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Iluminismo

O que é

O iluminismo é um movimento que coloca a razão no centro do debate. É no uso crítico e adequado da racionalidade que o ser humano pode realizar o progresso social e espiritual.
A liberdade é o conceito organizador do iluminismo. É através dela que o uso crítico da razão é possível, promovendo um avanço no debate das ideias, na formulação das leis e das regras sociais. No aspecto prático, a livre troca dos bens de consumos permite desenvolver a sociedade.
O iluminismo rejeita a ideia de alienação ou passividade. É tarefa do ser humano desenvolver uma consciência ativa de si e do mundo. Não cabe a ele aceitar a imposição de dogmas, religiosos ou políticos. No iluminismo, o indivíduo luta para ser cidadão.
O uso da técnica e o domínio da natureza caracteriza a forma burguesa na política: é o símbolo do cidadão que vive sob a ordenação do Estado, que acredita nas leis e que exige a liberdade econômica para a evolução social

Origem do nome

É uma designação específica e de uso estritamente filosófico. A palavra iluminismo pode ser tomada em duas partes:

1. Iluminar – no sentido daquilo que dá luz ou que esclarece.

2. O sufixo -ismo, que caracteriza uma doutrina, sistema, teoria, tendência ou corrente.

Criação

O iluminismo é uma retomada do entusiasmo pelo discurso racional. O conhecimento passa a ser o valor supremo, e não mais a imposição da crença religiosa. O homem adquire um traço enciclopédico, capaz de sistematizar saberes e conceitos em projetos para a humanidade.

Conhecer é compreender e dominar técnicas, que, por sua vez, exercem uma tentativa de controle da natureza. O iluminismo significa a intervenção radical do homem nas leis naturais, expandindo-se geograficamente e intervindo de forma consciente no rumo na história.

O homem no centro dos poderes tem como emblema a figura do Estado. É o instrumento iluminista para a organização social. Intervém, instrui, organiza, pune, recolhe impostos e tem seus funcionários estatais. O Estado é o controle humano para permitir o exercício de liberdade e cultivo do conhecimento.

O modelo da liberdade iluminista culmina na burguesia. Produzir um comércio, adquirir instrução, ter as garantias das leis como apoio do Estado: assim pode ser definido o espírito burguês. Com a sua ascensão, emerge o indivíduo voltado para o trabalho e pela luta de cidadania, em oposição ao nobre, representante da forma antiga de governo e vida social.

Histórico

Deus e a razão:

Foi no século 17 que o iluminismo deu seus primeiros passos, porém, sua história pode ser ligada à Renascença e à Reforma Protestante, ambos ataques ao edifício intelectual e político da Idade Média ocidental, o qual, até então, tinha como fundamento o cristianismo. Durante a Renascença, os trabalhos científicos de Nicolau Copérnico (1473-1543) e Galileu Galilei (1564-1642), somados ao rigor matemático de Descartes (1596-1650) e Leibniz (1646-1716) e à nova concepção do universo promovida pelos textos de Isaac Newton (1642-1727) colocaram em conflito as noções religiosas e o mundo das ideias e da razão. Já a Reforma de Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564), produziu efeitos na sociedade, na política e na economia do Ocidente. Tais mudanças abriram as portas para a chegada do iluminismo.

O Século das Luzes:

O apogeu do iluminismo é o século 18, que marca uma virada histórica, colocando o ser humano e seu conhecimento no centro das preocupações. O marco desse período é a Revolução Francesa (1789), com o seu lema da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, influenciando outros movimentos, como a independência das colônias inglesas na América do Norte (final do século 18) e a Inconfidência Mineira (1789), ocorrida no Brasil.

Emancipação política:

A crise do antigo regime é caracterizada pelo mercantilismo e o absolutismo monárquico.

Atualidade

Encontramos hoje rastros do ideário iluminista nas novas ideias sobre liberdade e políticas sociais ou educacionais:

Movimentos emancipatórios: hoje o mundo está pautado por diversas lutas e conquistas dos direitos. A discussão feminista sobre gênero, a ampla discussão sobre as cotas para afrodescendentes em universidades brasileiras, imigrantes marginalizados e diversidade sexual são movimentos que em geral se baseiam em autores com ideias iluministas sobre emancipação e luta por direitos de cidadania.

A ideia de progresso social como progresso técnico e educacional é bastante iluminista e está muito presente atualmente. Praticamente todas as nações do mundo se baseiam em índices sobre desenvolvimento relacionando economia, educação e condições sociais.

Encontramos ainda um tipo de traço iluminista na crescente demanda por autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. A preocupação com a saúde e novas formas de lidar com os problemas do cotidiano evocam a ideia de emancipação do indivíduo e do seu meio social.

Fundamentos do iluminismo

Iluminismo: 

As noções iluministas fizeram parte de um movimento filosófico, político e social que surgiu na Europa do século 18. Muitas ideias novas aparecem, nesse momento, nas ciências da natureza, sobretudo no uso adequado e crítico da razão. A noção de luz faz parte do diagnóstico dos iluministas de que a sociedade vivia então em uma época de trevas, sombria e pouco esclarecida. Para melhorar esse quadro eles acreditavam que era necessária a presença da luz da razão.

Implicações radicais:

Encontramos muitas implicações nos campos da moral, do conhecimento e da vida prática. A crítica e a técnica tornaram-se a principal aposta para o convívio social, assim como a liberdade significou um fluxo maior de bens e mercadorias. O debate entre as ideias foi estimulado pelo questionamento, a investigação e a experiência. Assim, a filosofia, as artes e as ciências se voltaram contra as imposições dogmáticas da religião e da política, até então teocêntricas e feudais.

A força do Estado e da razão:

 A organização da vida social passou a ser cada vez mais orientada pelo Estado. Ganhou poder a ideia de que mundo humano do conhecimento é diferente do universo religioso. A razão do indivíduo é tida como algo a ser desenvolvido, mas que deve obedecer a uma vontade maior e pública. A influência religiosa sofreu um abalo, e o Estado assumiu as tarefas de promulgar as leis, os códigos de conduta, a arrecadação de impostos e o incentivo à educação popular.

Na prática

O Iluminismo pode ser considerado aquele que prima pelo uso da racionalidade para o conhecimento e para a atividade do homem:

1) Em geral as luzes do conhecimento lutam por um lugar no espaço político, relegando a religião a um segundo plano e ao mundo privado. Um iluminista tem afeições com a perspectiva ateia.

2) A ideia de iluminar o mundo pelo próprio homem eleva o fazer ciência a uma atividade fim. O homem busca conhecer para produzir ainda mais conhecimento.

3) A organização social só iluminista dá crédito à formulação das instituições. É o Estado, em suas várias divisões burocráticas, o responsável por criar os modos de vida.

Principais nomes

Montesquieu (Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu) (1689-1755)

Filósofo francês. Sua principal contribuição na política foi a ideia de que o governo deveria ser exercido por três poderes independentes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Essa tese exerce importante influência sobre diversos textos constitucionais modernos e contemporâneos.

Em sua publicação mais conhecida, Do Espírito das Leis (1748), Montesquieu distingue três classes de governo: as repúblicas, a monarquia e o despotismo. Acreditava que o governo britânico, com seus três poderes divididos entre executivo, legislativo e judiciário, era o sistema a seguir, pois limitava e controlava o poder real, assegurando maior liberdade e segurança para o Estado.

Dois aspectos de sua originalidade no estudo científico das sociedades: 1) a descrição da realidade social segundo um método analítico e positivo, que tenta organizar a multiplicidade dos dados da realidade social em número reduzido de tipos; 2) o liberalismo que decorre da sua separação de poderes a partir dessa organização racional dos fatos sociais da experiência.

Voltaire (pseudônimo de François-Marie Arouet) (1694-1778)

Filósofo francês e famoso anticlericalista em razão de sua reconhecida crítica ao cristianismo. Ficou notável pela sua oposição ao pensamento religioso, pelo modo ácido de suas críticas e pela defesa da liberdade intelectual.

Defendia a existência de um monarca absoluto, desde que cultuasse a ciência e estivesse aberto às reformas propostas pelos filósofos iluministas. No Tratado Sobre a Tolerância (1763), fundamenta a necessidade da tolerância religiosa. Ainda que seja apreciador do sistema inglês, tal como Montesquieu, seu ideal de governo tem muita afinidade com o despotismo esclarecido.

Defendeu os interesses dos burgueses e desconfiou da ignorância dos setores populares. Foi crítico das guerras, da intolerância, da censura, da burocracia, da corrupção, do obscurantismo e do fanatismo religioso. Seus escritos mais importantes são: Cândido, ou Otimismo (1759), Ensaio Sobre os Costumes (1756); Dicionário Filosófico (1764) e Cartas Inglesas (1734).

Benjamin Franklin (1706-1790)

Político, cientista e inventor norte-americano. Seus interesses científicos surgiram no mesmo momento de sua atividade política. Participou ativamente dos eventos que levaram à independência dos Estados Unidos e da elaboração da constituição de 1787.

No que diz respeito à sua atividade científica, na França, em 1752, fez o experimento que lhe permitiu provar que as nuvens estão carregadas de eletricidade e que os raios são descargas elétricas. Através desse experimento, formulou conceitos de eletricidade negativa e positiva.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Filósofo suíço, nascido em Genebra. Defensor da participação do povo na vida pública pela eleição de seus representantes políticos.

Defendeu a necessidade de reformas sociais e foi crítico da nobreza e da burguesia. Sua obra mais conhecida é o Contrato Social (1762), que expressa sua posição política como democrata convicto. Procura harmonizar a liberdade individual com a autoridade governamental para estabelecer a justiça. Sua tese se baseia na ideia de um contrato, no qual cada indivíduo entrega seus direitos ao governo, que em troca lhe dá a garantia de sua vida e de sua propriedade.

O resultado seria uma vontade geral em busca do bem comum, uma espécie de síntese do que é melhor para todos. A vontade geral é a soberania popular e os governantes meros funcionários do povo, nesse caso, o grande depositário do poder.

Uma de suas ideias principais está contida no Discurso Sobre as Origens da Desigualdade Social (1755): o homem primitivo é naturalmente bom, mas a sociedade o corrompe. Nesse processo, há as desigualdades sociais, a escravidão e a tirania. Outra obra importante é Emílio , ou Da Educação (1762), em que Rousseau exprime sua perspectiva iluminista na pedagogia.

Denis Diderot (1713-1784)

Filósofo francês, grande escritor, e considerado por muitos o pai da crítica de arte. Sua produção literária é vasta. Trabalhou em muitas reformas realizadas nas enciclopédias.

Ocupado com o problema da natureza humana, sua filosofia expressa o caráter materialista e ateu. O interesse pelo sacerdócio, medicina e jurisdição.

Sua atuação como professor tradutor e escritor de artigos o fez um pensador versátil, escrevendo em vários ramos do conhecimento. Pressentiu as teorias da evolução, a constituição celular dos seres vivos e métodos matemáticos. É com esse espírito que produziu sua obra mais famosa com D’Alembert, a Enciclopédia ou Dicionário racional das ciências, das artes. Publicada pela primeira vez na França (1751 e 1772), ela reuniu milhares de artigos e inspirou a Revolução Francesa e outros pensadores do iluminismo.

Francis Bacon (1562-1626)

Filósofo e político inglês. Atuou como advogado e durante toda a sua carreira. Perseguiu uma reforma coerente das leis e a manutenção do Parlamento britânico e dos tribunais, os quais, em sua opinião, deveriam ocupar uma posição protegida das incursões arbitrárias dos governantes. A reforma do saber foi o aspecto mais importante de sua obra.

Bacon teve como objetivo principal narrar uma imensa “história natural”, que deveria abrir o caminho a uma nova “filosofia indutiva”. Submeteu os vários saberes humanos de então a uma revisão, classificando-os de acordo com as faculdades da mente (memória, razão ou imaginação). Chamou esse esquema de “a grande instauração”.

Esta Instauratio magna final levou a O avanço do conhecimento (1605), em que a verdade só pode ser alcançada através da experiência e do raciocínio indutivo, de acordo com um novo método, o qual resultaria no Novum organum scientiarum (1620), livro que pretendia refundar a lógica criada por Aristóteles. Tal prática visa a criação de uma ferramenta desenvolvida para analisar a experiência. Da coleta exaustiva de casos especiais do fenômeno sob investigação à indução subsequente, por analogia, das características ou propriedades comuns a todos eles. De acordo com Bacon, esse procedimento serve para conduzir as proposições particulares aos enunciados mais gerais. Seu trabalho abriria o caminho para as bases da ciência moderna.

Immanuel Kant (1724-1804)

Filósofo alemão, nascido em Konigsberg. Até se doutorar, viveu seu período “pré-crítico”, pelo seu apego à metafísica racionalista de Wolff e seu interesse pela física de Newton.

Tornou-se professor na universidade de sua cidade natal em 1770, momento em que deu início às suas obras de crítica da metafísica. Fundamentou sistematicamente a filosofia crítica, tendo realizado investigações também no campo da física teórica e da filosofia moral. É autor de três críticas da razão: a Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790).

Nesse projeto vasto, Kant sistematizou sua crítica às metafísicas dogmáticas e à dúvida cética, surgindo esse conjunto de obras que lidam com os problemas do conhecimento humano, da aplicação da lei e sobre os julgamentos do belo e do fim da natureza.

Benjamin Constant (1767–1830)

Filósofo, escritor e político de nacionalidade franco-suíça. Um dos pioneiros do liberalismo, é herdeiro da escola do iluminismo escocês, encabeça por Adam Smith e David Hume.

Seu trabalho sobre religião e seus ideais sobre a liberdade individual o levaram a escrever sua obra mais conhecida, Da Liberdade dos Antigos Comparada à Liberdade dos Modernos (1819). É tido como um porta-voz do liberalismo em função do se esforço para defender a liberdade e garantir a independência privada.

Entre 1815 e 1830 foi ativo na política francesa, quando teve assento na Assembleia Nacional. Defendia uma concepção liberal de esquerda, o que significava a exigência da representação formal. O cidadão moderno, segundo ele, é um solipsista, mobilizado pelo consumo e capaz de atuar apenas pelos interesses próprios.

 

Outras visões do iluminismo

Romantismo:

Nasce como resposta à ideologia racionalista. O romantismo foi uma clara rejeição às noções de ordem e racionalidade típicas do neoclassicismo e do iluminismo do século 18. Em razão disso, o movimento romântico enfatiza o indivíduo, o subjetivo, o irracional, a imaginação, a espontaneidade, a emoção e o transcendente.

Estendeu-se por toda Europa, com maior vitalidade no Reino Unido e na Alemanha e posteriormente na França. Um dos traços principais do romantismo é o aspecto da intuição, da liberdade das formas, em oposição à rigidez das leis do neoclassicismo artístico. Os românticos procuram unir o sentimento individual à ação social, a beleza natural e as questões políticas. Wordsworth (1770-1850) escreveu boletins políticos, William Blake (1757-1827) sofreu um julgamento, acusado de sedição.

Na Alemanha, houve o Sturm and Drang [Tempestade e Ímpeto], movimento literário romântico ocorrido no período entre 1760 a 1780, encabeçado por Goethe (1749-1832) e Schiller (1759-1805). Os românticos também demonstravam uma profunda admiração pela natureza e pelo folclore.

Humanismo:

Movimento intelectual que ocorreu no século 15, na região norte da Itália, buscando a disseminação do conhecimento verdadeiramente humano e natural, em oposição ao divino e sobrenatural.

O humanista prima pela liberdade de pensamento para banir o sentido dogmático de coisas e ideias; o amor da natureza, fonte de pesquisa para o avanço da ciência; o espírito de crítica, análise e interpretação; o estudo das línguas clássicas (grego e latim); e um senso de reação contra o espiritualismo medieval.

Os principais representantes foram Francesco Petrarca (1304-1374), John Boccaccio (1313-1375), Erasmus de Rotterdam (1466-1536). O termo vem da palavra italiana “umanisti”, a qual, por sua vez, deriva do latim “studia humanitatis“, o que na época era o curso clássico onde os alunos aprendiam gramática, poesia, retórica, história e filosofia moral.

Ramificações

O iluminismo desenvolveu de modos diferentes, sobretudo em divisões regiões e áreas do conhecimento:

Iluminismo francês: conhecido como Lumières, foi responsável por grande parte das produções do pensamento moderno a respeito da razão humana, das ciências e das leis. Os grandes expoentes foram Voltaire (1694-1778), Montesquieu (1689-1755), Jean Jacques Rousseau (1712-1778) e Denis Diderot (1713-1784).

Iluminismo escocês: foi a corrente que melhor se dedicou aos estudos sobre economia, culminando em um posterior liberalismo. Muito influenciado pelo empirismo, sobretudo de John Locke (1632-1704). Entre as figuras de maior relevância estão Adam Smith (1723-1790), David Hume (1711-1776), a poeta Alison Rutherford (1712-1794), o engenheiro James Watt (1736-1819) e o arquiteto Robert Adam (1728-1792).

Iluminismo alemão: sobretudo marcado pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804), mas também Johann Gottfried von Herder (1744-1803), Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) e Moses Mendelssohn (1729-1786).

Principais obras do iluminismo

Do espírito das leis (1748) – Montesquieu

Em sua publicação mais conhecida, Montesquieu distingue três classes de governo: o despotismo, a república e a monarquia. Cada uma delas está baseada em uma natureza e em um princípio predominante.

Para ele, a divisão se dá da seguinte maneira: o despotismo (o governo de um só se dá pelo medo); a república (o governo de muitos se dá pela virtude do amor à pátria); a monarquia (governo de um só, porém limitado por leis fixas, se dá pela honra). Todas essas formas de governo têm o objetivo comum da conservação civil, voltando-se para o problema do direito da liberdade, que faz de Montesquieu um entusiasta da força da lei como força superior e impessoal.

Cândido, ou Otimismo (1759) – Voltaire

É um retrato satírico da sociedade no século xv111. Nessa obra, encontramos a relação entre Cândido, que vivia com a sua amada Cunegunda e o mestre Pangloss, em sua concepção de que todos os acontecimentos “estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”.

O percurso dos personagens visa mostrar como os acontecimentos na vida de Cândido o levam a desconfiar da doutrina panglossiana. O livro, que não foi assinado por Voltaire, mas pelo curioso Sr. Doutor Ralph, faz parte dessa chave iluminista que se opõe ao pensamento religioso, na forma ácida de suas críticas e na ampla defesa da liberdade intelectual.

Contrato social (1762) – Jean-Jacques Rousseau

Obra mais famosa de Rousseau. Responsável por pensar uma liberdade capaz de unir o problema da vontade individual (o livre-arbítrio) à vontade geral para afrodescendentes, sendo que a primeira deve emanar da segunda. Esse Estado não seria marcado pela ausência de restrições, mas pelo exercício constante de procurar impor as melhores regras.

A lei, nesse caso, existe justamente para que a liberdade ocorra. Ela não é uma pré-condição da associação civil. Segundo Rousseau, o povo submetido à lei deve ser o autor da mesma. A obra está dividida em cinco partes, percorrendo os problemas da administração, da justiça, do aparato social, da organização social e um apêndice.

Crítica da razão pura (1781) – Immanuel Kant

Em 1781, surge a Crítica da Razão Pura, uma investigação sistemática sobre a possibilidade do conhecimento humano. Nela, ganha espaço a filosofia transcendental, estruturando uma série de princípios a priori no sujeito que tornam possíveis a experiência dos sentidos.

A obra também é responsável pela clássica distinção entre os fenômenos, aquilo que aparece, e a coisa em si (o númeno), a realidade tal como existe em si mesma e que é incognoscível.

A questão fundamental na crítica kantiana é, assim, a possibilidade de juízos que são sintéticos (ou seja, que agregam informações, ao invés de analítico) e a priori (valor universal, não contingente), já que a matemática e a física conseguiram provar, mas não a metafísica, porque não se aplica às estruturas transcendentais da experiência. Assim, seria possível provar a existência e a não existência de Deus, ou a liberdade, com razões válidas.

Enciclopédia ou dicionário racional das ciências, das artes (1772) – Denis Diderot e D’Alembert

Obra que se tornou principal veículo de divulgação das ideias iluministas. Seu propósito foi o de sintetizar os principais conhecimentos acumulados pela humanidade, sob a perspectiva iluminista, a confiança na ciência e no progresso nas diversas áreas do saber.

Também se dedicou à teoria da literatura e à ética trabalhista. O teor de secularização do saber e busca pela mudança da enciclopédia fizeram com que as autoridades políticas e religiosas da época proibissem sua veiculação.

Da liberdade dos antigos comparada à liberdade dos modernos (1819) – Benjamin Constant

É tido como um porta-voz do liberalismo, através de sua obra mais conhecida, Da Liberdade dos Antigos Comparada à Liberdade dos Modernos (1819). Nela, encontramos a distinção canônica entre: 1) “liberdade dos antigos” – participação ativa e constante do poder coletivo, dividindo o poder social entre todos os cidadãos da mesma pátria; e 2) “liberdade dos modernos” – que exigem o gozo pacífico e a garantia da independência privada.

 

Quem influenciou o Iluminismo

O iluminismo surgiu pela influência de alguns autores do pensamento moderno da segunda metade do Século XVII.

Baruch Spinoza (1632-1677):

 Filósofo judeu, Spinoza nasceu na Holanda. Tornou-se um grande expoente do racionalismo. Na Ética (1674), sua grande obra, sustenta que o universo é idêntico a Deus, a única substância existente.

O Deus spinozano é uma substância única, eterna, infinita e verdadeira. Está fora do tempo e se desdobra em um número infinito de perfeições ou atributos infinitos. É considerado ainda o expoente moderno mais completo do panteísmo.

Outra obra de importância política e ética é o Tratado teológico-político (1670), em que Spinoza procura estabelecer uma divisão radical entre política e religião, onde a igreja não deve interferir na conduta do Estado.

O exercício autônomo e legítimo da organização da sociedade precisa ser capaz de refrear as paixões irracionais, mais precisamente o estado de violência e as paixões primitivas.

Spinoza defendia o progresso do estado naturalista ao estado racional. Não pertenceu a nenhuma escola e não fundou nenhuma. No entanto, seu legado foi importantíssimo, tornando-se um autor muito debatido no idealismo alemão em razão de sua noção de substância panteísta, e os problemas na ética e na religião que decorrem de sua concepção metafísica.

John Locke (1632-1704):

Filósofo, médico e cientista, Locke nasceu em Wrington, Inglaterra. Recebeu o título de “master of arts” em 1658, mesmo período em que leu os autores que o influenciaram: John Owen (1616-1683), Descartes (1596-1650), Bacon (1561- 1626) e Robert Boyle (1627-1691).

Suas obras principais são Ensaio sobre o Entendimento Humano (1690), Cartas sobre a Tolerância (1632), Dois Tratados sobre o Governo Civil (1689) e Pensamentos sobre Educação (1693). Locke é o fundador do método psicológico na filosofia moderna, ao procurar a gênese do alcance e certeza do conhecimento humano.

O método introspectivo descobre as vias da experiência externa, que provém da sensação, formando as ideias simples, e as verdades objetivas e a experiência interna, o caminho da reflexão, resultando nas ideias complexas, como verdades subjetivas. Como a certeza do conhecimento provém das experiências, é tido como um filósofo empirista. A Locke também se deve a doutrina do Estado liberal, fundado na soberania do povo.

Entre as formas de governo, esse filósofo se inclina à monarquia constitucional, dando conta de que o sujeito da soberania não é o rei, mas senão o povo. Para Locke, a moral possui um raio de ação independente da religião. O Estado e o poder eclesiástico têm objetivos diversos que devem marcar sem que um seja obstáculo para o outro.

Pierre Bayle (1647-1706):

Considerado um filósofo cético e enciclopedista nascido em Le Carla, na França. É autor de Dicionário Histórico e Crítico (1696-1697). Também foi editor do jornal Nouvelles de la République des Lettres (Notícias da República das Letras), entre 1684 e 1687.

Em 1675, Bayle tornou-se professor de filosofia na academia calvinista de Sedan, onde foi professor até 1681. Partiu para Roterdã, na Holanda, para lecionar e filosofar. Nesse mesmo ano, escreveu o seu Pensamentos diversos sobre o Cometa (publicada em 1694), que consiste em uma análise sobre a superstição popular.

Após a revogação do Édito de Nantes (1685), passou a atacar a intolerância religiosa, defendendo o “direito da consciência em erro” na sua obra Comentário Filosófico (1686). O trabalho foi condenado por todos os teólogos protestantes, como Pierre Jurieu e Elie Saurin, que viram no texto uma apologia à descrença religiosa.

O seu projeto mais importante foi o Dicionário Histórico e Crítico (1697), combinando todos os tipos de dúvidas para arruinar tanto a filosofia antiga como a moderna. Levantou desafios céticos ao cartesianismo, ao novo racionalismo de Leibniz e a toda e qualquer tentativa do gênero. Seus argumentos, especialmente nos artigos sobre o cético grego Pirro de Élis (ca. 360 a.C.- ca. 270 a.C) e sobre Zenão de Eléia (490/485 a.C. – 430 a.C.), levantaram problemas centrais à geração seguinte de filósofos.

Isaac Newton (1643-1727): 

Nasceu na Inglaterra. Filósofo, matemático, astrônomo e físico. Sua principal contribuição na história das ciências é a formulação da lei da gravitação universal. Sua obra principal, Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (1687), foi escrita em três volumes e criou um divisor de águas na história da ciência.

Newton, através do cálculo matemático, reuniu elementos distintos para formular noções sobre as leis do movimento do cartesianismo, as leis dos movimentos planetários de Johannes Kepler (1571-1630) e o estudo da queda dos corpos em Galileu Galilei (1564-1642). Contendo as principais ideias da mecânica clássica, na obra de Newton encontramos o cálculo diferencial ao estudo do movimento dos corpos, os conceitos de trajetória dos planetas e sobretudo a Teoria da Gravitação.

 

Fontes e inspirações

O iluminismo influenciou não só pensadores de diversas áreas, mas também a escolas e movimentos sociais na história:

Revoluções:

 Muitos movimentos e revoluções foram inspirados no ideal iluminista da conquista dos direitos e uma nova forma social e política: a Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789-1799), a independência dos Estados Unidos (1775-1783) e a Inconfidência Mineira (1789).

Reis e chefes de Estado: 

A ideia de emancipar a sociedade através do cultivo das letras seduziu vários chefes de Estados, que permitiram um ambiente favorável ao desenvolvimento do pensamento filosófico e científico, bem como das artes.

Algumas das figuras importantes foram: Catarina II da Rússia, influenciada por Voltaire e D’Alembert; José II, da Áustria, realizador de grandes reformas, como a abolição da escravidão, a instituição da cobrança de impostos do clero e da nobreza e a construção de obras de infraestrutura; Frederico II da Prússia, principal monarca a se aproximar dos iluministas, aboliu as torturas, fundou escolas, reformulou o sistema penal e passou a aceitar todas as crenças religiosas; por fim, Marquês de Pombal, conde português e ministro do Rei D. José, de Portugal. Ele expulsou os jesuítas das terras portuguesas (Portugal e suas colônias) e reformou a estrutura administrativa (educacional, econômica, social e do exército), desenvolvendo o comércio colonial.

Filosofia francesa e alemã:

 Nos séculos 18 e 19, enquanto no território francês o iluminismo ficou conhecido como “lumières” (luzes)“, na Alemanha, recebeu o título de “Aufklärung” (esclarecimento). Os franceses ficaram bastante marcados pelos escritos sociais e políticos, em defesa até mesmo do ateísmo, enquanto no território alemão, as críticas kantianas enfatizavam o problema do idealismo metafísico.

Aprofundamento

http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/entrevista-marilena-chaui/

http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/futuro/13-710-2004-02-08.html

http://www.larousse.fr/encyclopedie/divers/si%C3%A8cle_des_Lumi%C3%A8res/130660

http://www.universalis.fr/encyclopedie/aufklarung/

http://www.liberation.fr/livres/2013/05/29/diderot-mis-en-lumieres_906670

http://www.lemondedesreligions.fr/mensuel/2011/46/3-cles-pour-comprendre-jean-jacques-rousseau-16-02-2011-1189_173.php

http://www.philonet.fr/auteurs/Lumieres.html

http://www.contreculture.org/AG%20Voltaire.html

http://www.nytimes.com/2001/08/16/business/economic-scene-the-many-faces-of-adam-smith-rediscovering-the-wealth-of-nations.html

http://global.britannica.com/EBchecked/topic/549630/Adam-Smith

http://global.britannica.com/EBchecked/topic/502193/David-Ricardo

http://www.pucrs.br/edipucrs/online/autonomia/autonomia/2.1.1.html

http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9694

http://www.filosofia.org/aut/mmb/hfe1701.htm

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