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Amelinha Teles: militância e luta pelos direitos da mulher

Ícone do feminismo no Brasil, ela defende a reformulação de sistemas de saúde para lidar com a violência
Bruno Torres
27/09/19

Maria Amélia Teles, ou Amelinha, como é conhecida, é uma referência nacional na luta pelos direitos das mulheres. Uma das precursoras do movimento feminista no Brasil, ela defende que todos os direitos conquistados pelas mulheres são frutos da luta de movimentos sociais pelo país. “Até eu estar com uma calça comprida aqui hoje é uma conquista. Com as mulheres é assim, elas não podiam andar de calça comprida, não podiam andar de minissaia, a gente mal podia sair de casa, essa é que é a verdade. Nosso espaço era muito restrito”, afirma.

Amelinha foi uma das participantes do seminário Sementeiras de Direitos, realizado pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) no dia 8 de abril, e que fez parte da I Virada da Saúde da cidade de São Paulo. Em sua fala, ela teceu comentários sobre a violência obstétrica no país e contou sobre a luta do movimento de mulheres para a criação de mais creches na cidade na década de 1970.

“Havia quatro creches em São Paulo, sendo que uma delas estava sempre fechada. A Rede Municipal de Creches de São Paulo se deve ao movimento feminista e ao movimento de mulheres, e isso se espalhou pelo Brasil todo. Éramos chamadas em outros estados para discutir o tema, foi muito interessante”, relata.

Violência contra a mulher e saúde

Amelinha apresentou a questão da violência contra as mulheres como um fenômeno mundial que acaba por cercear outros direitos em série. “Violência é a mulher que não pode ir ao trabalho porque foi espancada. Como consequência, ela perdeu também o direito a saúde, a uma vida sem violência e o direito ao trabalho. Assim, seus filhos perderam o direito de ir para a creche, porque a mãe não vai levá-los. A violência contras as mulheres é a expressão maior de toda a violação de direitos humanos, porque uma puxa a outra e quando você vê já não tem mais direito nenhum”, analisa a militante.

Na visão de Amelinha, a solução para esse problema passa pela saúde pública e pela preparação adequada dos profissionais de saúde, pois é nesses espaços que as mulheres podem falar do que acontece sem se preocupar com boletins de ocorrência ou processos judiciais para criminalizar o agressor. “Ela pode falar da violência que sofreu para receber orientação e apoio por parte dos profissionais de saúde. Nosso objetivo é fazer com que a mulher se sinta mais fortalecida e segura para interromper esse ciclo da violência, tomar iniciativas de maior autonomia e sair dessa”, diz.

“Essas mulheres, além de não serem atendidas adequadamente, são chamadas nos serviços de saúde de poliqueixosas, ou seja, pessoas que reclamam de tudo. Elas não falam diretamente da violência, mas sim que têm dor de cabeça, não conseguem dormir a noite, ficam enjoadas, perdem o apetite etc. O que elas não mencionam é que estão sendo ameaçadas e/ou espancadas. Os profissionais de saúde tem de ser melhor preparados para acolher e entender essas mulheres que "reclamam de tudo" sem nomear exatamente ou identificar de forma clara seus problemas. Elas estão em busca de ajuda, e para sair de uma situação de violência, é realmente necessário um auxílio externo”, explica Amelinha.

Violência contra a mulher no Brasil

“Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. “Casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. “A roupa suja deve ser lavada em casa”. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Essas frases, que parecem ter sido retiradas de livros do século passado, foram aceitas como verdadeiras por mais da metade dos 3.810 participantes de pesquisa do Sistema de Indicadores de Percepção Social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de abril de 2014. De fato, o estudo indica que a luta de Amelinha é mais atual do que nunca.

A aplicação da Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006 para combater a violência contra a mulher, ainda não foi suficiente para mudar este cenário. No estudo Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil, de 2013, o Ipea apresentou uma estimativa sobre mortes de mulheres em razão de violência doméstica com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. De acordo com o trabalho, as taxas de mortalidade foram 5,28 por 100 mil mulheres no período 2001 a 2006 (antes da lei) e de 5,22 em 2007 a 2011 (depois da lei), diz o estudo.

Amelinha foi militante durante os anos da ditadura militar no Brasil e foi presa junto com o marido, os filhos pequenos e sua irmã, que estava grávida, por uma destacamento da Operação Bandeirante (OBAN), força-tarefa de repressão composta por militares, policiais e empresários. Fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, recentemente, integrante da Comissão Estadual da Verdade de SP, Amelinha se dedica há mais de 30 anos à luta pela apuração das atrocidades cometidas pelos militares durante a ditadura e pela responsabilização dos agentes do Estado pelos crimes cometidos.


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