Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Saiba mais sobre

Refrigerante: um hábito que engorda

O exagero na dose é o principal problema do consumo dessa bebida doce, que, entre outras coisas, pode causar obesidade

João André O. Dias / Flickr: The pouring of the cococola / CC BY-ND 2.0

O consumo de refrigerante cresceu 400% no Brasil entre 1975 e 2003

Alguém consegue imaginar uma festa de aniversário infantil ou um almoço de domingo em família sem uma daquelas garrafas gigantes de refrigerante? Inventada há mais de 120 anos, a bebida adocicada ganhou popularidade graças ao preço baixo, à propaganda indiscriminada e, é lógico, ao sabor adocicado e à sensação de efervescência. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, os refrigerantes estão entre os cinco alimentos mais consumidos do Brasil, à frente de qualquer tipo de carne, fruta ou verdura.

Consumo cresceu 400%

Se nos anos 70 uma família de quatro pessoas se contentava em consumir uma garrafa de 1 litro de refrigerante no fim de semana, hoje uma verdadeira onda do líquido atinge as geladeiras e despensas das famílias brasileiras. E o problema é exatamente esse, o consumo da bebida virou um hábito cotidiano e beber refrigerante deixou de ser algo que só acontecia nos finais de semana.

Os números do IBGE mostram que o consumo de refrigerantes e bebidas açucaradas no Brasil cresceu 400% entre 1975 e 2003. No Estudo Nacional de Despesa Familiar de 1974-1975, o consumo anual per capita de refrigerante de guaraná, por exemplo, era de 1.297 l. Em 2008-2009, era de 5.726. Um aumento de mais de 340%. O consumo de refrigerantes de cola é ainda maior, em 2008-2009 foi de 12.663 l.

O brasileiro, segundo o IBGE, consome uma média de 250 ml de bebidas doces por dia: 94 ml de refrigerantes e 145 ml de sucos e refrescos. O consumo é maior na população de maior renda e as versões diet ou light não estão presentes nos hábitos da população de menor renda. O retrato fica pior quando consideramos que muitas pessoas bebem um copo de refrigerante ou suco em todas as refeições e lanches do dia (cinco copos por dia). Com isso, elas adicionam, em média, 550 calorias ao dia ou o valor calórico de uma refeição completa.

Água pelo refrigerante

Assim, a adoção desse doce sabor ao cotidiano, com suas calorias, açúcares e adoçantes, sem falar em seus outros ingredientes, está levando a população ao sobrepeso e à obesidade. O pior é que esse é um hábito que passa de pai para filho e está levando crianças e adolescentes a abandonar a água e passar a se hidratar essencialmente por meio dessas bebidas.

Um levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realizado em 2008 com 270 famílias, demonstra a responsabilidade dos adultos nessa “epidemia”. A nutricionista Maysa Toloni entrevistou as famílias e descobriu que 67% dos bebês com menos de 2 anos de idade já tinham experimentado refrigerante.

Outra pesquisa, agora do Ministério da Saúde, que entrevistou 54.367 pessoas em 2010, aponta para uma piora no padrão alimentar do país. E os refrigerantes não poderiam ficar de fora desse retrato. As entrevistas mostram que o número de brasileiros que consome regularmente refrigerantes e bebidas açucaradas cresceu 13,4% em um ano. Em 2008, 24,6% da população com mais de 18 anos consumia este tipo de bebida cinco ou mais vezes na semana. Em 2009, o índice subiu para 27,9%.

Hábito inconsciente

São poucos os que recusam um copo de refrigerante geladinho. O problema é a repetição do hábito e, como tudo na vida, a quantidade excessiva acaba sendo prejudicial ao organismo e a obesidade é apenas um dos indícios. O exagero é o responsável pela maioria dos danos, já que não há evidência científica suficiente de que o refrigerante sozinho, consumido de forma moderada, faz mal ao organismo.

Especialistas dizem que a maioria dos estudos leva em conta apenas o consumo de refrigerante e não consideram os outros elementos que fazem parte da dieta dos pesquisados. Por exemplo, aqueles que consomem alta quantidade de refrigerantes por dia o fazem acompanhados de alimentos altamente calóricos, como salgadinhos, fast food, pizza, sanduíches e outros.

Artigo no site WebMed, portal especializado em tópicos sobre saúde, pondera que “a maioria dos estudos sobre o consumo de refrigerantes nas duas últimas décadas leva em conta a memória das pessoas sobre o que beberam e os efeitos em cobaias e ratos. Estudos observacionais como estes podem apontar para possíveis problemas, mas eles não podem provar que refrigerantes podem, ou não, representar um risco para a saúde”.

Aumento da obesidade

O fato é que os refrigerantes suplementam o organismo com calorias e muito poucos nutrientes. Além disso, as pessoas tendem a substituir sucos de frutas, água e leite por refrigerantes, piorando a qualidade de sua alimentação. Uma lata de refrigerante normal contém o equivalente a 18 colheres de chá de açúcar.

Nesse sentido, há uma concordância em que o mais correto é limitar a ingestão de refrigerantes de uma maneira geral. Não há uma dose recomendada, mas estudos apontam que consumir apenas uma ou duas latas por semana representa risco menor. A American Heart Association recomenda consumir não mais que 450 calorias de açúcar via bebidas açucaradas por semana (o equivalente a três latas de refrigerante).

Estar acima do peso ou obeso aumenta o risco de diabetes, doenças do coração, acidente vascular cerebral, câncer e outras doenças e ainda causa problemas sociais e psicológicos graves em milhões de pessoas anualmente, afirma artigo do Center for Science in the Public Interest. A organização não governamental americana, que defende os direitos dos consumidores, enviou carta às autoridade de saúde dos Estados Unidos solicitando que os refrigerantes sejam considerados tão danosos quanto o tabaco.

Mitos não esclarecidos

Há muitos mitos sobre os refrigerantes, mas é certo que ele é um mero coadjuvante na maioria dos males que lhe são atribuídos: a bebida não produz celulite ou causa diabetes sozinha. Também não vicia. Seu açúcar colabora na obesidade, mas poucas pessoas são gordas por culpa exclusiva do refrigerante. A celulite e a diabetes são consequências da obesidade e não do consumo de refrigerantes, mostram dezenas de estudos científicos. E, com relação à celulite, a hereditariedade é o fator mais importante para seu surgimento.

Quanto ao vício, algumas pesquisas sugerem que a cafeína presente em vários refrigerantes pode criar uma dependência química. Entretanto, apesar de algumas pesquisas conflitantes sobre a cafeína e saúde terem surgido nos últimos anos, a maioria dos estudos realizados ao longo de várias décadas mostra que quantidades moderadas de cafeína são seguras.

Outros componentes acendem alerta

Não são apenas as chamadas calorias vazias que os refrigerantes fornecem, outros ingredientes também acendem a luz de alerta. Ainda não estão claramente definidos os papéis e mais pesquisas são necessárias sobre definir exatamente quais são os efeitos dos gases, corantes artificiais e ácidos presentes nos refrigerantes.

Segundo o Center for Science in the Public Interest (CSPI), “o consumo frequente de refrigerantes pode também aumentar o risco de osteoporose, especialmente em pessoas que bebem refrigerantes em vez de leite rico em cálcio. Especialistas continuam a insistir que as pessoas bebam menos refrigerante, principalmente entre as refeições, para evitar cárie dentária (devido aos açúcares) e erosão dentária (devido aos ácidos)”.

Segundo a entidade, “os consumidores frequentes de refrigerantes também podem estar em maior risco de pedras nos rins e um ligeiro aumento do risco de doença cardíaca. Mais pesquisa é necessária em ambas as áreas”.

Para o CSPI, além dos açúcares e ácidos, outros ingredientes dessas bebidas são uma preocupação: cafeína; corantes artificiais, especialmente o Amarelo nº 5 (que pode estar ligada à desordem de atenção e hiperatividade em algumas crianças e que também provoca urticária, asma e outras reações alérgicas num pequeno número de indivíduos).

A indústria nega a maioria desses efeitos secundários, que na maioria das vezes surgem na literatura no condicional: “pode provocar”, “pode levar”. E cientistas isentos salientam que são necessários mais estudos que liguem o consumo de refrigerante diretamente a esses riscos já que a maioria das pesquisas não é conclusiva. Apesar disso, há quem defenda que beber refrigerante é tão prejudicial quanto fumar.

Mais uma vez, moderação no consumo é a regra chave para evitar efeitos nocivos. A única unanimidade entre os nutricionistas é que esse líquido doce borbulhante tem baixíssimo valor nutritivo. E que beber qualquer líquido durante as refeições é um hábito totalmente desnecessário.

Foto: Shutterstock

Referências

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE): Estudo Nacional da Despesa Familiar 1974-1975. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008/2009. Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro; 2010. Disponível em [http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa=25], consultado em maio de 2013.

CLARK, N: Nancy Clark’s Sports Nutrition Guidebook. Leisure Press, 1990. Medline Plus consumer health information about cellulite. Disponível em [www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/002033.htm], consultado em maio de 2013.

INTERNATIONAL FOOD INFORMATION COUNCIL (Conselho internacional sobre informações alimentares). All About Caffeine, ADA CPE Program. Disponível em [www.ific.org/adacpe/caffcpe.cfm], consultado em maio de 2013.

WebMed: Sodas and Your Health: Risks Debated (Refrigerantes e a sua saúde: um debate sobre os riscos). Estados Unidos, 2011. Disponível em [http://www.webmd.com/diet/features/sodas-and-your-health-risks-debated], consultado em maio de 2013.

JACOBSON, Michael F.: Liquid Candy - How Soft Drinks Are Harming Americans’ Health (Doce líquido: como os refrigerantes estão ameaçando a saúde dos americanos). Center for Science in the Public Interest, Estados Unidos, 2005. Disponível em [http://www.cspinet.org/new/pdf/liquid_candy_final_w_new_supplement.pdf], consultado em maio de 2013.