente as pessoas estão mais desequilibradas?

Kozasa: Eu não sei dizer se é atualmente, mas o que acontece no mundo hoje é que as pessoas são muito requisitadas no sentido de tarefas, de estímulos. Por isso, talvez fique mais difícil conseguir voltar-se para dentro para se perceber e compreender por que estão tomando determinadas atitudes e decisões. Falta um espaço de reflexão sobre o que está acontecendo na própria vida.

Existe uma forma melhor de lidar com as emoções destrutivas?

O que acontece em muitos casos é que a gente só percebe a emoção depois que ela já provocou algum dano. Por exemplo, em uma determinada situação em que me sinto provocada, tenho uma resposta emocional exacerbada – que pode envolver não só uma violência física, mas também psicológica – e depois eu vejo o que restou.

Então uma pessoa mais equilibrada não só consegue perceber as emoções na hora em que elas surgem, mas também é capaz de mudá-las?

Um dos pontos-chave é a pessoa conseguir perceber que ela tem mais escolha em relação às respostas emocionais do que normalmente ela imagina que tem

É, e perceber que nós temos uma escolha emocional. Eu acho que um dos pontos-chave é a pessoa conseguir perceber que ela tem mais escolha em relação às respostas emocionais do que normalmente ela imagina que tem. Isso depende de um treinamento. Primeiro é preciso se observar desde os padrões de batimento cardíaco, nos casos de raiva, por exemplo, é possível perceber uma mudança de temperatura interna e outros desconfortos. O importante é começar a perceber esses sinais e pensar: “Calma, eu preciso ver realmente o que eu quero fazer agora.”

E você acha que as pessoas não percebem esses sinais porque elas estão acostumadas a viver em desequilíbrio?

Muitas vezes o que acontece é que nós automatizamos algumas respostas. É muito comum a gente no dia a dia parar e dizer :“Nossa, eu fiz isso de novo”. Por que a pessoa fez isso de novo? Porque não houve um treinamento ou tempo para parar e se observar antes de responder. Não que isso vai dar certo 100% do tempo e a ideia não é essa, mesmo que a pessoa seja treinada, mas a intenção é tentar diminuir essas respostas que são consideradas inadequadas e que trazem prejuízos individuais, sociais e – dependendo da posição da pessoa – até coletivo.

Imagina um grande líder, por exemplo, tendo que decidir se o país vai revidar ou não um ataque inimigo. Qual será a melhor resposta nessa hora? Nesses processos de tomadas de decisão, muitas vezes as escolhas precisam ser rápidas, por isso é preciso parar e se recompor, porque dependendo da decisão, a pessoa vai influenciar negativamente e destrutivamente não só a sua vida, mas a de diversas pessoas.

Não existe um segredo para felicidade, existe um cultivo, diz Kozasa

Elisa, mas será que é saudável ser uma pessoa totalmente equilibrada?

O equilíbrio não está em não responder. Isso é muito importante, porque as pessoas imaginam que uma pessoa que medita não reage de forma agressiva nunca. Essa questão do equilíbrio é dinâmica e não estática. Também é inadequado não reagir quando você se vê numa situação em que precisa impedir que alguma coisa ruim aconteça ou na hora em que você percebe que alguma violência pode ser feita.

O equilíbrio não está em não responder. Isso é muito importante, porque as pessoas imaginam que uma pessoa que medita não reage de forma agressiva nunca.

Uma vez eu estava numa mesa em um congresso que debatia a questão da aceitação como sendo inicialmente uma qualidade. Aceitação por aceitação não é qualidade. Aceitar situações imutáveis com resiliência para que a gente possa superar essa situação desfavorável que não depende de nós é uma coisa. Outra, muito diferente, é criar o hábito de aceitar condições inadequadas para você, para seus amigos, para sua família e para sociedade não é saudável. Não é desse tipo de equilíbrio que nós estamos falando, é do equilíbrio do discernimento.

Como eu disse, nós nunca conseguimos acertar sempre, mas o importante é tentar acertar mais, pensar: “Qual será a melhor resposta neste momento?” A melhor resposta não é uma não resposta. Na maior parte das vezes, é uma forma de falar, de intervir ou de agir. E tem de ser consciente.

Então, a raiva também faz parte do equilíbrio?

Criar o hábito de aceitar condições inadequadas para você, para seus amigos, para sua família e para sociedade não é saudável. Não é desse tipo de equilíbrio que nós estamos falando, é do equilíbrio do discernimento.

Sim, reconhecer que ela existe e permitir que ela se manifeste quando realmente ela é importante. Por exemplo, você está vendo uma situação em que uma criança vai ser agredida. Se você ficar só olhando, isso é totalmente desequilibrado, você precisa tentar impedir. Aliás, muitos sinais de desequilíbrio estão na omissão. Martin Luther King afirmou uma vez que o que o assustava não era a violência de poucos, mas a omissão de muitos.

Outra questão é que suprimir ou sufocar uma emoção não é saudável, provavelmente isso vai causar uma “implosão”, você precisa que essa emoção se manifeste de uma forma que cause o menor dano possível. Toda vez que você se nega a reconhecer uma emoção em você mesmo, você está deixando de se conhecer e de aprender a lidar com aquela emoção. Por isso, a primeira coisa é reconhecer que a emoção está surgindo.

Martin Luther King afirmou uma vez que o que o assustava não era a violência de poucos, mas a omissão de muitos.

Como a meditação auxilia no controle emocional?

Depende da prática meditativa. As práticas mais básicas que a gente trabalha são as práticas de shamata que visam trazer um estado de quietude interna para que a pessoa possa relaxar, se perceber, acalmar a mente para ter clareza mental. Quando a nossa a mente está remoendo ou se distraindo fica difícil de nós termos clareza mental. Uma outra prática bastante importante é a prática da compaixão. Nela, eu procuro perceber os meus sofrimentos e realmente desejo que eles possam ser trabalhados e eliminados.

O sofrimento existe em todas as pessoas, tanto numa pessoa que eu gosto como em uma que eu não gosto. Na verdade, o sofrimento nos une enquanto seres humanos, enquanto seres vivos. Não existe ser vivo que não passe por sofrimento.

O sofrimento nos une enquanto seres humanos, enquanto seres vivos. Não existe ser vivo que não passe por sofrimento.

Na prática da compaixão, eu vou desejar não só que eu possa me livrar do sofrimento, mas também que o meu amigo, o meu filho ou uma pessoa que eu não conheço muito bem. Perceber que o sofrimento é um elemento em comum também nos ajuda a perceber que é muito difícil condenarmos os outros totalmente como inimigos ou como totalmente amigos.

O equilíbrio é uma busca e eu acho que só quem busca consegue algum tipo de melhora, afirma Kozasa

Para encerrar a entrevista, é possível ser uma pessoa totalmente presente no momento e conquistar esse equilíbrio emocional ou estamos sempre buscando?

A partir do momento que você vai trabalhando com as suas emoções, você vai ficando mais livre e confortável para usufruir melhor da sua vida, porque quando a pessoa é completamente dominada pelas emoções, ela passa muito tempo da vida escravizada tentando satisfazê-las.

O que posso dizer é sobre a minha experiência e de algumas pessoas que eu conheço e que não optaram por uma vida monástica – isso também é importante, porque esse programa não foi criado para monges e sim para pessoas que trabalham, tem filhos e amigos.

Eu não sei dizer se é possível nessas condições a gente ter um equilíbrio 100%. O que eu percebo é que as pessoas que têm realizado esse tipo de trabalho têm conseguido se sentir com maior nível de bem-estar e maior equilíbrio emocional. Mas eu desconheço alguém que vivencie isso 100% do tempo. Isso é uma busca e eu acho que só quem busca consegue algum tipo de melhora. A partir do momento que você vai trabalhando com as suas emoções, fica mais livre e confortável para usufruir melhor da sua vida. Quando a pessoa é completamente dominada pelas emoções, ela passa muito tempo da vida escravizada tentando satisfazê-las.

Tem uma frase do Dalai Lama na qual – resumidamente – ele afirma que nós nos treinamos para tantas coisas, vamos para escola, para o trabalho, mas não nos treinamos para sermos felizes. Não existe um segredo para felicidade, existe um cultivo.

Fotos: Marina Fontanelli (1); D.Sharon Pruitt /Flickr: Pink Sherbet Photography/ CC by 2.0 (2)