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Dom Laurence e o caminho para a paz

Ícone da meditação cristã, o monge beneditino vê o silêncio e a contemplação como antídotos contra a violência

pasja1000 / Pixabay / CC0 Creative Commons

O ciclo da violência não pode ser quebrado sem uma observação profunda da natureza humana e o conhecimento advindo da via contemplativa. É nisso que acredita o monge beneditino Dom Laurence Freeman, uma das principais referências mundiais da cultura de paz e da meditação cristã, que concedeu entrevista exclusiva ao Portal NAMU. Na entrevista, ele indica o quanto práticas voltadas para a atenção e a respiração podem modificar relações e melhorar nossas vidas.

A violência representa um dos mais graves problemas sociais da nossa época e, estatisticamente, só vem aumentando. De acordo com o Índice Global da Paz, a violência no mundo aumentou 5% entre 2008 e 2013, apesar da diminuição dos conflitos internacionais. Esse indicador utiliza critérios como número de homicídios, mortes causadas por conflitos civis, despesas militares e instabilidade política.

“Quando há violência, a primeira coisa que nós temos que fazer é por um fim a ela. Mesmo que temporariamente. A violência é uma forma de loucura”, atesta Dom Laurence. No entanto, ao contrário do que pode parecer por sua fala, a solução proposta por ele não possui praticamente nenhum vínculo com repressão. Para conquistarmos uma sociedade pacífica, segundo Freeman, o grande segredo estaria em sentar-se em silêncio e meditar.

Meditação cristã

Pode soar um pouco esquisito ouvir um monge da igreja católica falando sobre meditação. Ainda mais no Brasil, onde o movimento carismático – cujo grande ícone é o padre Marcelo Rossi – se caracteriza muito mais pelo barulho do que pelo silêncio. Para Dom Laurence não há nenhum problema com isso, já que as diferentes formas de oração se complementam. “Mas eu posso dizer pela minha experiência que grande parte das pessoas que são atraídas pelo movimento carismático acabam se movendo para um lugar onde se conscientizam do valor do silêncio. Não significa que elas abandonam essas outras formas de expressão, mas acrescentam a esfera do coração, desse espaço interno a que Jesus se referia”, diz.

Dom Laurence conta que a oração contemplativa faz parte da essência da tradição cristã. Ele atribui a marginalização e perseguição dessa prática ao período que se seguiu à Reforma protestante. “Se você olhar a igreja ortodoxa, você verá que este método contemplativo de oração, que nós chamamos de meditação, é muito mais visivelmente presente no coração da igreja”, afirma o monge. Segundo ele, há um grande processo de reconstrução em curso, que começou nos últimos 50 ou 60 anos, especialmente com o aumento da popularidade das tradições espirituais do Oriente, que estimularam as pessoas a buscarem mais conhecimento a respeito das práticas contemplativas.

“Eu acredito que é vital para o futuro das igrejas no cristianismo que seus membros aprendam a meditar novamente e aprendam o que é o coração da oração. A meditação não substitui as outras formas de oração, mas as enriquece”, afirma. Para ele, sem a meditação, as diferentes formas de oração correm o risco de se esvaziar e serem realizadas em um contexto de superficialidade. “É essencial para os mais jovens ter essa experiência interna, e a meditação te leva a isso, possibilitando que as outras formas de oração tenham um sentido real. Por isso é tão importante ensinar meditação às crianças. Elas tem uma capacidade natural para a meditação e entendem tudo a partir da experiência”.

Foto: Shutterstock