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Saúde Mental

Criança precisa fantasiar

Psicanalista Maria Leopoldina Leal fala sobre a maternidade "suficientemente boa": menos preocupação, mais apoio
Portal Namu
27/09/19

Desde a Antiguidade o ser humano pensa em deuses, anjos, santos e criaturas mitológicas. Antes disto, há 20 mil anos, na Europa, o homem das cavernas desenhava animais com valor de totens e pintava simbolizações mágicas de caça. A habilidade em acreditar é traço característico do ser humano e se fortalece no exercício da imaginação.

Por sua vez, ser capaz de acreditar leva o indivíduo a ser mais forte e bem estruturado emocionalmente. Todo este conceito foi trabalhado pelo inglês Donald W. Winnicott (1896-1971), pediatra que chamou de “mundo transicional” essa capacidade imaginativa do homem.

Mãe não precisa ser perfeita

Winnicott era pediatra, mas teve forte atuação como psicanalista. Ele reconhecia a carga genética, no entanto também identificava a importância do ambiente na formação de seus pacientes. De modo simples e com clareza, via o conjunto, e concluiu que o afeto materno e a segurança que ele traz são suportes muito importantes, tornando-se ponte para alçar novos caminhos.

Inicia-se nesse ponto o diferencial deste estudioso de sensibilidade ímpar. Para ele, a mãe que mais vai beneficiar o filho é aquela atenta às necessidades básicas, que preserva a infância e apresenta os problemas do mundo real aos poucos, conforme o pequeno tenha estrutura. Nem por isso o pediatra colocou sobre os ombros das mães uma carga pesada, porque também afirmava que essa mãe não é uma criatura perfeita, mas uma pessoa normal, com altos e baixos emocionais.

Sabedoria natural

Winnicott deixou claro que a mãe perfeita não existe. Existe a mãe suficientemente boa (good-enough mothering, em inglês), que mantém sua individualidade e, por vezes, erra tentando acertar. “A mãe suficientemente boa é um colo protetor e facilitador para que o filho enfrente o mundo”, interpreta a psicóloga Maria Leopoldina de Siqueira Leal. Graduada em psicologia clínica, fez mestrado e doutorado pautados na obra de Winnicott.

Um dos aspectos que definem a “mãe suficientemente boa”, explica a psicanalista, é a sabedoria para apresentar o mundo em doses “homeopáticas”, evitando que os choques de realidade sejam antecipados. Isso quer dizer que ela vai procurar apresentar o mundo, e o outro, no momento em que o pequeno tiver estrutura emocional para isso.

Novo papel

A mãe com esse perfil orienta, facilita e encaminha sem interferir demais. É coerente em relação ao que se pode mostrar para cada idade, aceita o fantasiar e permite o crescer. Maria Leopoldina Leal conta que a música preferida do pediatra era Let it be, dos Beatles, traduzido por “deixe estar”. A canção sugere que se deixe o tempo passar porque as coisas se acertam.

Menos preocupação, mais orientação e apoio, atender as necessidades básicas e reais dos filhos, é isso o que deve fazer a mãe suficientemente boa. Sem abrir mão de sua individualidade, diga-se.

Mãe exigente

“Winnicott retirou das mães muito do peso que havia em seus ombros, ele alivia a culpa e abre caminho para que se seja naturalmente boa. Se ela estiver saudável, ela vai cumprir esse papel que a natureza lhe permitiu, de ser mãe”, diz Leal, cuja tese de doutorado trata do tema, sob o título Preocupação materna primária, um conceito winnicottiano.

Winnicott retirou das mães muito do peso que havia em seus ombros.

“A mãe suficientemente boa não é rígida, é exigente. Respeita e atende às necessidades do bebê, permite à criança fantasiar, tem laço forte com o filho e aceita seu desenvolvimento, até que ele se desconecte para tornar-se adulto. E depois, voltar para perto, porque o laço jamais será desfeito”, afirma a psicanalista.

Da imaginação ao desenvolvimento

Enquanto protegida do mundo real, a criança pode – e deve –desenvolver seu pensamento mágico e fantasiar o mundo ideal, exercícios que, para ela, são espontâneos e naturais. Quanto mais puder trabalhar sua dose de sonho e crença, mais forte e completo será quando adulto. Quanto mais a criatividade puder fluir, mais hábil e confiante estará para resolver conflitos.

Lembrando: a mãe suficientemente boa permite que o pequeno fantasie um mundo ideal que o fortalece emocionalmente, o alimenta de crenças e o leva a tornar-se um indivíduo apto a se desenvolver. Quando adulto, essas crenças se manifestam de diversas formas: ideologias, filosofias, religião, esperança, expectativa e perspectivas, inovações, otimismo, valores, princípios. São combustíveis para buscas e superações.

Capacidade de crer

Com esse conceitual teórico consistente, Winnicott define que a característica maior do ser humano, que até o diferencia dos outros seres vivos, é a capacidade de crer. “Essa capacidade é a criatividade, ou riqueza imaginativa, inerente à natureza humana”, afirma a psicanalista. “Ele jamais personificou o ‘acreditar’, no entanto, retirava as amarras que impediam a crença em algo além da psique”, diz Leopoldina. Winnicott não fala em alma, mas fala muito em natureza humana.

O grande ensinamento que Winnicott nos deixa é que todo ser humano tem capacidade e criatividade para se desenvolver permanentemente.

A força que leva uma pessoa a se reinventar, criar um universo de perspectivas e ideias, reiniciar, enfim. Sempre há tempo de se fazer um novo curso, realizar um antigo desejo, superar dores: essa ‘crença’ de que tudo pode melhorar mantém um indivíduo de pé, e acaba resultando em atitude proativa. “O grande ensinamento que Winnicott nos deixa é que todo ser humano tem capacidade e criatividade para se desenvolver permanentemente”, afirma a psicanalista. O pediatra morreu aos 75 anos, superando a expectativa de vida da época (1971), e ainda atendia em seu consultório. Leal incita à reflexão, referindo-se a uma frase de Winnicott: “Oh, deus, fazei com que eu esteja ainda vivo ao morrer”.

Quem foi Winnicott

O britânico Donald W. Winnicott formou-se médico na Universidade de Cambridge e vivenciou as guerras mundiais (1896-1971). Ele apreciava as ideias de Sigmund Freud, relevantes durante seus atendimentos como pediatra. Não foi escritor como Freud, não era místico como Carl Gustav Jung, seus conceitos não foram tão divulgados mas, conforme é estudado, mais e mais ganha reconhecimento.

Pediatra de formação e estudioso das teorias de Sigmund Freud, Donald Winnicott observou em seu consultório como as relações interpessoais interferem na formação de uma personalidade. Estabelecidos a partir da observação, seus conceitos são simples, objetivos e flexíveis.

Diferenças teóricas

Enquanto Freud se pautou em uma teoria que resume o desenvolvimento psíquico à maturidade sexual, Winnicott construiu um corpo teórico consistente expandindo as possibilidades conforme observava em consultório a elaborada rede formadora de uma personalidade. Freud buscava adequar o paciente à teoria, Winnicott usava as teorias para entender a psique. Seus conceitos podem ser subdivididos em temas mas todos são absolutamente interligados.

Pioneiro em consultas terapêuticas (em que além do paciente entravam mãe, avó, irmãos), durante o atendimento percebia se um irmão subjugava outro, se a mãe era amorosa ou rígida, entre outros aspectos da relação vivida por seu paciente. Ele reconhecia a carga genética mas também a importância do ambiente. Ante a rigidez, preferia o afeto, este sim curativo e positivo para a formação. Morreu aos 75 anos, ainda atendendo em consultório.

Foto: Thinkstock


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