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Remédio para turbinar o cérebro?

Febre na Europa e nos EUA, modafinil levanta questionamento ético sobre o uso de substâncias para melhorar performance cognitiva

JESHOOTScom / Pixabay / CC0 Creative Commons

Modafinil atua no sistema nervoso central, excitando áreas do cérebro responsáveis pela vigília

No filme de ficção Sem Limites (Limitless), o protagonista descobre uma pílula que permite utilizar 100% da capacidade cerebral. Ao ingerir a droga, a vida do personagem do longa-metragem se transforma radicalmente. Alguns dias após ele começar a tomar o NZT (nome dado para a pílula no filme), o jovem desconhecido passa da posição de um escritor falido para o de gênio milionário do mercado financeiro e autor de best-seller.

A partir do início dos anos 2000, dezenas de relatos da utilização de um medicamento de uso controlado que aparenta possuir efeitos similares para a função cognitiva vem gerando um debate semelhante ao retratado no filme. O modafinil é uma substância usada no tratamento de pessoas com narcolepsia (distúrbio do sono caracterizado por sonolência excessiva). Ele atua estimulando o sistema nervoso central, excitando áreas do cérebro responsáveis pela vigília e inibindo o sono.

Na Europa e nos EUA, seu uso se tornou popular entre estudantes e profissionais do mundo corporativo por conta de uma suposta associação com aumento de produtividade (melhora na concentração, na capacidade cognitiva e no período desperto). É um exagero comparar o modafinil ao NZT de Sem Limites, já que a droga está longe de tornar seu usuário em um super humano. Mas o cenário levanta questões interessantes: será que vale a pena utilizar drogas para melhorar a capacidade do cérebro? Isso seria ético?

Em Sem Limites, o uso recorrente das “pílulas mágicas” possuía efeitos colaterais devastadores e o personagem corria risco de morte caso parasse de tomá-las. Com o remédio da vida real, o modafinil, o risco é aparentemente menor, mas ainda faltam estudos para conhecer quais são seus efeitos em longo prazo. Os sintomas relatados até o momento incluem irritabilidade, excitação, tremores, tontura, dor de cabeça, náusea, dor abdominal, pressão alta, alterações nos padrões do sono e palpitações.

Febre nas universidades

Pela internet é possível encontrar dezenas de relatos de pessoas falando de suas experiências com o modafinil, desde estudantes das maiores universidades europeias até executivos do Vale do Silício. No Reino Unido, por exemplo, uma pesquisa demonstrou que um em cada cinco estudantes já utilizou modafinil para melhorar a concentração para exames ou jornadas de estudo. Em Oxford, a principal universidade do país, o número é ainda maior: 26% dos alunos admitem já ter utilizado a substância.

Inúmeras reportagens no Reino Unido já apontaram para a existência de um mercado negro em diversas universidades inglesas, com alunos que adquiriam o medicamento online e passavam adiante por cerca de duas libras a pílula. Segundo um levantamento feito pela Sky News, em 2013, estudantes de graduação estão cada vez mais procurando medicamentos para ficar acordados e alertas por longos períodos durante a época dos exames.

Outra discussão que o uso exagerado da substância traz consigo está no campo da ética. É justo utilizar um medicamento como o modafinil para melhorar seu desempenho cognitivo em testes e provas enquanto outros alunos estão “limpos”? Isso poderia ser considerado uma espécie de doping?

O remédio funciona mesmo?

Diversas pesquisas sobre a substância estão sendo conduzidas por cientistas interessados em seus efeitos sobre a cognição e a concentração. Uma revisão de 19 estudos duplo-cegos randomizados e controlados utilizando o modafinil concluiu que, em 14 deles, os voluntários apresentaram melhoras em pelo menos um dos testes cognitivos administrados. Vários trabalhos também sugerem que o modafinil é mais efetivo para pessoas com performances abaixo da média geral.   

Boa parte dos estudos, porém, vem sendo realizados com um interesse bem diferente: o de melhorar o desempenho dos exércitos. Os governos dos EUA, Canadá, China, Coréia do Sul, Holanda, Taiwan, Cingapura, Índia e França, entre outros países, patrocinam e supervisionam estudos com o modafinil para garantir que seus soldados possam se manter acordados em situações de crise ou de combate.

Dentre a maioria das pesquisas já publicadas, o modafinil foi capaz de estender a capacidade dos soldados de se manterem acordados por mais tempo. Um relatório do U.S. Air Force Research Laboratory elucida o por quê de tanto interesse e desenha um futuro no mínimo preocupante: “Forçar nossos inimigos a atuar continuamente sem o benefício do sono diário necessário é uma arma muito efetiva”. Se a lógica se confirmar, em algum tempo, dormir na guerra será sinônimo de morte.

No Brasil, o uso do remédio também está crescendo, principalmente por pessoas que prestam concursos ou exames vestibulares1. Há inclusive blogueiros e concurseiros que defendem a utilização da droga para melhorar o desempenho durante os estudos e as provas. 

Foto: freeimages