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Nem todo mundo nasceu para correr

Para evitar lesões, o terapeuta corporal André Trindade propõe exercícios que respeitem preferências

skeeze / Pixabay / CC0 Creative Commons

As pessoas deveriam levar em conta o prazer ao escolher as atividades físicas

Cada vez mais pessoas frequentam salas de musculação, piscinas e parques seguindo a máxima de que fazer exercícios físicos é importante para a saúde. O problema é que muitas vezes a exigência, a disciplina e a vontade de superação podem prejudicar o corpo na tentativa transformá-lo em uma máquina de produzir resultados.

“Quem vai à academia e se exercita na esteira vendo televisão ou falando sem parar se esquece do que realmente foi fazer lá”, comenta o psicólogo e terapeuta corporal André Trindade em entrevista exclusiva ao Portal NAMU. “Muita gente ainda acha que os centímetros de músculos ganhados, os quilômetros percorridos ou o número de travessias na piscina basta para medir resultados”, completa.

André Trindade possui uma formação que garante um olhar amplo sobre o gesto, o movimento e o corpo. É psicólogo graduado pela PUC-SP e especializou-se em no Centro de Cadeias Musculares e Articulares GDS., na Bélgica. Estudou a coordenação motora de bebês por mais de doze anos com a fisioterapeuta M. M. Beziérs. Como bailarino e professor, pesquisou danças folclóricas e étnicas de diversas culturas. Deu aulas na Escola de Reeducação do Movimento de Ivaldo Bertazzo e criou, em parceria com Betty Gervitz, o Studio A&B.

Em 2007, publicou Gestos de cuidado, gestos de amor, um livro sobre cuidados com o bebê. Atualmente, dá aulas sobre GDS. – um método de fisioterapia com abordagem biomecânica e comportamental que atua na prevenção, manutenção e tratamento da boa organização corporal – em congressos de fisioterapia e atua como psicoterapeuta infantil e de adolescentes.

Corpo-máquina

No século 19, o corpo era visto como um objeto formado por várias partes, quase independentes. Quando havia alguma queixa de dor, tratava-se a região dolorida como se ela fosse uma peça com defeito. “Se a pessoa tinha dor no pé, tratavam o pé e assim por diante”, afirma Trindade. A lógica de solução e tratamento era tão fragmantada quanto o entendimento do corpo. “A recomendação era aumentar o tônus muscular, fortalecer a musculatura dos glúteos, fazer séries de abdominais etc. Daí nasceram modalidades ginásticas, como a sueca, para atender esses objetivos”, finaliza.

Na década de 1960, os questionamentos propostos pelo movimento hippie, a assimilação da sabedoria oriental (yoga, medicina chinesa etc.) e a maior liberdade de costumes trouxe ideias que mudaram o modo de pensar do Ocidente sobre o corpo.

“Na filosofia, aparece a fenomenologia, que fala do corpo vivo. Nesse momento, abre-se o olhar para outros aspectos: voltou-se a pensar no papel das articulações, abriu-se o olhar para outros aspectos. Não foi à toa que surgiram propostas de tratamentos do corpo em um contexto mais integrativo e global, como o feldenkraiss, a eutonia e o RPG.”.

Postura, movimento e emoção

A idealizadora do método usado por André Trindade foi fisioterapeuta e osteopata belga Godelieve Denys Struyf. Sua trajetória imprimiu uma marca própria no modo pelo qual ela enxergava não somente o corpo, mas o ser humano.

O psicólogo e terapeuta André Trindade mostra posturas adequadas em um modelo de esqueleto humano

“A história de Godelieve é muito interessante. Criada em uma fazenda, só foi calçar seu primeiro par de sapatos quando chegou à Bélgica aos 17 anos. Uma experiência desse porte garante um olhar estrangeiro, desacostumado e questionador “dos modos civilizados”. Tal perspectiva foi ainda mais aguçada por sua sensibilidade de artista. Pintora e desenhista, ingressou no curso de Belas Artes e, depois de graduar-se, passou a retratar os pacientes de seu esposo e de um hospital que oferecia fisioterapia e técnicas contemporâneas. Foi a partir de inquietações pessoais que criou seu método.

Movimento e personalidade

Godelieve recusava o protocolo médico vigente, composto por perguntas fechadas, e por isso passou a conversar com o paciente. Como resultado concebeu a teoria das cadeias musculares e o método GDS. “As cadeias são uma orquestra que entra em dissonância quando uma delas resolve ser a solista, impedindo as outras de agir”, explica o fisioterapeuta.

O diferencial a teoria das cadeias musculares é a relação de interdependência estabelecida entre postura, movimento, emoção e comportamento. Trata-se de uma relação tão estreita que a partir dela foi possível identificar seis tipos específicos com base em planos mecânicos responsáveis pela postura.

“Quando o paciente chega, é feita uma análise que envolve uma investigação corporal completa e análise do funcionamento dessas cadeias. A GDS, semelhante à fisioterapia convencional, também possui protocolos. O objetivo principal é criar autoconhecimento, além do tratamento específico.”

Trindade acredita que é fundamental reeducarmos nossos movimentos. “Uma parte do trabalho é feita com massagens, manipulações e a outra pelo próprio paciente com movimentos e exercícios. O objetivo é criar novas possibilidades de comportamento corporal, ou seja, a reeducação do próprio movimento. Ela é necessária para evitar que o paciente reproduza aquilo que nele se tornou crônico”.

Exercícios e prazer

O principal obstáculo para isso é de caráter pessoal. “As pessoas têm muita preguiça porque tendem a tratar o corpo apenas como coisa. E o corpo não é coisa, ele é linguagem que diz respeito a sua própria história. Há quem até faça os exercícios, mas tenha preguiça de viver o próprio corpo. A ideia de que o exercício deve dar prazer parece distante na maioria dos casos. As pessoas privilegiam o horário e o lugar do exercício e se inscrevem em academias para onde vão levando o corpo e deixam a cabeça em ouro lugar”, diz Trindade.

Nenhuma ginástica é para todos

“Existem pessoas que não nasceram para correr, outras que não foram feitas para ficar fazendo abdominais, nada é para todo mundo. O ideal é que houvesse uma ginástica criada para cada um. O ‘condutor’ (assim Godelieve chama o indivíduo) é que deveria saber de si e variar”, sentencia o especialista.

Quatro mulheres executam exercícios com bola em aula de pilates

Ser comedido em relação ao condicionamento físico é o melhor caminho. De acordo com Trindade, “é comum as pessoas não prestarem atenção ao próprio corpo e se machucarem. “É comum surgir uma espécie de competição consigo mesmo, o que significa tratar o corpo como objeto, na base da disciplina, em detrimento do prazer, da experiência e da variação. As pessoas se excedem e se machucam. No geral, a pessoa só percebe o corpo no excesso”, finaliza.

Qualquer tipo de atividade física traz benefícios, diz o fisioterapeuta, ao enfatizar o papel do movimento para o ser humano. “A musculação, o relaxamento, o ritmo, os exercícios anaeróbicos e aeróbicos são importantes, além da respiração. Dançar, praticar esportes em equipe ou individuais são fundamentais para uma boa relação entre corpo e mente.

Fotos: Mario Antonio Pena Zapatería / Flickr: Running / CC BY-SA 2.0; Divulgação


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