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Gerais

Árvores nas cidades: responsabilidade e interesse de todos

A arborização urbana luta por espaço nas calçadas e entre as fiações életricas; saiba como promovê-la e conservá-la
Bruno Torres
27/09/19

O ambiente urbano não é feito apenas de construções, vias públicas e muito concreto. Um ponto importante para qualquer cidade é como ela se relaciona com a natureza. Engana-se quem pensa o verde deve ficar em segundo plano. Ele é indispensável, pois representa uma enorme diferença na qualidade de vida das pessoas.

Em São Paulo estamos na contramão. As áreas verdes são pouco valorizadas e as árvores competem por espaço nas calçadas, entre placas de trânsito e principalmente entre fiações dos sistemas elétricos e de telefonia.

Com o intuito de refletir sobre essa interação da estrutura das cidades com a natureza, como parte da programação da Virada Sustentável 2015, aconteceu o debate “Arborização e Poda Urbana: árvores para as cidades”. O evento teve a participação do agrônomo Luiz Gustavo Ripani da AES Eletropaulo, da gerente de produtos da marca de equipamentos para o manejo de áreas verdes Husqvarna, Graziela Lourensoni, e do arquiteto e urbanista Sérgio Fontana dos Reis.

As árvores e as redes elétricas

Ripani fez uma exposição sobre seu trabalho junto à principal empresa responsável pela distribuição elétrica da cidade de São Paulo. A importância do seu cargo se evidência diante do seguinte dado:56% a 65% das quedas de energia na capital paulista são causadas por árvores.

Mas qual seria a solução para esse problema? Eliminar as árvores nem entra em questão. Enterrar todo o sistema elétrico em galerias subterrâneas, como é feito no Parque Ibirapuera,seria uma saída inviável a curto ou médio prazo, ainda mais em uma cidade do tamanho de São Paulo. Fiações de TVs a cabo e outros serviços que não são de responsabilidade das distribuidoras de energia elétrica precisariam entrar em um consenso para terem o mesmo destino. A solução, sugere Reis, é “respeito à técnica”.

Planejamento e acompanhamento

As árvores no ambiente urbano não são como na natureza, elas precisam de planejamento e acompanhamento. Afinal, são vários os problemas que podem prejudicar o plantio de uma árvore na cidade: solo compactado, falta de espaço permeável, solo inadequado,deslizamento de torrão, cupim, fungos.

Ter técnica significa tomar atitudes racionais em relação ao plantio, cultivo, poda e possível corte das árvores. Hoje, há um grande movimento ecológico de aversão ao descarte de verde urbano, mas ao mesmo tempo ignorância e atraso em relação aos procedimentos de cultivo. “Temos de entender que a árvore é uma vida e pode morrer”, reitera o agrônomo.

Para que os cidadãos de uma cidade possam colaborar com a arborização urbana é preciso tomar consciência de que todo e qualquer procedimento de poda ou corte de árvores em vias públicas ou particulares deve ter a autorização de técnicos da prefeitura.

Isso pode soar absurdo ao primeiro contato, ainda mais pelos relatos de excesso de burocracia e atrasos desse procedimento, mas não é só a boa intenção que promove um cultivo bem sucedido. Mesmo com a grande oferta de informação graves erros podem ser cometidos no plantio de uma árvore e isso pode causar, inclusive, prejuízo à população.

Poda

A poda foi a técnica mais citada no evento. Segundo Lourensoni, uma poda correta, com um bom equipamento que não deixe resíduos evita que fungos e outros organismos adoeçam o interior da árvore, faz com que ela cresça saudável e determinam a sua condução.

A gerente de produtos fez questão de lembrar que, mesmo que a figura da motosserra seja negativa aos olhos da população, ela é muito importante para conduzir o crescimento de uma árvore.

Ripani explica que uma poda bem sucedida para uma companhia distribuição de energia é aquela que livra a fiação sendo quase imperceptível e não prejudicial à saúde da árvore.


Regras da arborização urbana prezam pela acessibilidade e pela qualidade de cultivo das árvores

Paisagismo em São Paulo

São Paulo é uma cidade com grande disparidade de arborização entre suas ruas. Algumas são conhecidas por ser cheias de árvores;outras, por não apresentarem sombra alguma em toda a sua extensão. “O paisagismo virou uma salada”, queixa-se Ripani.

Segundo o agrônomo, isso ocorre porque a cidade cresceu muito rapidamente e de forma desordenada. Não houve planejamento paisagístico. São Paulo foi predominantemente estruturada em um estilo colonial português, no qual são valorizados os casarões enquanto as árvores nas calçadas ficaram praticamente abandonadas.

Como fazer então para aumentar a arborização na cidade? Primeiro, devemos lembrar que debaixo das calçadas pode existir, em muitos casos, rede de esgoto, de gás, fiação e tubulação de água. Se plantamos uma espécie que seja desaconselhável para aquele local, que tenha raízes muito profundas ou que esteja em uma cova (ou berço) irregular isso pode acarretar prejuízo para a infraestrutura urbana e para a árvore.

Reis, no entanto, sugere que os cidadãos não desanimem com a falta de autonomia para o plantio urbano, mas que aprendam a cultivar e valorizar o verde nas cidades. “Não podemos pensar que São Paulo é simplesmente uma máquina de gastar tempo e ocupar espaço. Ela tem que ser boa de se morar”, instiga o paisagista.

Uma árvore espirradeira (Nerium oleander) tóxica e com potencial alérgico plantada em frente a um hospital e uma paineira (Ceiba speciosa) árvore com o tronco cheio de espinhos plantada ao lado da ciclovia na Avenida Brigadeiro Faria Lima, foram exemplos dados por Ripani de erros de cultivo na cidade e provam que é preciso mesmo ter técnica, entendimento de arborização e olhar plural, não só boa vontade.

Algumas vezes, essa falta de zelo se origina de compensações ambientais exigidas às empresas, pelos efeitos de impacto de seus empreendimentos. Muitas delas não têm técnicos para planejamento arbóreo e simplesmente seguem a regra plantando a quantidade de mudas exigidas. Não há preocupação com questões mais complexas, entre elas, quais são as espécies ideias para cada tipo de calçada.

Como o munícipe pode ajudar

Antes do plantio de árvores em si, a população pode colaborar com o verde urbano de forma muito simples: se informando. Segundo Ripani, falta iniciativa das pessoas para saber mais sobre arborização das cidades. "Isso prejudica muito a evolução do assunto no Brasil. É necessário que as pessoas busquem palestras, especialistas, acadêmicos e não se foque só na mídia tradicional", provoca o agrônomo.

Como já foi dito, o órgão responsável pelo plantio e poda das árvores em áreas públicas de São Paulo é a prefeitura municipal. Isso é lei. Mas como colaborar com a arborização da cidade se não se pode plantar? A melhor coisa a ser feita é ligar para o telefone 156 da prefeitura ou ir a subprefeitura mais próxima e solicitar o plantio.

Dentro de um mês, a prefeitura tem a obrigação de ir até o endereço desejado e avaliara melhor espécie que se adeque à calçada. Esta deve ter um espaço de no mínimo 60 x 60 centímetros para a cova nas faixas de serviço e acesso. Depois da avaliação, a prefeitura se encarrega de fazer o plantio e as podas. Isso, no entanto, não impede que o munícipe também acompanhe o crescimento e esteja atento a possíveis depredações.

No caso das podas, árvores com mais de cinco centímetros de tronco também precisam de autorização prévia da prefeitura. Em casos emergenciais, o corpo de bombeiros pode ser solicitado. Quanto ao corte, a autorização é necessária até dentro de áreas privadas e só pode ser justificada em casos de queda iminente, morte comprovada da árvore, localização em terrenos que vão ser edificados, entre outras questões.

O órgão público também tem a obrigação de reparar árvores que foram plantadas em calçadas com largura inadequada ou com a base cimentada, mas existe multa para quem fez isso e é denunciado. Afinal, além do prejuízo para a própria planta, e possíveis problemas com a raiz, a acessibilidade dos pedestres também pode ser afetada.

Um munícipe já pode encaminhar um projeto de arborização pronto à prefeitura se ele for capacitado e esteja seguindo as normas da cartilha de arborização e das calçadas. Pode ser um biólogo, agrônomo ou engenheiro florestal. A aprovação do plantio, no entanto, apenas os técnicos da prefeitura podem dar.

Como conseguir mudas

Sabendo da impossibilidade de plantar de forma autônoma nas vias públicas, ainda existe uma solução para quem não abre mão de cultivar árvores no espaço urbano.

Se o munícipe tiver espaço dentro de propriedades privada, quintais e pátios, existe uma campanha permanente de doação de mudas feita pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente.

São três viveiros na cidade de São Paulo: Manequinho Lopes, Arthur Etzel e Harry Blossfeld. Nesses locais, é possível retirar mudas para arborizar propriedades dentro da capital paulista.

É sempre bom lembrar de que além de colorir a paisagem cinza,uma rua arborizada contribui para aumentar a umidade do ar,reduzas altas temperaturas das superfícies de asfalto, diminui a poluição sonora e retêm a água da chuva. Além disso, a fauna local também se beneficia e o microclima ganha muito mais qualidade.

Foto: MacedonianBoy / Wikimedia Commons/ CC BY-SA 3.0


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