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Tatuagem: risco escondido nas tintas

Alguns elementos tóxicos como cobalto e mercúrio podem ser usados em pigmentos aplicados na pele, tornar a tattoo perigosa e provocar problemas de saúde

Thinkstockphotos

Pigmentos cancerígenos e agulhas contaminadas são alguns dos riscos de fazer tatuagens

Elementos cancerígenos e tóxicos, como cobalto e mercúrio, foram encontrados em alguns pigmentos usados em tatuagens, constatou um estudo sobre toxicidade realizado na Dinamarca. Usados para criar as cores azul, verde e vermelho, eles podem cair na corrente sanguínea, instalar-se em órgãos vitais e prejudicar sua funcionalidade. No Brasil, apenas três marcas de tinta para tatuagem são autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Quando tatuamos a pele, a tinta se instala na derme. Parte do pigmento movimenta-se até os gânglios linfáticos que drenam a área em que foi feito o desenho. Isso significa que eles estão sendo indiretamente “tatuados”. Outra parte do pigmento, na forma de nanopartículas, cai diretamente na corrente sanguínea. Existe a suspeita de que, com o passar dos anos, depositada em uma determinada área do corpo, ela possa causar câncer, embora estudos sobre os riscos associados aos pigmentos depositados nos nódulos linfáticos e na corrente sanguínea ainda não sejam conclusivos.

Jørgen Serup, autor do estudo e referência mundial em pesquisas sobre a química das tatuagens, verificou também que 10 das 11 tintas pretas estudadas continham concentrações de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos em níveis não recomendados pelas autoridades europeias. Os hidrocarbonetos, compostos comumente encontrados em fuligem e fumaça de cigarro, são cancerígenos.

Como a tinta age no corpo

Nas primeiras semanas após a aplicação, os pigmentos costumam ser bastante estáveis. Com o passar do tempo, porém, eles podem se espalhar pela região próxima à tatuagem e atingir gânglios linfáticos. Fatores externos, como a radiação solar, também tendem a afetar as tintas e a torná-las mais instáveis.

O pesquisador dinamarquês, em entrevista ao portal The Financial Review, alerta para o risco de esses produtos chegarem aos gânglios linfáticos ou linfonodos, pois a partir deles, as substâncias tóxicas podem migrar até a medula óssea. Segundo Serup, muitas vezes as pessoas chegam até a tatuar sobre esses gânglios ou em regiões próximas a eles sem saber dos possíveis riscos.

Seu estudo relata que patologistas encontraram pigmentos de tinta em linfonodos da área próxima à tatuagem de muitas pessoas. Não está claro para os pesquisadores o quanto desses pigmentos cai no sangue, porque as nanopartículas, como as presentes nas tintas pretas analisadas, tendem a furar o bloqueio dos linfonodos e chegar com maior facilidade à corrente sanguínea.

Apesar de muitos tatuados conhecerem resultados de pesquisas como a de Jørgen Serup, não a encaram como fator determinante para desistirem do procedimento. A engenheira civil e amante das tatuagens, Beatriz Gilli, afirma que mesmo conhecendo a informação não se preocupa com essa questão, entretanto, sempre fica atenta à qualidade do material usado. E completa “desde que fiz a minha primeira tatuagem, busco fazer exames rotineiros para ter certeza de que tudo corre bem”.

Casal na praia
Beatriz Gilli procura fazer exames rotineiros para verificar se as tatuagens não trouxeram problemas

Contaminação

Outra preocupação é a contaminação dos materiais. “Se um equipamento não estéril for utilizado ou se a tinta estiver contaminada, há risco de infecção. E há uma preocupação maior ainda, o de ele estar infectado por vírus como o do HIV, da sífilis, hepatite B ou hepatite C, entre outros”, alerta Valéria Campos, dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

A Anvisa também alerta para esses perigos e recomenda cuidados como verificar se o profissional lava as mãos, aplica nelas álcool a 70% e ainda usa luvas descartáveis e máscara enquanto faz a tatuagem.

Alergias e granulomas

Valéria Campos alerta para o fato de que tatuagens, principalmente as mais escuras, podem esconder manchas de cânceres da pele como o melanoma, o mais grave de todos os tipos. “Não faça tatuagem em cima de pintas, manchas, verrugas, ou quaisquer outras marcas”.

Há também a chance de reação alérgica ao pigmento da tatuagem. Campos afirma que a reação ao pigmento vermelho é a mais comum. “Nas peles morenas, sobretudo, há o risco de queloide, que pode ser desencadeada por erro de técnica ou por predisposição genética”, argumenta.

Desenvolver granulomas, pequenas saliências que se formam em volta dos traços das tatuagens, é outra consequência da rejeição dos pigmentos pelo organismo. “O corpo reconhece o produto como um corpo estranho e forma barreira envolta dele como forma de proteção. Durante o momento da aplicação da tinta sobre a pele, o tatuado pode sentir a região queimar e até inchar”, explica Campos.

O que diz a lei

A Anvisa criou, em 2009, um documento de referência técnica para o funcionamento dos serviços de tatuagem e piercing. Nele, constam as formas de como o profissional deve proceder para oferecer um atendimento de qualidade e segurança aos pacientes. Cabe aos estados e municípios, no entanto, criarem legislações para suas regiões. Embora exista uma resolução de 2008 sobre a pigmentos para tatuagem, muitos estúdios não seguem essas determinações e não compram material certificado.

Foto: Beatriz Gill