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Meditação para combater o estresse

Em entrevista ao Portal NAMU, o psicólogo Rubens de Aguiar Maciel fala sobre atenção plena e psicanálise
Portal Namu
27/09/19

As demandas da sociedade atual aumentaram de tal maneira a quantidade de estímulos que evitar que nossa mente se torne vítima da hiperatividade tornou-se um desafio. Hoje, é comum dizer que não rendemos no trabalho, que não somos capazes de manter a concentração em razão da miríade de estímulos ou que não temos mais paciência para conversas ou reuniões prolongadas.

Esse quadro acabou gerando um outro problema: o crescimento da prescrição de drogas para diminuir o déficit de atenção. O aumento assustador de jovens e crianças medicados com Ritalina, Adderall e Concerta tornou-se uma preocupação atual. Segundo o psicanalista Rubens de Aguiar Maciel, “o ser humano possui uma tendência natural à distração e à hiperatividade que é agravada pelos hábitos da sociedade contemporânea, onde somos convocados a ser multitarefas, fazer várias coisas ao mesmo tempo e a acumular uma quantidade impressionante de informações que não são úteis para nosso autoconhecimento, para capacitar-nos a aprender a controlar nossas emoções, identificar as causas de nosso sofrimento e a conviver harmoniosamente com o próximo. Vivemos a síndrome do pensamento compulsivo, sempre preocupados, planejando, revendo nossas ações. Essas condições associadas geram ansiedade, quadros de estresse e a tendência à distraibilidade e à hiperatividade, causando problemas para o funcionamento do sistema psiconeuroimunológico”.

Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, Rubens Maciel relata suas experiências com os temas do desenvolvimento humano, autoconhecimento e qualidade de vida. Suas pesquisas visam estabelecer uma ponte entre a meditação e a psicanálise. Ele acredita que problemas como déficit de atenção e hiperatividade, capazes de afetar o desempenho profissional e as relações familiares e afetivas das pessoas, podem ser combatidos com a prática da atenção e da meditação.

Portal NAMU: Como a meditação entrou na sua vida?
Rubens de Aguiar Maciel: Eu sempre tive interesse pelas filosofias orientais. Quando era adolescente, um tio me apresentou as obras de Jiddu Krishnamurti. De forma sutil, isso despertou meu interesse. Cursei psicologia e psicanálise e minhas leituras sobre o budismo me levaram à prática da meditação, cujos efeitos em mim foram impressionantes. Acredito que a psicologia budista tem aspectos que a psicologia ocidental e a psicanálise não têm, que são as técnicas e conhecimentos para alcançar a felicidade. Todos nós queremos isso e a modalidade budista nos ensina a caminhar nessa direção.

O que o motivou a pesquisar sobre a meditação?
A parte ética e espiritual sempre esteve comigo. Tive uma curiosidade pela mística budista, queria voar junto e entender o que era esse poder. Quando comecei a meditar de fato, senti uma transformação positiva tão grande na minha vida, que pensei em não mais abandonar a prática. Achei que valia a pena trazê-la para o consultório em conjunto com a psicologia budista. Eu faço isso hoje ao alinhar os universos da psicologia, da psicanálise e do budismo.

A meditação da atenção plena (mindfulness) possui uma dinâmica que mistura algumas coisas. Eu considero a releitura feita pelos norte-americanos um pouco fast food e não gostaria de ser visto desta forma. Por isso, além de usar o termo em português, atenção plena, tenho um pouco mais de liberdade no meu modo de atuar.

Eu particularmente não uso o método Mindfulness-based stress reduction (MBSR – Redução do estresse baseada em meditação de atenção plena) desenvolvido pelo médico estadunidense Jon Kabat-Zinn. Minha abordagem é sobre ética, busca da felicidade e meditação. Preocupo-me em transformar as emoções negativas em positivas e mostrar a importância da compaixão, da bondade amorosa e do altruísmo.

Psicanalista Rubens de Aguiar Maciel

Você aplica esses conhecimentos em consultório?
Sim. Também emprego as técnicas na Faculdade de Saúde Pública, no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Sousa e no Ambulatório de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da USP.

Como pesquisador, o que o motivou a estudar os benefícios da meditação ou atenção plena?
Sempre tive uma forte inclinação intelectual. Eu já havia completado o doutorado em saúde pública quando descobri os benefícios da meditação. Percebi que possuía algo valioso nas mãos, mas quando eu ia conversar com as pessoas havia um deboche, uma desconfiança que eu fosse mais um “charlatão”. Resolvi então que eu não poderia me submeter a isso e decidi juntar a ciência com o budismo.

Nesse período, eu li o livro Emoções que curam, de Daniel Goleman, publicado pelo Mind & Life Institute, entidade fundada por Dalai Lama e um grupo de apoiadores para estudar os efeitos das práticas budistas na mente e promover encontros periódicos entre expoentes da ciência e mestres budistas.

Nessa obra, vi alguns aspectos sobre o projeto da clínica de redução de estresse que Jon Kabat-Zinn tem nos Estados Unidos que me fascinaram. Descobri que era isso o que eu gostaria de fazer: colocar uma clínica dentro de um hospital que atendesse todos os pacientes de áreas como oncologia, dor, psiquiatria, entre outras. Quando comecei a escrever sobre o assunto, as pessoas passaram a olhar o meu trabalho de maneira mais respeitosa.

Como foi sua experiência com a pesquisa que conduziu sobre estresse na saúde pública?
Foi muito boa. O trabalho começou com o treinamento de estagiários que aprenderam sobre a teoria e prática da meditação e do estresse e esta pesquisa terminou em setembro de 2014. Fizemos testes de estresse, de consciência e padronização, pois era um grupo de pesquisas e estudos.

Aplicamos um processo de oito semanas, com um grupo de 24 pessoas, em que começamos com 10 minutos de meditação em atenção plena. Houve melhoria de 90% na condição de estresse na amostragem. Os depoimentos eram emocionantes, pois relatavam também uma mudança para melhor no comportamento, na forma de olhar a vida e de se relacionar.

Qual é a relação entre os níveis de cortisol, estresse e meditação?
O cortisol é um hormônio liberado em situações de estresse ou perigo. Após a ameaça, seu nível volta ao normal. Atualmente nas grandes cidades isso ocorre em razão de preocupações como o trânsito, as tarefas profissionais e familiares, a criminalidade, entre outras. Para o organismo, essa condição permanente favorece a liberação contínua de cortisol e outros elementos químicos, o que enfraquece o sistema imunológico e favorece o aparecimento de várias doenças. A prática da meditação ajuda a reequilibrar o metabolismo, pois reduz as preocupações e diminui o pensamento compulsivo.

O estado de relaxamento físico e mental é uma condição necessária para nossa saúde. O problema da utilização apenas de técnicas de relaxamento é que depois eles não se sustentam, pois resolvem as questões momentaneamente. Já a meditação estende essa condição de relaxamento no dia a dia. A prática constante faz com que a pessoa desenvolva uma rede neural entre a amígdala cerebelar e o neocórtex e contribua para o desenvolvimento de novos neurônios. Esta rede ajuda a controlar a impulsividade e reativa ao ambiente. A região da atenção e a das emoções positivas no cérebro também aumentam de volume com a meditação.

Por que algumas pessoas sentem dificuldade em ficar sozinhas para praticar a meditação?
Quando as pessoas chegam em casa, o que elas fazem? Ligam a televisão, pegam o telefone ou ligam o computador para conferir o que rola nas redes sociais. O tempo todo é assim. A psicologia budista tem alguns enfoques que são muito interessantes e um deles é de que o homem tem uma tendência muito forte à exaltação ao ócio. A mente humana procura o entretenimento e se afasta da quietude, que é uma condição que a leva ao contato com ela mesma.

A baixa adesão da população em geral às práticas meditação reflete um medo de confrontar o desconhecido?
Sim, essa é a parte mais profunda. A psicanálise afirmaria que algumas pessoas estão habituadas ou são atraídas ao sofrimento e por isso rejeitam tratamento. Muitas, inclusive da área da saúde, começam a fazer meditação, reconhecem os benefícios, mas não dão continuidade à prática por acharem que “isso não é para elas”.

O que você faria para mudar esse cenário?
Acho que nem o Dalai Lama tem a resposta para essa questão. Uma mudança de vida exige muito esforço, implica também algumas renúncias e ninguém tem a visão dos benefícios que isso pode trazer. A meditação oferece melhora na concentração, na autorresponsabilidade e na necessidade de desenvolver-se. Mas nem todos estão preparados para isso.

Foto: divulgação; Evdokimov Maxim / Shutterstock​


Veja também:
Seria o mindfulness uma espécie de meditação fast-food?
O poder da meditação segundo a ciência
Lia Diskin: o que é meditação?


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