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Gerais

Mais bikes para uma nova cidade

A cicloativista Aline Cavalcante fala sobre o potencial que a bicicleta tem de transformar os espaços públicos
Bruno Torres
27/09/19

O incentivo do uso da bicicleta nas grandes cidades é urgente por sua interdisciplinaridade: aborda não apenas a questão da mobilidade, mas também de saúde, da cidadania e até mesmo de segurança pública. Essa é a visão de Aline Cavalcante, cicloativista e coordenadora do oGangorra, um espaço de co-working compartilhado com o Las Magrelas Bar e Bicicletaria, na Vila Madalena, em São Paulo.

Mais do que estimular o uso da bicicleta, é urgente desestimular o uso do automóvel, porque ele é claramente um problema social, um problema de saúde pública, de espaço público, de segurança pública.

As pessoas ficam menos estressadas, menos sedentárias, você consegue humanizar a rua, melhorar a segurança pública na medida em que você põe mais gente na rua fazendo a vigilância social. A rua com mais pessoas é uma rua mais segura. Por exemplo, você vai no Morumbi, onde não tem ninguém na rua, o local se torna perigoso justamente porque as pessoas estão isoladas, enclausuradas”, afirma.

Mais do que estimular o uso da bicicleta, é urgente desestimular o uso do automóvel, porque ele é claramente um problema social, um problema de saúde pública, de espaço público, de segurança pública.

Aline concedeu entrevista exclusiva ao Portal NAMU para falar sobre o momento vivido na cidade de São Paulo.

Como você tem visto a resistência da população em relação a algumas medidas tomadas pela Prefeitura voltadas para a mobilidade em São Paulo?
A política de mobilidade dessa gestão tem sido uma surpresa para a gente também, porque durante muito tempo a sociedade civil ficou isolada trabalhando em função da bicicleta. O poder público nunca interagiu com a sociedade nesse sentido. Tem sido interessante ver esse momento de transição. Eu acho que é um período fértil de mudança, o prefeito está demonstrando boa vontade na aproximação com os cicloativistas. Já a resistência é fruto do momento de transição. Acho perfeitamente normal que isso aconteça.

Todas as cidades do mundo que começaram a investir em bicicleta tiveram isso, aconteceu em Amsterdam, Berlim, Copenhagen. Copenhagen teve uma resistência absurda, há uns 50 anos atrás, quando a gestão resolveu mudar do incentivo ao carro pro incentivo às bicicletas. Portanto, a resistência popular é normal, qualquer mudança gera resistência. Inclusive entre os ciclistas também tem gente que critica. Eu vejo isso com otimismo. Parece que pela primeira vez a sociedade resolveu discutir a cidade. E agora, por mais que a gente critique alguns processos, ou tenha algumas interrogações em relação ao viário, aos projetos que estão sendo implementados, é uma grande oportunidade de discutir a cidade junto às pessoas que a gente elegeu.

Você percebe nas ruas toda essa rejeição da população que vem sendo explorada pela mídia?
Não. Eu acho que tudo aqui é muito focado na tragédia, a própria mídia também é muito dramática. Eu pedalo no dia a dia e vejo muita coisa legal acontecendo. Comerciantes interessados em colocar bicicletários na porta dos estabelecimentos, elogios, gente te aplaudindo na rua. Eu acho que existe uma quantidade maior de pessoas interessadas na mudança. Por mais que as pessoas questionem ter perdido uma vaga de carro, essas mesmas pessoas são favoráveis à mudança. São pessoas que já viajaram para o exterior. Elas sabem que isso já acontece na Europa ou nos EUA. Acham interessante que isso esteja chegando ao Brasil.

Quem pedala sabe que é uma minoria que está criticando, que está fazendo muito barulho. O problema é que se dá muita atenção pra isso. Ficamos muito preocupados com a crítica negativa e esquecemos quem está apoiando. Ao mesmo tempo, quando chegam críticas negativas construtivas, o cicloativismo é obrigado a responder. Isso faz sentido. Mas crítica negativa do cara não tem lugar onde parar o carro? Isso é uma questão do século passado. O carro é seu, a rua é de todo mundo. Então é uma questão de trocar o paradigma.


A bicicleta é utilizada em mais de 300 mil viagens por dia em São Paulo, superando o uso de taxis na cidade

Qual a importância e a urgência do incentivo ao uso da bicicleta em uma grande metrópole como São Paulo?
A gente ainda está no ponto de legitimar o modal, nem chegamos no ponto do incentivo ainda. Estamos tentando equalizar a rua, torná-la mais igual. Hoje as ruas são 98% destinadas ao uso do transporte individual motorizado, o carro. Seja para a circulação ou para estacionamento. Mas não há condição de viver em uma metrópole que só tem um tipo de transporte, isso não existe. É insustentável e todo mundo está vendo o trânsito, o caos que acontece quando o carro é tratado como única possibilidade. Essa gestão está mais preocupada em equilibrar as ruas. A primeira medida do prefeito foi colocar corredores de ônibus por toda a cidade. Pelo menos o centro expandido mudou muito. Hoje há mais corredores de ônibus.

Você está abrindo lugar para outros meios de transporte e tentando tirar o espaço do carro, mas não porque ele é ruim. Existe um dado da Rede Nossa São Paulo que diz que hoje o uso do transporte individual motorizado é direcionado para 40% da população. Ou seja, 40% da população utiliza 90% do viário. Está desigual. A maior parte da população usa transporte público ou anda a pé. Hoje me parece que a preocupação é dar espaço aos outros modais, mostrar outras possibilidades de transportes, dar espaço para quem precisa de espaço.

E o uso da bicicleta em termos de quantidade de usuários justifica essa atenção?
Sim, existem dados que provam isso. O uso da bicicleta é maior do que o de taxi, por exemplo. No caso das bicicletas você não está falando do uso de um meio de transporte como o skate, que é baixo, você está falando de um uso que é muito alto. São mais de 300 mil viagens diárias de bike na cidade. Você vê lugares na periferia, como o Jardim Helena, que tem números de uso de bicicleta maior que o de cidades europeias. Então existe uma demanda, só que ela é reprimida e desestimulada por conta do uso do automóvel.

Mais do que estimular o uso da bicicleta, é urgente desestimular o uso do automóvel, porque ele é claramente um problema social, um problema de saúde pública, de espaço público, de segurança pública. Eu li uma entrevista na qual Paulo Saldiva diz que 90% da entrada nos hospitais públicos são ou por atropelamento, ou por acidente de moto, ou por problemas respiratórios. Portanto, há uma taxa altíssima de uso da saúde pública relacionado ao carro de alguma forma.

E você acredita que a bicicleta é a principal alternativa ao uso do carro?
Não é a única, não é a melhor, não é a principal, mas é uma delas. Eu acho hoje inclusive que a principal alternativa é o transporte público de massa, mas a bicicleta entra em um cenário onde ela é muito eficiente no bairro, então você consegue por exemplo fazer a bicicleta se desenvolver no bairro. Ela deve se intercalar com outros modais. Se você coloca um bicicletário em todas as estações de metrô, o cara consegue fazer uma parte do percurso de bike, outra de metrô e outra de trem. É preciso produzir um mosaico de transportes.

Eu adoro pedalar, então se eu quero ir até Sapopemba de bicicleta, eu posso, eu tenho esse direito. Por mais que você ache um absurdo, eu tenho esse direito de fazer o que eu quiser. A questão hoje é tornar viável as decisões das pessoas. Eu sou contra quem pega o carro e vai até a padaria, mas quero retirar esse direito de ninguém, as pessoas podem fazer isso também. A questão é que o seu direito termina onde o meu começa, você não pode usar o espaço público para estacionar seu carro, porque é um espaço de rolagem, de convivência, você não pode privatizar esse espaço. Na hora que você estaciona o carro na rua você a privatizou, está usando lá 5 metros quadrados só pra você, estacionou um bem privado em uma via pública. A Renata Falzoni até fala: “Eu não pergunto onde você guarda sua geladeira, sua bicicleta. Também não importa onde você guarda seu carro. Você que o comprou, você que se vire com ele”.

E em que ponto você gostaria de chegar exatamente discutindo essas questões sobre a cidade?
Acho que queremos chegar no direito de usar a bicicleta com segurança. Essa é a meta dos cicloativistas, de quem caminha na cidade, de quem torce por uma cidade melhor. Em qualquer pesquisa todo mundo reclama de São Paulo, então queremos mudar esse cenário? O meu sonho é andar de bicicleta em paz. Ter minha estrutura, sinalização, placas pra quem pedalar. Quero ter uma experiência melhor e mais segura da cidade, estamos em busca disso.

Foto: Diego Cavichiolli Carbone / Flickr: dccarbone / CC BY 2.0


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