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É possível evitar o sofrimento?

O budismo recomenda desapegar do que é impermanente e valorizar o mundo interior

unclelkt / Pixabay / CC0 Creative Commons

Devemos plantar a boa semente para que gere bom resultado, diz Shi Miaoyou, do Templo Zu Lai

A felicidade e o sofrimento são questões fundamentais do viver. Todos sofrem, seja por amor, questões financeiras, familiares ou frustrações diversas. Sábios de todas as épocas enfrentaram a questão, esse é um dos temas mais estudados desde que o mundo é mundo, inclusive pelas religiões. Por que, diante da mesma causa, pessoas sofrem de maneira e intensidades diferentes?

Resposta definitiva não há. O budismo, no entanto, traz uma reflexão bem diferente a respeito do modelo de felicidade em vigor no Ocidente, onde a posse de bens equivaleria proporcionalmente a uma vida melhor. Para o budismo, a felicidade se constrói interiormente, não em bens materiais e no prazer.

Dor versus sofrimento

Não temos o controle remoto do mundo, da natureza, do corpo - os eventos que causam dor são pouco controláveis. É provavelmente inútil tentar ancorar a felicidade em eventos externos. Mas a consciência, o espelho a partir do qual vemos o mundo, é um patrimônio que ninguém pode nos tirar. É nela que a felicidade pode ser sedimentada e permanecer.

Para o budismo, prazer e felicidade são coisas distintas. Ser feliz é carregar consigo um “sentimento profundo de serenidade e realização, um estado que na verdade permeia e sustenta todos os estados emocionais e todas as alegrias e tristezas que cruzam nosso caminho”, nas palavras do monge francês Matthieu Ricard, em palestra sobre felicidade apresentada no TED.

O prazer, por sua vez, é efêmero, algo não duradouro. A frase popular “tudo que é demais enjoa” vai ao encontro da visão de mundo de muitos budistas. Pela ótica budista, nada mais ilusório do que associar posses ao bom viver. Podemos estar diante da mais bela paisagem, mas com a mente infeliz. Outra ilusão pode estar escondida no ato de condicionar o sentir-se bem a conquistas materiais. Pode ser que o estado deprimido não se altere, seja voltando do trabalho em um ônibus, seja pilotando uma Ferrari.

O mesmo Ricard observa que uma mente feliz, desapegada das ilusões mundanas, pode percorrer os altos e baixos da vida no mesmo estado, pois sabe que os eventos são passageiros e não alteram o patrimônio construído dentro de si. No percurso da vida, as dores são inevitáveis, contingenciais, vão e voltam. O controle do mundo exterior é limitado. Ilude-se quem se julga capaz de ser roteirista daquilo que o rodeia.

Aqui entra o desapego, que pode ser um antídoto para o sofrimento. O desapego do que é impermanente nos serve de proteção. É uma inversão do que é vendido como felicidade pela mídia. Desapegar-se é um gesto de concentrar-se na construção interior, não em bens mundanos e prazeres fugazes.

Não é preciso virar monge e migrar para o Himalaia tibetano para ser beneficiado pelo desapego. Dinheiro proporciona conforto, oportunidade de viajar, inclusive ao Tibete, educação, médicos etc. Mas é fugaz. Os bens interiores, não. No tsunami de 2011, que destruiu cidades inteiras do oeste do Japão, viam-se famílias que perderam casa e todos seus bens materiais absolutamente serenas nos ginásios que serviram de abrigo aos sobreviventes. Pode ser um exemplo sobre como lidar com o sofrimento. A onda veio, levou tudo. O mundo interior permaneceu.

O sofrimento, na perspectiva budista, pode ser considerado uma questão de escolha de cada um. Mesmo ocidentais habituados ao ritmo frenético das cidades grandes podem exercitar o desapego, a desintoxicação mental, a inversão de foco do mundo exterior para o interior.

Apego ao ilusório

A mestra Shi Miaoyou, do Templo Zu Lai, em Cotia (SP), fala sobre como um budista encara questões fundamentais humanas: felicidade, sofrimento, dor, as melhores escolhas para a vida e a relação entre causa e efeitos dos nossos atos.

O que o budismo entende por felicidade?
Mestra Shi Miaoyou: Felicidade é uma situação em que as pessoas estão em perfeita harmonia com os outros, com o corpo, com as suas opiniões, com a natureza, livre de conflitos e sofrimentos do corpo físico e das emoções.

Quais os principais equívocos das pessoas comuns na busca por uma vida melhor?
As pessoas não entendem a lei de causa e efeito. Para ter uma vida melhor, as pessoas precisam plantar a semente boa, em outra palavra “a causa”, para que no futuro venha gerar bom resultado. O maior problema na vida da pessoa não é que ela não é útil, mas não compreender “causa e efeito”.

Para o budismo, o que é sofrimento?
O sofrimento é sensação de insatisfação, descontentamento, apego ao ilusório. É o resultado de nossas próprias ações maléficas, fisicamente ou mentalmente.

Qual a diferença, se existente, entre dor e sofrimento?
Dor é no corpo físico, sofrimento é na emoção.

Na atualidade, quais fatores são os principais causadores de sofrimento?
A cobiça, a raiva e a ignorância. Por exemplo, nosso desejo (cobiça) não foi saciado, nossa opinião não foi aceita, aí ficamos muito insatisfeitos e zangados (raiva). Sob a raiva, qualquer decisão tomada é perigosa, errada, e o resultado pode ser uma “calamidade”, e assim por diante...

Quais ensinamentos do budismo são úteis para que uma pessoa não budista possa refletir sobre suas próprias escolhas?
Qualquer resultado que nós recebemos agora vem de nossas próprias escolhas. É efeito da própria causa, não adianta reclamar, se for efeito negativo. Buda nos ensinou o conceito de impermanência. Tudo muda, nada é fixo. Bom pode se tornar ruim e vice-versa. Quando uma pessoa fez a escolha, se ela está satisfeita com o resultado positivo, então tem de valorizá-lo, porque não sabe quando vai tornar negativo. Se ela não está satisfeita com o resultado, deve pensar assim: tudo bem, Buda falou em impermanência, isso vai passar. Não se pode perder a esperança.

Foto: Thinkstockphotos