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Gerais

Alexandre Orion e o visual da poluição

A intervenção urbana do grafiteiro utiliza uma mescla de tinta incolor com fuligem retirada da cidade
Bruno Torres
27/09/19

A noite é o entremeio de tempo em que a indefinição entre cedo e tarde se nota pela percepção (subjetiva?) do escuro. A primeira ida sozinho para o Grajaú, bairro do extremo sul de São Paulo, vem puxada pela memória. Automóveis, Avenida Belmira Marin, esquerda, direita. Rua errada e a sensação de “vamos ver onde vai dar”. Foi reto, em direção ao… ali na frente… lugar em que a avenida acaba na água, na balsa que travessa o escuro rumo à ilha do Bororé. O que importa aqui talvez não seja a história ou a ordem dos acontecimentos, mas como nossas passagens, ou pelo que passamos definem nossas permanências na cidade. Como o ir, estar, interagir ou depois ficar definem por onde queremos passar. Nesse processo de transitar, encontramos algo comum: pessoas.

Alexandre Orion é um artista - ou interventor urbano? – que olha a cidade e percebe o contraste entre seus 11 milhões de habitantes e os espaços vazios que a compõe. Os trabalhos “Ossário” (2010) e “Metabiótica” (2013) são os exemplos de como a metrópole dominada pelo cinza se estabelece como vício e virtude para aqueles que a habitam. "A gente tece uma rede afetiva com o outro. Dificilmente você vai para um lugar criar uma relação estreita com um lugar ou com uma parede. Você é intermediado por uma interação. É nesse lugar que se encontra a memória de quem nos fez chegar até ali ou o que você encontrou pelo caminho. Você tece conversas e a abrangência da cidade se aumenta, se espalha", afirma Orion.

Intervenção "Ossário" de Alexandre Orion no túnel Max Feffer, em São Paulo
Alexandre Orion realizou a obra "Ossário" (2006) na fuligem das paredes do túnel Max Feffer, em SP

O encontro com o outro é a base da atuação na cidade. É aquela velha história de que nosso espaço acaba quando começa o do outro. O problema, ou talvez a riqueza, é que a rua é feita de outros. Escolher ter o trabalho pautado no espaço público é também olhar para as pessoas e fazer com que percebam o espaço e o clamem como lugar:

"Eu não queria que outros grafiteiros me dissessem o que eu tinha e como tinha de fazer, se eu era bom ou não. Eu queria, na verdade, que as pessoas na rua fizessem isso. Assim, minha liberdade só acabava quando eu encontrava nos indivíduos. Não há nada que seja você realmente, pois ela é para todo mundo. Quando você faz algo na rua, percebe que não adianta ficar com ideias preconcebidas do que se quer colocar ali. Meu trabalho se orientou na leitura de significados da cidade e da percepção que, entre eles, o principal é que as pessoas estão ali. Uma parede é só uma parede, mas dependendo em que lugar ela está, que significado as pessoas atribuem a ela, que cenário você encontra ali e que meio é aquele, sua significação muda completamente".

Intervenção "Ossário" de Alexandre Orion no túnel Max Feffer, em São Paulo
A fuligem foi utilizada também nas obras"Poluição sobre muro" (2012), feita no Brasil e no exterior

A intervenção urbana é como uma escrita em que a parede é o papel, a cidade é o cenário e as pessoas são os personagens regidos por uma trama que envolve todos. A construção desse lugar, que se expressa e deixa expressar, confere uma alma à cidade e é uma brincadeira entre o discurso de quem cria e a leitura de quem vê. A comunicação só acontece e encontra permanência ou inquietude, se nos permitirmos olhar e sermos olhados. Na cidade em que a escala humana foi reduzida e os olhares não se cruzam por medo de serem lidos, talvez esse contato visual seja o primeiro passo para se (re)ocupar o tempo e espaço público. Talvez nos falte indiscrição e nos sobre medo.

Intervenção "Ossário" de Alexandre Orion no túnel Max Feffer, em São Paulo
Infelizmente, a obra foi apagada com jatos de água pela Departamento de Limpeza Pública de SP

"A maioria das pessoas vive com medo. Acredito que a rua é um lugar ameaçador para todos. A maioria não está aberta para ler as informações que a rua fornece. As pessoas vivem uma rotina mecânica em que a lógica do automóvel torna a cidade um lugar de passagem. É opressor. Você vai de um ponto ao outro, mas nunca está de verdade. A arte urbana vem para questionar isso e a presença do artista durante o processo da obra na rua já é um grande evento. Eu costumo dizer que o graffiti não é uma obra em si: ela é performática antes de ser. Quem passa por um lugar e vê algo em processo que é voltado pra rua, percebe imediatamente que aquele espaço está sendo chamado: “Ei! aqui pode ser ocupado!”. Intervir significa potencializar um significado, subvertê-lo ou ressignificá-lo. Qualquer manifestação nesse sentido clama o espaço, inclusive a pichação!"

Em uma pan performance, o que importa é o que está sendo imprimido ali, mais do que a intervenção, o ato e o convite de intervir. Quando uma parede recebe um grafite, ela passa a conter em si um discurso, um recorte da cidade que estimula a dúvida. Tudo depende do quão profundamente aquele que passa pelo local está disposto a parar, entrar, se mesclar nas veias escondidas que a cidade propõe. No Grajaú, por exemplo, na obra “Apreensão” (2014), uma criança gigante destrói casas, em um discurso tão pueril, quanto refinado.


No CEU Grajaú, em São Paulo, a obra "Apreensão", propõe uma reflexão sobre a ocupação do espaço

"Algo me chamava de volta para o Grajaú. Minha última intervenção foi um painel de 15 x 32 m no CEU Navegantes. Não é uma parede voltada pra rua, mas para uma arquibancada de casas, para o bairro. O que importa ali nem é tanto o lugar, mas o discurso colocado e o quanto ele dialoga com o espaço. Quando eu estava fazendo a intervenção, um cara me perguntou: ‘Mas, ela está brincando? Porque pra mim parece que ela está destruindo as casas’."

A dicotomia é o tema da intervenção "Apreensão", uma composição cruzada, mas não antagônica, da brincadeira e da destruição; da inocência e da inconsequência; do fazer por querer e querer fazer. O cenário, que se concretiza na realidade com as frequentes desapropriações na região, mostra uma criança brincando de casinhas. A imagem por si é inocente. Mas se nos permitimos olhar de novo, a criança brinca, na realidade, com as casinhas. A brincadeira passa pela destruição, pois ela é real. As casas também não são aquelas dos blocos infantis. Elas retratam exatamente a textura da periferia com seus tijolos expostos, lajes, quartos, cozinha e pessoas nas casas.

Intervenção "Metabióticas" de Alexandre Orion nas ruas de São Paulo
Cidade, pessoas e imaginação: a série "Metabióticas" (2014) é um olhar poético de situações de SP

O fantástico fica por conta da proporção. O painel mostra a figura de uma criança gigante que parece ter saído de um filme de ficção ou da imaginação do artista. Sentada de costas para sua brincadeira-destruição, o Grajaú, ela está ali como se não se importasse com o que ocorre em sua volta. Não está para destruir, mas não se preocupará em fazê-lo, caso a interação da brincadeira caminhe para isso. Ao mesmo tempo, ela fica de frente para todas as janelas vizinhas, em uma posição de abertura despreocupada, quase inconsequente, aos olhares espectadores. Ela arranca uma casa, brinca com outra até que o próximo passo talvez seja destruí-la.

Quanto às intervenções, Orion afirma que “elas são metáforas do humano. A criança representa isso, porque a gente passa a vida inteira como criança. Aprendemos que não se pode colocar o dedo na tomada, mas em compensação fazemos uma série de coisas que são extremamente danosas. Quando a discussão sobre sustentabilidade se tornou mais intensa nos últimos anos, eu pensava no insustentável em uma perspectiva de que temos tratado o assunto de forma esquizofrênica, pois não somos sustentáveis. O ser humano está mal preparado para lidar consigo mesmo e, mais ainda, com os outros. A presença da criança traz também a ideia de continuidade e da finitude do ser humano. É engraçado pensar nesta criança alterando o urbanismo da cidade, realocando casas em uma atividade lúdica versus a lógica adulta de manipulação do mundo. É um conflito pensar por essas duas vias. O que de fato estamos construindo?”

Intervenção "Metabióticas" de Alexandre Orion nas ruas de São Paulo
Na série "Metabióticas", intervenção artística e realidade se fundem na beleza da metrópole

O tom da mensagem que se quer passar continua a ser construído no próprio material utilizado. O artista-interventor utilizou uma técnica que mescla tinta acrílica incolor com um pigmento principal. O interessante é que esse pigmento é composto da fuligem retirada da cidade. O conceito é o mesmo utilizado no projeto “Ossário” (2010). Essas partículas, colhidas dos túneis de São Paulo, fizeram parte de obras em muros de todo o mundo. A do Grajaú é a primeira intervenção mural feita na cidade com essa técnica.

Pode-se dizer então que os muros ou mesmo as galerias subterrâneas da cidade emolduram o esteticamente belo, a cor, o fantástico, o monumental e o movimento do grafite. Antes de tudo, emolduram a construção de uma mensagem, o pensamento de uma geração, o discurso e as manifestações da história presente. Em suma: a memória, individual, coletiva ou compartilhada de uma cidade de quem vive e age sobre ela. Se essa memória é invenção, quem saberá quantas delas transitam, cruzam, revelam, se encontram, permanecem e compõem a cidade como uma malha de relações. “A gente não se sustenta, não é perene. A ideia de perenidade passa e continua pelo outro e no outro. Isso me interessa. A motivação está justamente na ideia de que aquela informação que eu posso produzir, irá para o outro. Por isso a escala, o esforço para chegar no outro”, finaliza Alexandre Orion.


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