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Grafites invadem os muros de São Paulo

Cena7 fala das dificuldades enfrentadas para democratizar o acesso à arte na maior cidade da América Latina

Cena7

Em seu Soneto do Desmantelo Azul, Carlos Pena Filho diz: "Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas, depois, vesti meus gestos insensatos e colori, as minhas mãos e as tuas". Teimosos, alguns artistas estão colocando em prática as ideias do poeta pernambucano. Seus gestos, que para alguns conservadores são insensatos, invadem com cores e formas os muros e ruas de São Paulo. São imagens que diminuem os efeitos da cidade cinza. Elas surgem todos os dias das mãos de diferentes grafiteiros. Cena7, de São Bernardo do Campo, faz parte desse time de artistas que está modificando a paisagem da metrópole com arte. Para muitos, eles são hoje os principais responsáveis pela humanização dos espaços públicos da maior região metropolitana da América Latina.

Grafite do grafiteiro Cena7
“Comecei a grafitar ao olhar a cidade e querer também transformar o espaço”, conta Cena7.

“Independente da maneira que for proposta, grafite, teatro ou música, quando a arte cumpre sua função social, ela é de resistência e não compactua com a mediocridade do mundo”, diz Cena7 sobre a importância das mensagens políticas presentes nas intervenções artísticas.

Grafite do grafiteiro Cena7

“O grafite feito nos muros extrapola as galerias e instituições artísticas e democratiza o acesso à leitura mais crítica do mundo”, diz o artista. Segundo ele, essa manifestação é uma ferramenta que amplia seu alcance e diversifica os padrões dominantes na sociedade onde predomina intensamente a arte que segue os padrões europeus.

Mais arte em São Paulo

As polêmicas recentes relacionadas aos grafites nos Arcos do Jânio, em São Paulo, mostram que a sociedade paulistana precisa transformar seu olhar. Expandir a consciência para uma cidade em constante mudança e tornar a população mais receptiva às manifestações artísticas são ações que podem ajudar a amenizar o concreto que cobre e encarcera todos os lugares. Cena7 acredita que isso não acontece com mais força na sociedade brasileira porque aqui ainda se perpetua um conceito de arte que só cabe dentro de museus ou galerias. “Por isso, tudo que foge dessa regra e não compactua com essa premissa é rechaçado. Eu penso que aquilo que se produz com o olhar crítico deixa a classe dominante brava”, completa.

Grafite do grafiteiro Cena7

“Quem ainda critica os grafites são pessoas que não renovaram suas ideias. Velhice para mim é quando as coisas novas chegam e a gente, ao invés de aceitar, usa preceitos e dogmas para combater aquilo”, destaca Cena7. O artista pontua a necessidade de modificar o olhar sobre a novidade para valorizar as manifestações artísticas atuais.

“Vive-se hoje um momento em que as pessoas estão lutando para o grafite se democratizar cada vez mais nessa cidade”. Ele acredita que é preciso instruir os jovens através da educação para a arte como forma de dar condições para multiplicar os grafites e as intervenções artísticas nas ruas.

Grafite do grafiteiro Cena7

“Eu acho que o grafite pode proporcionar um contato interessante nas escolas por ser uma arte que conquista mais os jovens. Quando formamos mais pessoas e abrimos espaço para que isso aconteça, aumentamos as possibilidades de fazer da cidade um lugar melhor”, afirma o artista.

Arte e representatividade

“Eu sou negro e pinto estéticas que se pareçam comigo. Acredito que há formas de contrapor os padrões que nos são impostos”, conta o grafiteiro sobre a inspiração da cultura africana e afro-brasileira presente na maioria das suas produções. “Eu recebo criticas preconceituosas de pessoas que dizem que produzo arte de macumba”, relata.

Grafite do grafiteiro Cena7

“Não acredito muito em dom, isso faz com que os artistas se tornem divindades. Há sim um chamado interior, mas se não for atendido com muito esforço e trabalho isso não vai acontecer”, relata sobre a importância de despertar os talentos adormecidos em jovens e crianças. “Ainda hoje nas escolas o professor de arte fala sempre da Semana de Arte Moderna da mesma maneira que eu aprendi. As aulas de arte não se renovam e nos mandam desenhar coisas que já existem”. Ele aponta a necessidade urgente de se mostrar outra dimensão para as crianças que vivem nos dias atuais.