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Grafites versus a cidade cinza

Arte nos Arcos do Jânio gera polêmica em SP e aumenta a luta por novas ocupações artísticas na metrópole

Nathália Kamura

A vontade de transformar São Paulo em um lugar mais humanizado e sem a predominância do cinza se tornou, nos últimos tempos, uma missão dos artistas de rua. Murais, painéis, pontes, viadutos e qualquer canto tomado pelo cinza pode servir de tela para fazer nascer uma arte que, aos poucos, está se tornando um grito cultural nas entranhas da metrópole. Apesar do esforço desses artistas, há aqueles que se colocam contra. Alguns vão dizer que não são todos os que concordam com Fiódor Dostoiévski, que em seu romance O Idiota, escreveu a famosa frase: "a beleza salvará o mundo". Porém, o motivo é ainda mais simples: a ideia de "beleza" é muito peculiar e cada pessoa tem a sua.

“Nunca há trabalhos que contentem a todos. Se todo mundo gosta, há algo estranho. É bom que tenha controvérsias”, pontua Rui Amaral, artista plástico e um dos curadores dos murais da Avenida 23 de Maio. Amaral conta que vê que a maioria da população gosta de grafite e o melhor jeito de aumentar a aceitação é através da educação.

“Triste é ver pessoas educadas formalmente fazendo críticas com falta de educação. A crítica deve existir, mas precisa ser feita com respeito, se não vira apenas uma luta politica”, destaca Amaral sobre a atual repercussão dos grafites nos Arcos do Jânio, em um dos acessos da Avenida 23 de Maio, em São Paulo. Depois das críticas do jornalista Reinaldo Azevedo, na revista Veja, sobre o fato de que o suposto homem negro pintado seria uma póssível referência ao líder venezuelano Hugo Chávez, uma série de manifestações de raiva começaram a surgir. Esse trabalho acabou vandalizado e o artista de certa forma censurado, pois parte de sua obra foi destruída.

Grafite nos Arcos do Jânio

“Estamos precisando muito de que os governantes sejam pessoas que criem pontes e não que as queimem. O que me incomoda mais hoje em dia é que a grande mídia dá espaço pra quem gosta de ver o circo pegar fogo”, diz Amaral. Segundo ele, o fato dos grandes grupos de mídia no Brasil favorecerem a direita política faz com que a imparcialidade fique evidente e enfraqueça o debate sobre os problemas reais da população.

Vândalos revoltados com a suposta imagem de Chávez foram até o local e pintaram símbolos fálicos em cima do grafite. Também atiraram papeis e lixo como forma de protesto. Os artistas interviram na imagem e cobriram olhos e boca do homem negro, como forma de protestar contra a falta de respeito com a arte feita por eles.

Preguiça de pensar

“Não, a imagem retratada não era a figura de Hugo Chávez”, diz Rafael Hayashi, um dos artistas responsáveis pelo grafite que virou alvo do debate e de críticas sem fundamento nos meios de comunicação brasileiros. O artista afirma que a obra, como toda arte, está livre para interpretações e que ele não pode interferir naquilo que irão pensar ou achar. “A obra pertence aos artistas até o momento que a estão produzindo, após o término ela ganha sua própria voz, sua própria vida que independe do pensamento inicial de quem a fez”, completa.

“A interpretação de um trabalho artístico é feita por quem o observa, porém nesse caso acredito que para muitas pessoas a interpretação foi feita através da mídia”, pontua Hayashi. Ele acredita a maioria das pessoas que se posicionou contra o trabalho não foi até o mural para observar de perto o que foi feito, nem tampouco refletiu sobre aquilo que ela viu através dos olhos da grande mídia. “Nesse caso, a imagem foi usada para atacar o partido e o prefeito Fernando Haddad como se essa figura tivesse sido escolhida e utilizada com o consentimento dele em uma tentativa de vincular o trabalho e o momento de grandes insatisfações da população”, conclui.

Grafite nos Arcos do Jânio

Para ele, as pessoas se acostumaram a basear suas verdades através das mídias que acompanham e perderam em partes poder de duvidar e refletir. “A mídia sabe de seu poder e se utiliza disso para seu próprio benefício. Não acredito que isso seja censura, mas esse poder de alcance faz com que acabe por ditar algumas verdades”.

Marcus Vinícius, grafiteiro conhecido como Enivo, que também fez parte da equipe do mural mais polêmico da cena atual, foi enfático ao falar sobre o assunto: “eu quero deixar bem claro que nenhum de nós procurou fazer algum tipo de homenagem. Nossa arte teve a intenção de abordar algo mais interno, além desse plano real e mundano e a intenção é sempre pregar o amor, a reflexão e a evolução dentro do nosso trabalho”, completa.

“Essa provocação serviu para que algumas pessoas mostrassem suas caras e nós, como forma de protesto, tapamos a boca e vedamos os olhos da figura. Sabemos que querem nos calar, mas foi como se estivéssemos calando a boca dessas pessoas que nos julgam e tem pensamentos errôneos”, conta Enivo. O artista recomenda que essa multidão de pessoas revoltadas “online” procurem ser revolucionários off-line e tentem mudar alguma coisa de fato ao invés de reclamar na rede. “É preciso desligar um pouco os sites de relacionamento e ir pra rua pra ajudar alguém, olhar nos olhos das pessoas e perceber que aquele necessitado que está pedindo ajuda não é Chávez, Fidel nem Hitler. É o nosso povo clamando por igualdade”, diz.

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