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Educadores defendem que o mais importante é não sufocar a vontade inata da criança de aprender

Antonova Anna / Shutterstock

Projeto Âncora propõe uma escola sem paredes e na qual o desejo do aluno seja o ponto de partida

Nos dias de hoje, preencher a cabeça de uma criança com conteúdo não é mais sinônimo de educar – até o mercado de trabalho tem exigido outras habilidades, a exemplo de criatividade para lidar com situações adversas. Para o jornalista André Gravatá isso pode ser resumido com "Educação não é encher baldes, mas acender fogueiras."

"Criança é muito curiosa, nasce com sede e gosta de aprender. Mas não gosta tanto de estudar - para isso a escola tem de descobrir um jeito de inspirar e gerar interesse", afirma a escritora Helena Trevisan, autora do livro Filhos felizes na escola.

Criança é muito curiosa, nasce com sede e gosta de aprender. Mas não gosta tanto de estudar - para isso a escola tem de descobrir um jeito de inspirar e gerar interesse

O objetivo da educação, portanto, seria não sufocar a vontade inata de aprender. Nisso acreditam algumas escolas contemporâneas, que se destacam pelas diferenças em relação aos modelos tradicionais – mais preocupados com o conteúdo e o futuro formal dos alunos, sobretudo, com os resultados no vestibular. Ainda assim, mesmo as instituições mais convencionais têm ultrapassado as barreiras físicas, porque já identificaram que, em atividades fora da sala de aula, o grupo compartilha e expande o conhecimento - estudos de meio, passeios ou simplesmente usufruir de áreas ao ar livre na própria escola.

Pedagogia Waldorf

A data em que uma guerra começou é menos relevante do que os motivos geopolíticos que a fizeram ser deflagrada. No entanto, há cerca de 20 anos acreditava-se que a forma correta de ensinar era fazer com que o aluno decorasse dados, e a criança era obrigada a saber de cor respostas padrões. O educador Alfredo Rheingantz, pontua que a escola do pós-guerra foi estabelecida a partir do modelo industrial da competitividade. “As apostilas e os livros didáticos reforçam esse padrão”, afirma. “Hoje vivemos o momento de jogar modelos fora e deixar a aprendizagem fluir”, diz Rheingantz, que é professor do método Waldorf.

A pedagogia Waldorf se baseia nas ideias do austríaco Rudolf Steiner, criador da antroposofia, e tem o contato com a natureza e com a arte como eixos norteadores. Também considera importante proporcionar descobertas e respeitar o momento pessoal de adquirir cada aprendizado.

Entre outras propostas não-convencionais estão a pedagogia Montessori que procura exaltar as conquistas e respeitar e trabalhar as dificuldades individuais; escolas com apelo construtivista que estimulam vínculos com a natureza e a arte e usam livros didáticos, porém sem se restringir a eles.

Escola sem paredes

Em meio às variações, um projeto se destaca porque propõe a ausência de espaços físicos. Isso mesmo: uma escola sem paredes, que com as ruas e a comunidade forma um organismo uno. “Não é que a escola vai à comunidade: a escola faz parte da comunidade”, ressalta Edilene Morikawa, educadora e coordenadora do projeto Âncora, nome dado ao formato no Brasil. A proposta foi idealizada em Portugal pelo educador e pedagogo José Pacheco, referência em novas abordagens na educação, e é conhecida como Escola da Ponte no seu país de origem.

“No Projeto Âncora, o desejo do aluno é o ponto de partida para o ensinar”, explica Morikawa. “Por exemplo, uma vez uma criança queria acabar com o lixo do mundo: o desafio estava lançado. Estudaram geografia para entender os diferentes tipos de comunidades e como minimizar esse mesmo problema em cada uma delas; discorreram sobre história e questões culturais, pois para acabar com o lixo no mundo antes é necessário mudar de conduta; calcularam quantidades de lixo com princípios matemáticos; escreveram poemas sobre o problema; em ciências, abordaram higiene e alimentação, porque havia muito papel de doces nas ruas. Um mutirão na comunidade foi feito para recolher os resíduos nas ruas, mas não foi possível realizar o sonho de acabar com o lixo no mundo", lamenta.

Afetividade no aprendizado

A forma de educar do Projeto Âncora, situado na cidade de Cotia (SP), se dá, portanto, na troca com o outro. A importância da afetividade no aprendizado é consensual, independente da metodologia de ensino. “A essência do processo de aprendizagem é o encontro, a conexão”, afirma o jornalista e escritor André Gravatá, que viajou com mais três colegas por nove países pelos cinco continentes para entender as diferenças e similaridades na educação. Desse estudo resultou o livro “Volta ao mundo em 13 escolas”.

A essência do processo de aprendizagem é o encontro, a conexão

Para ilustrar o seu pensamento, Gravatá relatou a história registrada em um livro de contos indianos: "Um sapo estava em um buraco fundo pedindo socorro. Veio o coelho e perguntou por que ele não pulava e saía do buraco. 'Eu não consigo', respondeu o sapo. 'Consegue, sim', disse o coelho, que diante da negativa do colega foi em busca de uma escada. Mas o estímulo ficou registrado na cabeça do sapo que acreditou em si mesmo, tentou com muito empenho e conseguiu. E pode seguir seu caminho. O outro, não raro, pode ser uma escada para se superar e descobrir as próprias capacidades”, conclui.

Tião Guerra, educador da pedagogia Waldorf , reforça a importância de conexões entre pessoas. “Nem mesmo estes aparelhinhos eletrônicos, nada é mais fantástico do que um encontro humano de qualidade, em que duas pessoas juntas consigam sentir o silêncio”, afirma. Atuando em escolas públicas, percebeu a necessidade de existir ao menos um espaço que transmita acolhimento e respeito dentro do ambiente escolar.

"Podendo ser verdadeiramente, o aluno (qualquer pessoa) estaria pronto e aberto para absorver as informações passadas em sala de aula", acredita Guerra. A partir dessa percepção, ele passou a investir no que chama de estratégia pedagógica (e política) dentro da escola. “Criamos um espaço dentro da escola onde o diferente é aceito e compartilhado. Pode ser a biblioteca, uma sala não usada, qualquer local pode ser esta ‘ilha de resistência’ onde as pessoas se sintam elas mesmas,” esclarece.

Ambientes favoráveis à curiosidade

Envolvida com a implantação de espaços físicos que permitam e provoquem a conexão com o outro, a arquiteta e urbanista Bia Goulart se norteia em metodologias participativas e interdisciplinares para projetar estes ideais em ambientes públicos, escolares e urbanos. “Precisamos encontrar mecanismos que revertam as tendências herdadas”, Goulart cita o geógrafo Milton Santos, autor do livro "Por uma outra globalização".

“Queremos ter o controle da situação e não aceitamos o diferente, mas precisamos aprender a conviver com o outro”, diz a arquiteta. "Temos de reorganizar a escola de modo que tenha sentido para todo mundo. Precisamos de uma cidade educadora e de um bairro escola em que todo espaço seja educativo”, diz, concordando com o conceito do Projeto Âncora.

“O processo de aprender transcende a escola”, afirma a bióloga e educadora Tamara Azevedo, que assistiu à palestra. “Devemos pensar em um cotidiano em que sistemas, relacionamentos e ambientes estejam saudáveis para o aprender, ou seja, estimulem para a nossa curiosidade de aprender”, diz ela.

Momentos para o silêncio

Há décadas atrás a criança não tinha voz e seus questionamentos não recebiam atenção. A formação passou a ter maior relevância nas famílias, e há cerca de duas décadas as perguntas passaram a ser respondidas com entusiasmo. Afinal, percebeu-se, que a curiosidade deveria ser respeitada e estimulada. Hoje em dia a educação vem propondo o meio termo: há momentos de responder e há momentos de silenciar.

Uma dica, segundo os educadores, para inovar na transmissão do conhecimento, válida para educadores em geral é silenciar-se ao ser questionado por uma criança. Esperar que ela pense e devolver outra pergunta. "Desse modo ela não vai se acostumar a respostas fáceis e, muitas vezes, prontas e repetidas. A conclusão dessa prática é instigar", afirma Marisa Montrucchio, também educadora do Projeto Âncora.


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