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Saúde

Sexo é simples

Liane Zink dá algumas dicas aos pais sobre como lidar com a descoberta dos filhos quando o assunto é sexualidade
Bruno Torres
27/09/19

O primeiro passo para se libertar das barreiras sexuais é olhar sem repressão moral para a questão, segundo a psicoterapeuta Liane Zink. Pioneira na introdução da psicoterapia corporal no Brasil, a diretora do Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo (IABSP) afirma que as barreiras são ainda maiores quando se trata de expressar sentimentos. Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, Zink reflete sobre sexualidade seguindo os preceitos da bioenergética e dá algumas dicas para se livrar dos entraves morais e sobre como lidar com a descoberta sexual das crianças.

Portal NAMU: Como é o sexo hoje?
Liane Zink: Existem casais jovens que têm muito amor, muita cumplicidade, mas que não vivem intensamente a sexualidade. Há muita gente buscando diversas formas de ter prazer. Estamos no limbo da compreensão do que é essa sexualidade que os jovens estão procurando.

Tenho cliente jovem que chega aqui e diz que beijou quinze meninas. Você pergunta “fez sexo com alguma?” e ele responde que não. A satisfação do beijo, uma coisa que tinha se perdido, hoje em dia está mais incluída na sexualidade. Mas ficou satisfatório, até pelo medo da aids e de todas as castrações dessa nova era.

Ao mesmo tempo, tem gente vivendo coisas que você fala: “Uau”. Eu acho que tem um movimento de muita gente vivendo a sexualidade separada do amor. A sexualidade é de um lado e o amor é do outro, se você mistura as duas coisas a sexualidade se perde. Perde-se nos seus prazeres mais instituais e mais primitivos. Na verdade, todo mundo quer juntar, mas na hora que você está em pleno ato sexual e o outro diz eu te amo acaba o suor, a batida do coração, a expressão da energia que está circulando no seu corpo e que tem de estar.

No livro Todos os reis estão nus, o escritor brasileiro Contardo Calligaris afirma que o “amor mata o sexo” e eu concordo com ele. Eu acho que o amor é depois ou é antes, mas tem uma coisa a ser vivida em termos desse instinto que as pessoas estão deixando de lado. Fica uma confusão de “você é meu, não é meu, eu te possuo, você me ama, não me ama” e começa uma complicação que tira a simplicidade e o mais instintivo da sexualidade.

Sexo é simples. A complicação vem da idealização, por exemplo, “quando eu tenho orgasmo, o outro tem de ter exatamente na mesma hora que eu”. Como? Se são dois corpos completamente separados, com ritmos diferenciados. Se os casais entendessem que eles têm ritmos diferentes, mas estão nesse momento juntos para viver o primitivo, o instintual, o sexo seria bem mais simples.

Na hora que você está em pleno ato sexual e o outro diz eu te amo, acaba o suor, a batida do coração, a expressão da energia que está circulando no seu corpo e que tem de estar

A liberdade sexual é mais aparente que real?
Não dá para generalizar. Eu acho que existem correntes, comportamentos. Tem gente que está muito solta, que participa de coisas na internet que a gente nem acredita. Tem gente que está muito aprisionada, há casais jovens que me dão pena porque não têm sexualidade.

Como você vê a influência da mídia na sexualidade?
Eu não sou contra a mídia, é claro que ela é exuberante, mas eu não posso olhar para ela com uma cabeça de 1950. Por exemplo, ela excita a criança? Não, a criança é excitada desde pequena e são os pais que vão medir o quanto a mídia interfere nesse processo.

Eu acho que a mídia dita comportamentos. A grande educadora do mundo moderno atual, infelizmente ou felizmente, é a televisão. Você pergunta numa escola “tem educação sexual?”, não tem. Você pergunta para os pais “vocês falam com o seu filho pequeno de 4 anos que se masturba o tempo inteiro na frente de todo mundo se ele pode fazer isso ou não?” e eles respondem “ai não, eu tenho vergonha de falar com ele, eu falo só para ele se comportar”, ou seja, reprime, mas não educa a criança. A televisão é aquela que dita, é uma loucura. A mídia educa. Ela é exagerada, mas é ela que está ditando.

Para os pais, qual é a melhor maneira para lidar com a descoberta sexual dos seus filhos?
A sexualidade na criança não vem vestida de repressão. Ela é uma descoberta do corpo, é o que a bioenergética fala, como se fosse descobrir a orelha, o nariz, a boca, a criança descobre a vagina e o pênis. Em vez de falar “tira a mão daí menino”, eu posso falar “olha, é muito gostoso pôr a mão aí, mas faça isso em seu quarto. Na frente da mamãe até pode ser, mas não pode ser na frente da visita”. Quero dizer, direcione. Tem de haver limite; repressão, não. Não é igual a falar isso é feio, é horroroso, você é malvado, menina má.

O importante é não colocar essa conotação moral. É uma descoberta. Caso o comportamento perdure, melhor ir ver, se não passa, do mesmo jeito que passou quando a criança enfiou a mão na boca. É como se o pai e a mãe ficassem numa ansiedade tão grande quando a questão é sexualidade que eles não deixam a criança se autorregular.

A educação das meninas ainda é muito repressora?
Ainda é, infelizmente. A questão do feminino não está resolvida. A menina ainda é mais reprimida, ainda fica com maior dificuldade na expressão da própria sexualidade, mesmo porque o primeiro ato sexual da menina nem sempre é agradável, ela tem dor.

Embora eu também ache que na minha época, da Betty Friedan e do abaixo os sutiãs, a gente quis muito sair dessa repressão sexual e dessa diferença com os meninos. Mas, na hora que a gente começa a entender que somos diferentes mesmo, que somos receptivas e temos um órgão que recebe, sabe que isso dá um alívio? E você não fica querendo ser igual, eu preciso ser igual a mim mesmo ou igual a minha tribo.

A psicoterapeuta Liane Zink
Para Liane Zink, a sexualidade poderia ser mais bem resolvida se não fosse a idealização

Existem maneiras de libertar-se da repressão sexual?
Primeiro, olhar sem repressão moral. Eu acho que a bioenergética é fantástica por ver como cada corpo funciona e o que ele pode dar, sem a idealização de um orgasmo que parece inatingível para todos. É preciso tirar o tabu da sexualidade. Na Europa, noto que há um movimento bissexual fortíssimo. Isso me dá um alívio, saber que as pessoas vão poder viver aquilo que elas querem, o que o corpo de cada um precisa e não o que o social mandou você ser.

Não tem aquele casal que o homem é a mulher e a mulher é o homem e ele ficou ‘grávido’? Não é uma aberração, é uma escolha da sexualidade deles, de como eles vivem. Cada um tem o direito de liberdade sexual levando em conta como o seu corpo funciona e não um modelo no qual eu tenha que entrar.

Cada um tem o direito de liberdade sexual levando em conta como o seu corpo funciona e não um modelo no qual eu tenha que entrar

As pessoas estão travadas também no campo afetivo?
Um filósofo francês de quem gosto muito é Gilles Lipovetsky. Ele trabalha a hipervelocidade do mundo atual. Sinto isso nos meus pacientes também. Às vezes, as pessoas nem são travadas, mas elas não têm tempo para viver a sexualidade.

Agora, se elas são muito travadas afetivamente a ponto de não conseguir nem falar o que gostam ou eu te amo, isso não é questão de falta de tempo. As dificuldades amorosas estão muito grandes também. Existe um travamento em dizer eu te amo. Eu acho que uma das razões é o fato das crianças já estarem apressadas, porque vão para escola, vão para outras atividades e perdem a possibilidade de receber o afeto da mãe.

O que as pessoas podem fazer para soltar essa trava?
Nós temos uma série de exercícios que têm a ver com soltar o corpo e buscar sua graciosidade. Eles vão desbloqueando as couraças e tiram, como se fosse uma múmia, a gase que embrulha a pessoa. Mas existem outras atividades que podem ajudar a soltar o corpo e as emoções. Faça tai chi, yoga, musculação. Faça coisas que deem leveza ao corpo e façam sentir que o seu corpo hoje está pesado e é ele que te bloqueia de dizer eu te amo.

Eu confesso que, às vezes, acho mais difícil soltar o eu te amo, porque a repressão hoje está muito maior nas questões afetivas do que na sexualidade. Está mais difícil falar de amor, as pessoas não têm tempo, acham que precisam conquistar a vida.


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