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Reciclos e a outra face dos catadores

Trabalhadores de cooperativa de materiais recicláveis da zona sul de SP foram retratados em exposição no MuBE

Sandra Adami

Imagens dos trabalhadores da Cooperativa Granja Julieta foram ampliadas e adesivadas em tonéis gigantes

Eles são os principais responsáveis por boa parte da reciclagem feita em São Paulo. Os catadores são os heróis da sustentabilidade, principalmente em uma megalópole onde as políticas públicas para tratamento do lixo praticamente inexistem. Porém, não é nenhuma novidade que nossa cultura não valoriza alguns dos trabalhos mais importantes para seu funcionamento. Pior que isso, trabalhadores de setores fundamentais, como o da reciclagem de materiais, sofrem diariamente com preconceito e o descaso do poder público em relação as suas necessidades.

Foi pensando em dar visibilidade à luta dos desses trabalhadores que o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) abriu espaço para a exposição Reciclos – Muros Invisíveis. Nela, trabalhadores da Cooperativa Granja Julieta, da zona sul de São Paulo, formada predominantemente por mulheres, foram retratados pelos fotógrafos Moisés Patrício, Joelma do Couto, Camila Couto e Max Mu, que também é o curador da exposição.

As imagens foram impressas em tamanho ampliado e coladas em tonéis recicláveis de 200 litros, fornecidos pela Flaskô, uma fábrica ocupada por trabalhadores do município de Sumaré, que reforça o contexto de resistência apresentado nas imagens.

“Essa Cooperativa vem reciclando muitas e muitas toneladas de latinhas, papelão, pet, e eles precisam de mais condições. A gente produziu uma obra que é uma foto escultura em 360 graus. Então a ideia de ocupar um tonel é começar um estudo fotográfico também de como a fotografia sai do papel impresso e como a gente pode vê-la em 360 graus, aliando as lutas da cooperativa e da Flaskô, que são dois espaços que trabalham conceitualmente o processo de consenso, de horizontalidade”, explica Max Mu.

No caso da Cooperativa Granja Julieta, o estigma de discriminação que atinge os agentes da coleta seletiva, que se encontram em sua maioria na base mais baixa da pirâmide social, parece servir como incentivo. A baiana Mara Lúcia Sobral Santos, presidente da cooperativa há mais de uma década, carrega sua bandeira com orgulho.

trabalhadores da cooperativa ao lado de suas fotos

Funcionários da cooperativa foram à inauguração da exposição

”Sou catadora de papelão há 20 anos. O trabalho da cooperativa é um trabalho de sustentabilidade, de inclusão social, e é um trabalho que tem mudado a história do Brasil. Essa exposição pra mim representa, além da virada sustentável, uma virada moral pro catador de papelão. Todo mundo questiona que aqui em São Paulo se recicla só 1% dos resíduos, mas esse 1% foi feito por nós, catadores”, afirma Mara.

Nós, mulheres negras, o povo pobre, o povo preto, somos a base da sociedade, a gente já segura a sociedade inteira. Estar aqui é só mostrar que a gente merece esse reconhecimento, conta Laíssa Sobral

A líder da cooperativa, uma órfã e que passou parte da infância vivendo na rua, é um exemplo de vida. Ela, mesmo sem condições, teve três filhos e adotou outros 16. No total, Mara cuidou e criou de quase 50 crianças.

Para sustentar os filhos, ela vendeu balas em pontos de ônibus, trabalhou como doméstica até conhecer a cooperativa de catadores na Granja Julieta, onde acabaria trabalhando. De lá, ela foi capaz de retirar o sustento dos quase 50 filhos. Mara transformou o lixo de São Paulo na fonte de sustento da família.

Uma de suas filhas, Laíssa Sobral, de 22 anos, hoje estuda gestão ambiental na USP e trabalha na cooperativa desde os 18. “A cooperativa tem uma história de luta muito forte, somos na maioria mulheres negras. Temos uma trajetória de muitas dificuldades sociais, com ex-usuários de drogas, mães de família que sofriam violência doméstica. Hoje, todos trabalham lá e estão inseridos novamente na sociedade. Nós, mulheres negras, o povo pobre, o povo preto, somos a base da sociedade, a gente já segura a sociedade inteira. Estar aqui é só mostrar que a gente merece esse reconhecimento. Quem tem que estar em evidencia não é a ponta, mas quem está segurando”, reivindica, mostrando que aprendeu muitas lições com a mãe.

Falta de estrutura

Apesar do nome, a cooperativa ocupa atualmente um espaço no bairro do Socorro. Sem contar com incentivos do poder público, a cooperativa tem tido dificuldades para se manter. Em 2008, um incêndio (classificado como criminoso por pessoas que garantem ter testemunhado o ataque) afetou o galpão utilizado pelos trabalhadores, na Av. Prof. Alceu Maynard Araújo, que se viram obrigados a deixar o local. A cooperativa nunca teve acesso ao laudo. De lá, foram transferidos para um novo estabelecimento no Largo Treze, e mais tarde, despejados e realocados para o atual galpão, na Rua Nossa Senhora do Socorro.

Segundo Mara, as condições de trabalho no espaço são ruins. Não há banheiros ou ventilação. A expectativa é de que, com a mostra, os cooperados consigam chamar a atenção do governo e possam se transferir para uma central definitiva, com estrutura adequada. Nada mais justo se realmente quisermos dar suporte aos únicos trabalhadores empenhados em reciclar os resíduos sólidos de São Paulo. Afinal, ainda faltam 99%.

Novos tempos

No que se refere às políticas públicas, as perspectivas são de que uma nova era pode estar diante dos catadores. Com a aprovação do novo Plano Diretor Estratégico da Cidade de São Paulo, no último dia 30 de junho, a Prefeitura, que por muitos anos fechou os olhos para a questão, finalmente reconhece a importância da coleta seletiva para a cidade.

Por reivindicação do Comitê de Catadores da Cidade de São Paulo, que participaram de uma série de audiências públicas, o Plano Diretor incluiu uma seção que trata da Gestão Integrada de Resíduos Sólidos e está devidamente pautado pelo Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS).

Na prática, o tratado indica que os Planos Regionais das Subprefeituras devem ter entre seus objetivos a indicação de “áreas para localização de equipamentos necessários à gestão de resíduos sólidos, inclusive para cooperativas de catadores de materiais recicláveis”. Fica ainda estabelecido o compromisso da definição de uma estratégia para formalização contratual do trabalho das cooperativas e associações de catadores, “para sustentação econômica do seu processo de inclusão social e dos custos da logística reversa de embalagens”.


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