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Kant

O que é

A filosofia kantiana é considerada uma filosofia crítica. Investiga os limites do homem: sobre o que ele pode conhecer (na metafísica), o que pode fazer (na moral e no direito) e àquilo que pode aspirar (na teologia). Kant é um dos entusiastas e expoentes da tradição do iluminismo.
Seu projeto de crítica da razão é uma tentativa de emancipação da razão humana em seus limites metafísicos, éticos e religiosos. A crítica racional é uma atividade teórica e prática.
A teoria das faculdades kantianas, da sensibilidade e do entendimento, é a divisão que resulta nas formas de conhecimento do homem. São as formas puras da consciência (intuições puras a priori) que tornam um fenômeno possível. A partir delas o entendimento pensa e estabelece relações racionais entre os fenômenos.
A solução das antinomias kantianas pela analogia é o modo como esse pensador procura vincular verdades do entendimento e verdades das ideias da razão. São as ideias transcendentais que servem de fundamento racional para a reflexão humana, capaz de articular diferentes juízos sobre as coisas. A universalidade da razão é uma triagem entre o que ela apreende e o que ela julga.
A universalidade da razão é a possibilidade da crítica de si própria e seu desenvolvimento é o exercício das faculdades da consciência. É o destino do ser humano desenvolver a razão e a busca da liberdade para o cultivo das possibilidades de uso dessa razão. A história tem o seu fim nesse progresso social, que almeja alcançar a paz e o cosmopolitismo, propiciando às pessoas o exercício pleno e contínuo de suas próprias capacidades.

Criação

A filosofia kantiana pode ser compreendida como uma sistemática da filosofia crítica. Procura solucionar os problemas do dogmatismo racional e do empirismo através do idealismo transcendental. Importa a Kant explicar como são possíveis os juízos sintéticos a priori.

A produção filosófica de Kant pode ser dividida em duas fases: 1) o momento pré-crítico, entre 1740 e 1780 – em que leciona, publica algumas pequenas obras e faz um estudo detido dos autores que o influenciaram; 2) o período da publicação das três críticas e dos demais textos que complementam este projeto, entre 1780 e 1800. Nesse momento, Kant fundamenta a noção de uma consciência transcendental, a arquitetura da razão e o problema da liberdade humana.

O racionalismo kantiano obedece uma estruturação rígida. Assim, a Crítica da Razão Pura (1781) é dividida em duas grandes partes: a Estética Transcendental, que procura dar conta do problema da percepção humana, e a Analítica Transcendental, mais extensa e dividida em muitas ramificações, para formular as noções kantianas sobre as operações racionais.

Crítica da Razão Prática (1788) é a segunda parte desse projeto, visando o problema da ética e da moral, ou sobre como a ideia de liberdade se relaciona com a ideia de dever e de direito.

Por fim, a Crítica do Juízo (1790) lida com os problemas abertos, como o problema da experiência estética e da finalidade do mundo e do homem, amarrando o problema da liberdade, questão que permeia toda a produção do pensamento kantiano. Por fim, Kant publicou uma série de textos importantes sobre a história, a religião, a política e a antropologia, mostrando as outras faces de seu projeto crítico.

Histórico

O contexto intelectual do século 18: a filosofia kantiana surge no contexto europeu, dividida entre a forte influência do racionalismo e do empirismo. É também o fim do ciclo do classicismo nas artes. Nesse contexto, emergem pensadores de diversas disciplinas na tentativa de elaborar uma sistemática sobre estética, ética, governo e lógica, permitindo obter conhecimentos objetivos sobre o universo.

Contexto da Revolução Francesa: Na fase final da produção de Kant, já colocado em marca o projeto crítico (entre 1780 e 1800), eclode a revolução francesa em 1789. Kant e outros iluministas a veem com bons olhos, em seu entusiasmo pelo liberalismo.

O idealismo alemão ou pós-kantismo: Kant demarcou uma inflexão na história da filosofia, que redefiniu o debate na área. Sua crítica culmina no chamado “idealismo alemão”, que vai desde a segunda metade do século 18 até a primeira metade do século 19.

O neokantianismo: movimento alemão que dominou o pensamento do país por meio século, por volta dos anos 1875 a 1925. Trata-se de uma nova geração de pensadores que retomam temas da crítica kantiana, da fenomenologia do idealismo alemão, e pelas inovações da hermenêutica filosófica.

Atualidade

Um novo valor para a ciência: A partir de Kant as ciências deixaram de operar pela simples observação, e passaram a se perguntar o porquê dos fenômenos aparecerem tal como eles se apresentam.

Uma nova perspectiva sobre a moral: A ideia de virtude ganhou uma autonomia face à exigência religiosa. Kant inaugura uma era em que a vontade humana passa a ser vista como uma questão de moral pública, visando o bem-estar comum, e não mais como uma questão puramente religiosa, dependente dos atos de fé.

Teoria crítica: A chamada “Escola de Frankfurt” trouxe Kant para o debate do século 20, perdurando até o dia de hoje com a perspectiva da “teoria crítica”. Isto é, o criticismo kantiano é tomado como “método”, buscando superar a distância entre o sujeito empírico e o sujeito transcendental, e pensar o devir moral da humanidade na sua relação com a razão instrumental.

Os direitos humanos: Está baseada na ideia de direito do homem como plataforma que o protege da colonização tecnocrática do capitalismo e da opressão cultural. Está muito influenciada por este valor a priori do imperativo categórico, visando o desenvolvimento pleno do Estado e, consequentemente, das capacidades humanas.

Fundamentos

O projeto crítico: Três perguntas definem o essencial do programa das três críticas kantianas:

1) “O que posso conhecer?” — diz respeito às capacidades da faculdade de conhecer humana, ou sobre a condição metafísica para o conhecimento dos objetos exteriores;

2) “o que posso fazer?” — aquilo que determina as condições morais e os direitos do homem ou como ele pode tornar suas ações boas e universais;  

3) O que posso almejar?” — definir o que norteia as aspirações humanas sobre o futuro, e, ao mesmo tempo, possui um caráter teológico.

O entusiasmo da ilustração: Na última fase do pensamento kantiano (período das três críticas) é muito forte a presença do tema da emancipação humana. Kant procura tratar sobre o desenvolvimento da razão humana, como em seu breve, mas importante texto, Resposta à Pergunta: O que é o Esclarecimento? (1784).

Sua concepção sobre a necessidade de um uso crítico da razão, em que ela própria é o tribunal de si mesma, influenciaria o pensamento europeu.

O governo de Frederico II, na Prússia, e a Revolução Francesa, que ocorreria na década seguinte, foram dois momentos que tiveram profunda ligação com ideais kantianos de liberdade, igualdade e fraternidade.

A crítica como atividade: A filosofia crítica kantiana começa pela constatação de que os progressos da metafísica são uma imposição e uma necessidade da razão. A isso Kant procura dar uma solução teórica capaz de unir dois elementos:

1) a razão dogmática, em seu poder de conhecer e interrogar acerca da possibilidade do conhecimento;

2 ) o ceticismo humeano, em sua capacidade de duvidar da possibilidade de se chegar a um conhecimento universal e necessário, uma vez que o dogmatismo tradicional se afundou em contradições intermináveis.  

A crítica, no vocabulário kantiano, é uma atividade da razão capaz de dar discernimento aos juízos que ela emite. Ela procura delimitar os limites da razão, impedindo a emissão de juízos em domínios que ela não possa atuar.

Desse modo, a operação da consciência evita entrar em contradições nas suas formas de conhecimento humano.

A teoria das faculdades e do conhecimento: Kant recusa a divisão tradicional entre as ciências físicas (que estudam a aparência) e o método dedutivo das matemáticas, capaz de engendrar verdades a partir dos conceitos.

Na filosofia kantiana, os conhecimentos da experiência, como realidade dita “sintética”, são formulados por leis que não dependem da experiência mesma, mas do sujeito que as apreende, de forma a priori. Ou seja, o conhecimento das coisas exteriores do mundo é feito pela consciência de modo sintético e a priori.

E são duas faculdades que lidam com esse conhecimento: 1) a sensibilidade — que propicia os objetos exteriores pelas intuições sensíveis — ; 2) o entendimento — que é capaz de colocar um objeto e relação aos outros.

O transcendental: Na Crítica da Razão Pura, a sensibilidade é tida como uma “estética transcendental”, em que espaço e tempo são formas puras a priori dessa sensibilidade.

Precedem a experiência, e condicionam os materiais recebidos pela intuição sensível, conferindo uma forma no espaço e uma duração no tempo.

A “lógica transcendental” é o estudos dos conceitos puros do entendimento (as categorias). Ela possibilita pensar os fenômenos propiciados pela consciência a partir de sua intuição sensível. Assim, a intuição sensível dá sentido aos objetos que são possíveis para a consciência, e a partir desse “material”, chamados de fenômenos para a consciência, o entendimento pensa os conceitos racionais.

Virada idealista: A originalidade kantiana decorre de uma inversão em relação ao dogmatismo tradicional: não é o espírito que deve ser regido pelos objetos, mas os objetos que devem ser condicionados pelas formas de conhecer da consciência humana. Isso representou uma verdadeira revolução na metafísica, que passou a ser crítica através do uso da razão.

Ao mesmo tempo, essa virada elevou a metafísica à posição de ciência sobre os fenômenos. A alma, Deus e o mundo deixam de ser objetos do conhecimento justamente porque não são objetos para o conhecimento.

A ciência da metafísica lida então com fenômenos, restando o problema de lidar com aquilo que só pode existir como uma Ideia da razão.

O problema das antinomias kantianas: Aquilo que não pode ser conhecido precisa ser pensado através das ideias da razão, as quais permitem ao pensamento representar o que é incondicionado, como as ideias de Deus e da alma.

Elas dão unidade ao saber. Assim, diante de uma antinomia do entendimento (por exemplo, uma afirmação afirmativa e uma afirmação negativa sobre algo), as ideias são as responsáveis por fazer a união entre ambos os juízos, como uma analogia, através da expressão do “como se”. Por exemplo: se uma afirmação diz que Deus é causa do mundo e uma segunda afirmação diz que Deus não é causa do mundo, a solução racional deve se fundamentar na ideia como uma reflexão da consciência.

A razão prática: As ações capazes de ter um valor moral verdadeiro são aquelas que decorrem de uma vontade de fazer uma ação boa. A razão deve orientar as ações para o dever.

O importante, para Kant, é que a lei exista como um consentimento no coração do ser humano. Portanto, uma ação só é legítima se a sua vontade também o for. Não se trata de agir de acordo com o dever, mas agir pelo dever. E o dever se apresenta como um imperativo categórico incondicional, em que a ação moral tenha de aparecer como algo necessário, de valor incondicional.

Por isso, é diferente do imperativo hipotético, que visa um fim (agir conforme um fim, ou seja, a algo que condiciona a vontade humana).

O imperativo categórico, enfim, é expresso como lei moral, em que é preciso agir segundo uma máxima que possa ser tida como lei universal. Agir pelo dever é ter a intenção desinteressada de fazer o bem, pelo único motivo do respeito à lei moral.

Na prática

A filosofia kantiana é essencialmente teórica e racionalista. No entanto, a concepção de liberdade kantiana propicia duas motivações práticas:

1) A ideia do Estado de direito – Fortalecida pela experiência do Estado do Bem Estar Social europeu. Perdura e atua pela ideia da instituição legisladora dos direitos e da conduta ética do homem. Essa ideia, bastante presente, costuma ter uma referência à filosofia prática de Kant.

2) A pedagogia da Aufklärung – a ideia do esclarecimento e do uso da liberdade é uma concepção que influencia a ideia de cidadania como uso das capacidades cognitivas e morais do homem. Nas escolas e nos debates pedagógicos é comum encontrarmos essa posição “iluminista” kantiana.

Principais nomes

Immanuel Kant (1724-1804): Filósofo alemão, nascido em Konigsberg, na Prússia Oriental. Seu pai era seleiro e sua mãe luterana pietista. Teve uma educação rigorosa, que se mostrou presente desde o início de seus estudos da filosofia, quando aliou o pietismo religioso ao pensamento de Leibniz (1646-1716).

A partir de 1746, com a morte do pai, começa a trabalhar como preceptor nas casas de famílias nobres da Prússia Oriental.

É entre 1740 e 1780 que podemos chamar de um período pré-crítico, em que Kant leciona diversas disciplinas – matemática, física, geografia, antropologia, pedagogia — e chega a publicar uma série de pequenas obras.

Nesse estágio, até 1760, Kant segue os passos do racionalismo dogmático. É influenciado pela física newtoniana e as metafísicas de Leibniz e Wolff. No período de 1760-1769, o chamado “empirismo” das filosofias de John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776), as leituras sobre a questão do sentimento em Shafstbury (1671-1713) e a problemática do direito do Contrato Social de Rousseau (1712-1778) o levaram à sua célebre Dissertação de 1770, que trata sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível. É nela que Kant esboça pela primeira vez as formas a priori da sensibilidade, o espaço e o tempo, demarcando o ponto de partida do idealismo na história da filosofia.

Todas essas atividades e escritos serviram como grande suporte e preparação para a publicação das três críticas kantianas, antecedendo o período final do projeto crítico e da filosofia de Kant, entre 1780 e 1800.

O criticismo kantiano é um marco de viragem não só de sua filosofia, mas da própria história do pensamento ocidental. A fundamentação sistemática de sua filosofia está presente nas suas três críticas da razão: a Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790). É nelas que encontramos as noções que edificam o seu idealismo transcendental.

Na Estética Transcendental da Crítica da Razão Pura (1781), Kant distingue a noção de fenômeno da noção de coisa em si (o númeno), delimitando dois grandes domínios sobre o alcance do conhecimento humano: a sensibilidade, aquilo que o sujeito pode apreender pelo espaço e tempo na consciência e aquilo que é incognoscível. É a partir dessa divisão que muitas outras noções importantes decorrem.

A pergunta fundamental é pela possibilidade de estabelecer juízos sintéticos a priori, ou seja, que propiciem informações sobre os materiais sensíveis e ao mesmo tempo tenham um valor universal. Esses juízos, que já mostraram sua utilidade para a matemática e para a física, precisam mostrar seu valor também para a metafísica, em suas estruturas transcendentais.

O sistema desenvolvido por Kant contempla uma segunda grande parte da Crítica da Razão Pura, a Analítica Transcendental. Em uma série de capítulos, Kant edifica, passo-a-passo, a arquitetura da razão, dividindo-a em conceitos, ideias e juízos.  

O sistema desenvolvido por Kant culmina no uso prático da razão, ou em uma filosofia prática. Ele estabelece a necessidade de um princípio moral a priori, chamado de imperativo categórico. É através desse princípio que o homem atua como se fosse livre, ainda que não seja possível demonstrar teoricamente a existência dessa liberdade.

Por fim, Kant coroou seu projeto com a Crítica do Juízo (1790), ao estudar o gozo estético e a finalidade na natureza. A finalidade imposta pelo homem nos objetos resulta no juízo estético e no livre jogo das faculdades humanas, com destaque para a imaginação, enquanto esta finalidade, vista na natureza, resulta de um juízo teleológico.

Em comum, ambos os juízos, estético e teleológico, remetem ao exercício da liberdade do homem, tanto no uso de suas faculdades, como na compreensão que o homem tem do que é a liberdade e do fundamento da liberdade.

Outras visões

Racionalismo: a filosofia kantiana tem muitas afinidades com o racionalismo de Descartes, Spinoza e Leibniz: o enciclopedismo, a estruturação hierárquica entre as noções, o método matemático e a apresentação sistemática.

Hegelianismo: a filosofia hegeliana e sua dialética trouxe uma nova concepção de experiência, opondo-se diretamente à concepção da consciência transcendental. Na filosofia de Hegel, é o próprio percurso da experiência da consciência que expressa a razão do espírito, sem uma estrutura transcendental.

Marxismo: a crítica à filosofia alemã em geral volta-se sobretudo à matriz kantiana, considerada uma filosofia que, ainda que procure ser crítica, está presa ao problema da representação, e é incapaz de lidar com uma transformação efetiva e real.

Vitalismo: tradição filosófica que se pauta pelos aspectos não racionais, até mesmo biológicos, como as noções de vontade, instinto, impulso ou ânimo. Opõe-se diretamente ao racionalismo kantiano e à sua pretensão de domínio da vontade pela razão.

Ramificações

A filosofia kantiana está presente em muitos autores, mas pode ser dividida em duas matrizes diretas:

O kantismo do Idealismo Alemão: A influência direta de Kant se dá no desdobramento de sua filosofia, ao culminar no idealismo alemão. É compreendido por uma gama de autores alemães, sobretudo entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20. Figuram nomes importantes como: Moses Mendelssohn (1729-1786), Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), Friedrich Heinrich Jacobi (1743-1819), Johann Gottfried Von Herder (1744-1803), Karl Leonhard Reinhold (1757-1823), Gottlob Ernst Schulze (1761-1833), Johann Gottfried von Herder (1744-1803), Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854), Georg Wilhelm Hegel (1743-1819) e Arthur Schopenhauer (1788-1860).

O neokantismo: Corrente que ocupa a cena da filosofia universitária a partir dos anos 1870, voltados para os temas da racionalização da religião e o problema da epistemologia. Os principais representantes foram Hermann Cohen (1842-1918), Paul Gerhard Natorp (1854-1924) e Ernst Cassirer (1874-1945).

Principais obras

Crítica da Razão Pura (1781)

Em 1781, surge a Crítica da Razão Pura, uma investigação sistemática sobre a possibilidade do conhecimento humano. Nela surge a filosofia transcendental, estruturando uma série de princípios a priori no sujeito que tornam possíveis a experiência dos sentidos.

Encontramos a clássica distinção entre os fenômenos, aquilo que aparece, e a coisa em si (o númeno), aquilo que é incognoscível. A questão fundamental é, assim, a possibilidade de juízos que são sintéticos, ou seja, que agregam informações, serem também a priori (ter um valor universal, não contingente).

Em razão dessa estrutura transcendental, seria possível, segundo Kant, lidar com o problema da existência ou não de Deus, da alma e do mundo, e também da liberdade.

Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita (1784) 

Neste breve texto a abordagem histórica é feita a partir da ótica de um “cidadão do mundo”. Kant faz a distinção entre a comunidade civil de um determinado local e a comunidade civil mundial.

Para ele, a primeira integra a segunda. Assim, é possível distinguir a história natural, que seria local, da história humana, mais vinculada à comunidade civil mundial. 

Há um movimento da história humana, que caminha rumo ao progresso e ao aperfeiçoamento moral, inevitável e necessário, através do fio condutor da razão, ou seja, que a história natural é a história natural do progresso da razão.

O Que é o Esclarecimento (1784)

Em um breve escrito, Kant observa que a condição moral não é algo dado, mas uma condição. Seu sentido não pode ser restringido a um saber, pois é a combinação do conhecimento profundo sobre um assunto específico com a autonomia crítica do sujeito do conhecimento. No processo social de formação, todo indivíduo vive uma situação de minoridade natural.

O exercício ativo da razão é a condição para que o homem conquiste a sua autonomia, já que cada um possui a capacidade de pensar, superando o medo, a preguiça ou o interesse particular para alcançar essa nova condição.

Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785)

Nessa importante obra, Kant pretende estabelecer as condições de possibilidade de uma lei moral universal.

A ação do homem para se tornar emancipada, deve manifestar a sua autonomia a partir da razão pura prática que identifica as condições a priori de sua vontade. Assim, a divisão da obra é feita da seguinte maneira:

Um Prólogo, que justifica o projeto, a sua estrutura e o seu método;

A Primeira Seção, que serve de transição do conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico;

A Segunda Seção, onde ele articula a passagem de uma filosofia moral popular para a metafísica dos costumes;

E a Terceira Seção, que almeja dar conta da metafísica dos costumes para a crítica da razão prática pura.

Crítica da Razão Prática (1788)

É a segunda das três obras chamadas “críticas”. Trata sobre a sua filosofia moral, como consequência da sua primeira crítica. 

Nela, Kant busca uma ética que contenha princípios com o caráter de universalidade da ciência. Tida como uma ética formal, ela distingue a sua concepção da eticidade daquelas que lhe precederam, intituladas éticas empíricas.

É a formulação racional que engendra os imperativos, que são os pilares que fundamentam a ética formal kantiana. É por isso que ela deve ser universal, ou seja, vazia de conteúdo empírico.

Para Kant, a ética deve ser a priori, autônoma, pela interioridade do indivíduo, e categórica. Essa obra está dividida em duas grandes partes:

1) a Doutrina dos Elementos, dividida, por sua vez;

1.1) Analítica da razão pura prática;

1.2) Dialética da Razão pura prática. Parte II: Doutrina do Método.

Crítica do Juízo (1790)

É conhecida como a terceira crítica, formando uma trilogia com a Crítica da Razão Pura (1781) e a Crítica da Razão Prática (1788). 

É nela que Kant desenvolve as ideias acerca do juízo estético, sobre o belo e sobre o sublime. Nessa primeira parte da obra, sua concepção reflexiva sobre o sentimento estético procura lidar com o problema da finalidade no ser humano e em suas produções, como na experiência estética.

Essa concepção influenciou, sobretudo, o romantismo alemão. A segunda parte destina-se ao juízo teleológico, para estudar o problema da finalidade na natureza. É nela que Kant procura tratar o problema da finalidade no organismo, também através de uma chave reflexiva.

Além disso, nela encontramos a questão da finalidade da história e do ser humano — ou das pessoas na história, e os parágrafos finais, em que Kant, apesar de todo o seu esforço, parece evocar novamente a necessidade de se pensar Deus como um fundamento para a reflexão humana.

Fontes e inspirações

Platão (427 a.C. – 347 a.C.): Importante filósofo ateniense, considerado um dos principais pensadores da Grécia antiga. Sua ideia de distinguir a realidade em dois domínios distintos, o do mundo sensível (no qual vivemos) e do mundo das ideias (eidos, em grego), certamente influenciou a maneira kantiana de conceber o real em uma forma binária.

Kant, no entanto, modificou essa relação, ao dividir o mundo em coisa-em-si (aquilo que não pode ser percebido e pensado) e fenômenos (o que pode ser objeto de conhecimento para o homem). A divisão entre o mundo inteligível e o mundo sensível vincula o papel importante das ideias de Platão, como aquilo que permanece como o imutável.

As Ideias puras kantianas, em comparação, operam como um substrato suprassensível que fundamenta a reflexão humana. Mas enquanto as ideias platônicas são transcedentes (deslocadas do mundo sensível), as ideias kantianas são transcendentais (isto é, também mantém uma relação com o mundo da percepção).

No entanto, é preciso destacar que o registro de ambos os filósofos são muitos distintos, e cada noção ocupa um lugar e tem uma definição peculiar em cada pensador. Um exercício interessante é a leitura da A República (Século IV a.C.) de Platão e a Crítica da Razão Pura (1781) de Kant, procurando aspectos idênticos e distinções entre os dois textos.

Christian Wolff (1679-1754): Filósofo alemão que teve destacada influência nos pressupostos racionalistas de Kant. É considerado o criador da linguagem filosófica alemã, e, sobretudo, um divulgador e intérprete importante da filosofia de Leibniz, como em Pensamentos Racionais sobre Deus, o Mundo e as Almas dos Homens e de Todas as Coisas em Geral (1719), Distancia-se da ideia das mônadas leibnizianas para adotar uma correspondência entre a ordem do pensamento e a ordem da realidade.

O método filosófico matemático, à maneira de Descartes e Leibniz, fez de Wolff um pensador inscrito no dogmatismo racional e sistemático, pretendendo fundir todo o real ao racional, abrindo a perspectiva do idealismo e do movimento da ilustração.

Em sua juventude, Kant aceitou as teses racionalistas de Wolff. No Prefácio da Segunda Edição da Crítica da Razão Pura (1781), Kant afirmou que Wolff foi “o maior de todos os filósofos dogmáticos”, pelo uso adequado dos princípios, a clareza de determinação dos conceitos, o rigor das provas e o cuidado nas inferências. Até a velhice, Kant permaneceu afeito a algumas das teses wolffianas.

David Hume (1711-1776): Filósofo escocês, nascido em Edimburgo. Atuou como advogado em sua juventude, até que passou a se dedicar às investigações filosóficas e ao saber em geral. A importância de Hume para Kant foi a de rechaçar as pretensões da filosofia dogmática do racionalismo.

Em uma frase célebre, Kant afirma que Hume o despertou do “sono dogmático”. A crítica kantiana procura lidar com as questões envolvidas na noção de experiência na filosofia humeana.

É a experiência que é a fonte e o limite do conhecimento humano, sendo constituída de um conjunto de impressões, cuja causa é desconhecida, e não se identifica com o mundo e com as coisas. Na Investigação Sobre o Entendimento Humano (1748).

Hume distingue dois tipos de conteúdos da consciência: as impressões e as ideias, diferenciadas pela intensidade com que imprimem as imagens na representação das coisas exteriores à consciência: enquanto as impressões são percepções diretas, a fonte original, as ideias são a cópia dessas primeiras impressões. A realidade objetiva decorre da percepção.

A verdade das proposições se dá quando ela tem uma correspondência verdadeira com as impressões mais intensas. É então pelo hábito que o homem desenvolve algum conhecimento sobre a relação entre as causas e seus efeitos.

Assim, o legado humeano a Kant consiste na importante crítica ao dogmatismo que procura a fonte do conhecimento na razão. Se o universal e a necessidade passam a ser buscados na experiência, é porque ela, a experiência, só pode obter enunciados particulares e contingentes.

Isaac Newton (1743-1819): Físico e matemático inglês, nascido em Woolsthorpe, na Inglaterra. Considerado o pai da física clássica, exerceu grande influência no pensamento científico ocidental.

Duas de suas obras são consideradas um marco no paradigma científico: Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios matemáticos de filosofia natural), de 1687, e Opticks (Óptica), de 1707. Seus trabalhos introduzem um método: as leis são obtidas dos fenômenos mediante a indução e o experimento sistemático.

É assim que a mecânica newtoniana faz nascer a física moderna para pensar a relação entre causa e efeito, somada à definição do espaço e do tempo como conceitos absolutos, que não se deduzem e não são definidos por nenhum processo físico. Sua teoria influenciou Kant a unir a necessidade de um conhecimento sintético a priori.

O filósofo alemão acreditava que era possível unir as descobertas de Newton sobre o conhecimento do mundo físico.

A visão mecanicista do mundo natural newtoniano participa do sistema kantiano, na medida em que ela é alojada no interior da reflexão das ideias e da reflexão. Tal determinação está presente, por exemplo, no juízo teleológico da Crítica do Juízo (1790), no qual Kant distingue a ideia de mecanismo da compreensão analógica da natureza: é preciso pensar a natureza como se ela fosse regida por uma causa mecânica.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): Filósofo suíço nascido em Genebra. Assim como todo o idealismo, as ideias políticas sobre o uso da liberdade e da razão exerceram influência sobre Kant.

A leitura detida de Emilio (1762) reflete, por exemplo, a influência dos três artigos de fé de Rousseau, que são traduzidos por Kant como postulados da razão prática: a existência de Deus, a imortalidade da alma e a existência da liberdade.

Em Kant, elas se transformam na base da ética, sem as quais não seria possível dizer que poderia existir uma moral universal. Também a ideia da vontade geral, central no Contrato Social (1762) de Rousseau, foi utilizada por Kant quando este tratou do problema das intenções das ações morais.

O problema da relação entre liberdade individual e legislação do Estado parecem unir Kant e Rousseau na noção de que o indivíduo procura uma síntese possível entre ele e o bem comum, aspirando a um tipo de universalidade.

O valor da moral como universalidade, vinculada ao mundo do espírito e da liberdade necessária no homem, é o que torna possível ao homem participar do mundo moral.

Kant é um autor muito debatido. De todo modo, encontramos pensadores que o admiraram. Entre esse os que mais se destacaram são:

Arthur Schopehauer (1788-1860): Filósofo alemão, conhecido pela sua filosofia da vontade. É um herceiro direto da filosofia kantiana. Sua principal obra: O Mundo como Vontade e Representação (1944 – 2ª edição).

Ludwig Wittgenstein (1889-1951): Filósofo austríaco e expoente do Círculo de Viena, na virada do século 19 para o século 20. Suas obras tratam do problema radical da linguagem e da impossibilidade da filosofia.

Foi leitor atento da filosofia crítica de Kant. Suas duas obras mais conhecidas são: Tractatus Logico-Philosophicus (1922) e Investigações Filosóficas (1953 – publicação póstuma).

Hannah Arendt (1906-1975): Filósofa alemã que se estabeleceu nos Estados Unidos. Debatedora do tema da democracia, muita influenciada pelo existencialismo, mas também por Kant.

Pensou o problema da representação política e da diversidade da cultura. SUAS obras de mais destaque são: As Origens do Totalismo (1951) e A Condição Humana (1958)

Émile Durkheim (1858-1917): Um dos pais da sociologia e fundador da escola francesa. Foi muito influenciado pelo racionalismo e a filosofia prática de Kant. Duas obras suas são destacáveis: Da Divisão do Trabalho Social (1893) e Regras do Método Sociológico (1895).

Max Weber (1864-1920): Intelectual alemão, Weber foi jurista e economista, mas se tornou um dos mais famosos sociólogos da história ocidental. Destacou-se no estudo dos processos de racionalização da vida moderna. Foi amplamente influenciado pela filosofia prática kantiana. Sua obra maior é Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905), considerado um clássico da sociologia.

Paul Ricœur (1913-2005): Esse filósofo francês atuou nos campos da hermenêutica, da fenomenologia e do existencialismo. Foi leitor e herdeiro de Kant para pensar os problemas da vontade e da inovação semântica. Suas obras mais importantes são: A Metáfora Viva (1975) e Tempo e Narrativa – em tês tomos (1983-1985).

Jean Piaget (1896-1980): Psicólogo e epistemólogo suíço com grande atuação na área de educação. Desenvolveu importantes escritos sobre o aprendizado infantil e o raciocínio lógico. De sua bibliografia podemos destacar Biologia e Conhecimento (1967), obra de sua maturidade.

Michel Foucault (1926-1984): Importante filósofo francês. Para Foucault, Kant foi o pano de fundo de sua concepção do “duplo empírico transcendental”. Uma de suas obras que é profundamente marcada por essa influência é A Palavra e as Coisas (1966).

Willard Van Orman Quine (1908-2000): Influente filósofo e lógico norte-americano. Leitor assíduo de Kant, Quine partiu da distinção entre juízos analíticos e sintéticos kantianas para pensá-las de um novo modo, que chamou de holismo epistêmico. Dentre seus escritos, destaca-se Palavra e Objeto (1964) e Filosofia da Lógica (1970)

Fontes de pesquisa

http://www.universalis.fr/encyclopedie/emmanuel-kant/

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