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Gerais

Eles fugiram do caos da cidade grande

Pessoas contam quais foram os motivos que as levaram a abandonar a correria do dia a dia da capital de São Paulo
Bruno Torres
27/09/19

“Está podendo falar agora?”

“Agora estou. Estava com um problema na internet e tive que sair de casa para resolver, porque meu celular não pega aqui. Esse é um dos problemas de viver no meio do mato”, conta rindo o escritor César Obeid, que há mais de quatro anos decidiu abandonar São Paulo para morar com a família em Itapevi, há aproximadamente 60km da capital paulista. A dificuldade na comunicação é uma das únicas desvantagens apontada pelas pessoas que escolheram deixar a maior cidade brasileira em busca de uma vida mais próxima da natureza e livre do caos paulistano.

Há décadas São Paulo tem sido o destino de muitos que almejam melhores oportunidades de emprego e mais opções seja de cursos, cultura ou comida. No entanto, cada vez mais aumenta o preço a se pagar por esses benefícios. Além das altas no custo de vida, o agravamento da crise hídrica, a insegurança, o trânsito cada vez mais difícil, o distanciamento entre as relações humanas e também a falta de espaços para entrar em contato com a natureza tornam-se fortes motivos para pessoas trocarem a vida agitada em uma grande metrópole para a conquista de um dia a dia mais tranquilo.

Confira os relatos de quem tomou essa decisão.

Taturana, lagarta, aranha e tatu-bola

O escritor de livros infantis César Obeid e a professora de yoga Renata von Poser resolveram se mudar de São Paulo quando a filha do casal, Clara, era apenas um bebê. “Viemos para cá quando a Clara tinha seis meses em busca de uma qualidade de vida para ela e também para nós”, relata Obeid. “Só decidimos morar fora de São Paulo porque não trabalhamos lá todos os dias. Eu sei que muitas pessoas enfrentam o trânsito enlouquecedor das rodovias diariamente, mas acho que não conseguiria”, explica o escritor.

“Eu adoro morar aqui. Como escrevo, de vez em quando entro em curto-circuito com a minha cabeça e pisar na grama é um exercício incrível. Se é um dia de Sol, melhor ainda. O meu trabalho de escritor e de pesquisador me faz ficar muito tempo sentado lendo ou no computador. Ter essa possibilidade de movimento é muito bom, com certeza eu não teria isso em um apartamento”, comenta Obeid.

Quem também se beneficiou com a mudança foi Clara, que pode disfrutar livremente da natureza. “Minha filha, que hoje está com cinco anos, pode brincar no mato e com os bichos. Aqui tem macaco, tucano, gambá, coati etc. Ela tem conhecimento de taturana, lagarta, aranha, tatu-bola. Hoje, eu percebo que ela é uma criança muito solta, não tem medo da natureza, de por o pé na terra ou tomar chuva. Essas experiências diárias para uma criança são muito válidas”, diz o escritor.

“Outra vantagem é que tenho uma horta em casa com todo tipo de tempero. Eu gosto muito de cozinhar, então posso fazer um macarrão e pegar o manjericão fresco. Isso é muito bom. Além do mais, a qualidade do ar é bem melhor e não há o barulho da cidade”, conta Obeid, satisfeito com sua decisão.

Já sobre as desvantagens, o escritor conta que a pior de todas é ficar longe da família. “Outro problema é que se eu tenho um compromisso com hora marcada em São Paulo, tenho que sair com muito tempo de antecedência.”

Sobre abrir mão de mais opções culturais, Obeid afirma que já não sente tanta sede por teatro e cinema. “Eu faço cultura, não estou a menosprezando, mas é que nós estamos muito saturados de coisas intelectuais. Penso que nós estamos precisando mais do silêncio”, opina. “Não há necessidade dessa conexão o tempo inteiro. Agora mesmo, estou sem internet, mas está tudo bem, estou aproveitando para ler mais. As coisas não são tão urgentes, elas podem esperar, mas o cuidado comigo não pode e eu acho que viver em contato com a natureza me possibilita mais saúde e mais contato humano com a família”, conclui.

Planos firmes como pregos na areia

Felipe Floresti e a namorada Caroline Castro são paulistas e jornalistas freelancers. Há alguns anos moravam no centro de São Paulo, na Rua Avanhadava. “Mas nem era na parte mais bonita da rua”, diz ele. Fatigados da rotina no concreto, resolveram passar um tempo de suas vidas viajando e trabalhando a distância.

Floresti conta que a vontade de deixar São Paulo ficou mais forte após voltar de uma vivência na ecovila Tibá, na região serrana do Rio de Janeiro. “Lá eu encontrei um novo mundo, uma nova forma de relação com as pessoas, com a terra e com o trabalho. Peguei gosto por trabalhos manuais, logo eu que sempre tinha trabalhado na frente do computador. Quando voltei para São Paulo, percebi que não conseguia mais morar lá. Eu queria outra qualidade de vida. Então, eu e minha namorada decidimos viajar”, relembra.

“O primeiro destino foi a Colômbia. Fomos para uma vila de pescadores a beira do caribe. Decidimos ir sem planejamento. Nossos planos são firmes iguais pregos na areia”, brinca. “Lá, uma das coisas inesperadas que aconteceu foi que adotamos um gato e ele andou com a gente para o Peru, Equador e agora está conosco na Bahia. Aqui também adotamos outra gata, a Ivete”, relata o jornalista que está passando um tempo no Vale do Capão.

Floresti confessa que o mais difícil para os dois é ficar longe das famílias. “Está para nascer o segundo sobrinho da Carol e ela sente falta da família e de amigos. Viajando você faz um monte de amigos, mas são sempre passageiros”, diz.

Floresti reforça que essa decisão foi a melhor para os dois. Ele entende, no entanto, que essa pode não a saída para outras pessoas. “São Paulo é incrível para quem gosta de São Paulo. Eu não falo para ninguém 'saia de São Paulo, porque a vida é melhor fora da Babilônia'. Mas voltar para lá é complicado. Se você procura uma casa com espaço minimamente confortável, o aluguel é muito caro. E, agora, há a questão da água que nós estamos ouvindo falar. A gente pensa em voltar para a região de São Paulo, mas não dá para voltar para a cidade”, afirma.

“Eu já larguei a ideia de carreira faz muito tempo. É claro que cada um tem suas condições e seus problemas. Eu tenho meus freelas. Mas aqui a internet mais rápida é a discada”, relata.

Para quem quiser arrumar as malas e sair viajando, Floresti aconselha: “Mete o pé. O medo é bloqueante. Se você tem o mínimo de jogo de cintura, você se arranja para comer e dormir. A questão é se livrar do medo e seguir o coração que daí não tem erro.”

Descobrimos coisas sobre nós que nunca imaginaríamos

Em busca de um novo estilo de vida, Renata Leite pediu demissão da agência de comunicação em que trabalhava, em São Paulo, e partiu para Alto Paraíso, Goiás. “Sempre fui muito conectada com a natureza e a vida em São Paulo me afastava disso. Minha rotina era puxada. Trabalhava o dia todo para pagar contas altas e alimentar hábitos de consumo que eu não precisava. Também sempre tive a impressão de que em São Paulo a maioria das pessoas procura se distrair com informações desnecessárias e se esquecem de olhar para si mesmas e para o próximo. Acho que a cidade é ótima para muitas coisas, iniciativas e movimentos, mas para o meu momento não estava mais funcionando”, explica Renata sobre os motivos que a levaram deixar a metrópole.

Foi em Goiás que Renata descobriu uma nova paixão: a culinária. “Morei cinco meses em Alto Paraíso e lá comecei a trabalhar vendendo pães e doces veganos na cidade. Sou adepta do veganismo há cinco anos e acredito que a mudança de um contexto melhor para o mundo se dá pelo que consumimos, principalmente, na nossa alimentação.”

Ao deixar Alto Paraíso, Renata foi até a Paraíba de bike e carona. Esse percurso de aproximadamente 2.000 km levou dois meses. “Depois fui para o Rio de Janeiro fazer um curso de culinária viva e, em seguida, me mudei para o Vale do Capão na Chapada Diamantina, que é onde vivo agora”, conta.

“Hoje me sinto muito mais conectada comigo e com a comunidade a minha volta. Tenho mais tempo para gastar comigo, para pensar em novos projetos e para explorar minha criatividade. Quando estamos mais tranquilos, descobrimos coisas sobre nós que nunca imaginaríamos.”

Renata se mantém trabalhando com culinária viva, vendendo nas feiras e em temporadas na rua e, em paralelo, realiza oficinas e vivências para interessados, mas às vezes o dinheiro nem é necessário. “Aqui no Vale do Capão muitas vezes a moeda de troca é o que o outro pode oferecer, não necessariamente em moeda nacional. Por exemplo, se no meu jardim deu muita goiaba e eu também gostaria de ter bananas, posso trocar com o vizinho que tem bananas, mas não tem uma goiabeira. E assim por diante.”

Sobre as desvantagens de não viver em um grande centro, ela diz que existem algumas coisas que demandam mais energia em uma cidade pequena. “Os meios de comunicação não são tão eficientes. A internet não funciona tão bem. Para falar com minha família, por exemplo, preciso andar 40 minutos até o centro da vila, que é o único lugar onde tem sinal de celular. Isso pode ser uma barreia para quem está acostumado a ficar conectado virtualmente o dia todo, mas eu particularmente acho ótimo, porque nos induz a valorizar as relações pessoais mais próximas. As coisas acontecem realmente mais devagar. Algo que em São Paulo resolvemos em um dia, aqui pode levar uma semana. Mas afinal, pra que pressa né?”, questiona.

Respirar ar puro não tem preço

O biólogo Fernando Oliveira decidiu se mudar para a cidade de Cananéia quando se viu em uma delegacia após ter sido vítima de um sequestro relâmpago, em São Paulo. Fernando já estava familiariazado com a cidade do litoral sul paulista. Lá, ele já havia ajudado a fundar uma ONG e, periodicamente, realizava cursos sobre ecologia e a importância da conservação do boto-cinza.

“A principal vantagem de morar em Cananéia é a vida tranquila, o verde da floresta, o barulho das águas, as chuvas que sempre caem, as estações do ano muito bem marcadas, as luzes do outono e o infinito ar puro. Respirar ar puro não tem preço”, argumenta Oliveira.

“A desvantagem é a replicação, em uma escala menor, de todas as mazelas que afligem as sociedades pós-modernas e que culminam nas mais variadas formas de desigualdade social. A cidade tem vocação nata para que se pratique um desenvolvimento verdadeiramente sustentável baseado na proteção e uso consciente da natureza e na valorização do saber-fazer das comunidades tradicionais (caiçaras, quilombolas e indígenas) voltados a promoção da prática do turismo de base comunitária. Não fossem as instituições do terceiro setor que atuam na cidade, quase nada disso veríamos por aqui." Fernando faz uma crítica ao poder público local que, segundo ele, não se empenha em valorizar o potencial cultural da região.

“Sempre vou a São Paulo. Costumo brincar e digo que subo a serra para praticar a ‘terapia do estresse’, ou seja, quando tudo fica muito calmo por aqui é hora de se agitar um pouco na capital (risos). Mas na verdade, tenho família por lá e sempre subo para vê-los. Meu filho de 11 anos também mora por lá e passar um bom tempo com o guri é prioritário pra mim. Nas férias ele sempre passa uns bons dias aqui na beira-mar”, conta.

O educador Cleber Rocha (foto à esquerda) também trocou a cidade paulistana por Cananéia. Atualmente, ele leciona ciências e biologia em uma escola rural. “Identifico inúmeras vantagens de morar em Cananéia, a começar por ser uma cidade histórica, onde surgiu o primeiro povoado do Brasil e você consegue sentir um pouco dessa nostalgia andando pelas ruas estreitas, vendo os casarios antigos, as construções que ainda conservam traços dessa rica história, além disso, por ser uma cidade pequena, você consegue se deslocar facilmente por ela. É possível atravessar a cidade com uma bicicleta", diz Rocha.

A vida é muito mais que trabalhar, ganhar dinheiro e consumir.

"É um lugar que você cumprimenta as pessoas e é retribuido. Onde “bom dia” é uma expressão muito usada. Em termos de qualidade de vida, é um lugar que lhe proporciona condições eficientes para conseguir esse bem estar físico, emocional e espiritual”, continua.

“O que mais me incomodava e ainda incomoda em São Paulo é o ritmo acelerado que as pessoas vivem nessa cidade. Percebo que milhões de pessoas vivem em uma rotina diária frenética, onde o tempo tem um valor (financeiro) que as faz esquecerem que a vida é muito mais que trabalhar, ganhar dinheiro, consumir, trabalhar, ganhar dinheiro, consumir. E vejo que mesmo se você não faz parte dessa rotina, acaba submetido às consequências dela, como o trânsito caótico, filas gigantes em diversos lugares, falta de amor e excesso de competição entre as pessoas”, diz Cleber.

Fotos: Arquivo pessoal


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