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Mobilidade urbana e arquitetura

Para o arquiteto Marcos Costa, foi um erro construir a cidade sem pensar no transporte coletivo
Bruno Torres
27/09/19

Em entrevista ao Portal NAMU, o arquiteto e professor da FAAP Marcos de Oliveira Costa aborda questões de mobilidade e urbanismo na cidade de São Paulo:

O fazer para melhorar as condições das calçadas de São Paulo?
Não há possibilidade de qualificação o espaço público de São Paulo que não passe pela redução do privilégio dado aos carros. Existem muitas calçadas com menos de um metro de largura em que mesmo uma simples caminhada se torna um suplício. Alargá-las é uma ação prioritária, mas não suficiente. É preciso, na verdade, qualificá-la. Ações de arborização e instalação de equipamentos públicos e áreas comerciais podem transformar as ruas em locais de encontro e não apenas de circulação.

Existe alguma legislação específica sobre arborização na capital paulista?
Sim. No entanto, há pouco esforço no sentido de qualificar o desenho paisagístico das vias públicas. São poucas aquelas corretamente arborizadas e, mesmo assim, nota-se um descuido na escolha das árvores e na maneira como são dispostas.

Uma rua pode possuir dezenas de espécies diferentes em poucos metros. Contudo, se não forem cuidadas corretamente, o resultado é um paisagismo caótico.

As novas soluções de calçadas devem permitir um amplo programa de plantio de árvores por toda a cidade. Os benefícios seriam muitos. A melhora na qualidade da paisagem urbana e do ar seria imediata. O clima também seria modificado gradativamente.

A sombra produzida pelas árvores e a evapotranspiração aumentam a umidade do ar e baixam as temperaturas. Além disso, como as árvores podem absorver até 70% das precipitações, tornam-se fundamentais para diminuir o impacto das enchentes.

A construção de bicicletários em bairros residenciais ajuda efetivamente no transporte público? Como fica quem mora na periferia e trabalha no centro, por exemplo?
Sim, ajuda. As bicicletas não são a solução para os problemas de mobilidade dos paulistanos, mas fazem parte da questão. Elas são particularmente importantes em distâncias de até 5 km e devem ser integradas ao sistema de transporte público. O metrô tem um programa de fomento ao uso da bicicleta, pois ela potencializa o uso do seu sistema. Obviamente, para que isso prossiga, é necessário ampliar a rede de ciclovias da cidade, e para isto o carro deve ceder parte do seu espaço.

As faixas exclusivas de ônibus ajudaram a diminuir em 30% o tempo de viagem dos passageiros de ônibus. Você acredita que um melhor planejamento traria resultados mais eficientes?
As faixas de ônibus à direita não são a forma mais eficiente de transportar pessoas. Mas elas representaram uma melhoria gigantesca para os usuários do sistema. Em muitos trechos foram registradas reduções de até 30 minutos na duração das viagens e isso é muito significativo.

O meio mais eficiente de transporte por ônibus é por corredores integrados a um sistema de transporte público multimodal (ônibus, bonde, bicicleta, metrô, etc.). Para que a capacidade dos corredores possa atingir 25 mil passageiros por hora, deve haver poucas linhas, padronização dos ônibus e pagamento remoto dos bilhetes.

Até hoje apenas a EMTU conseguiu construir sistemas neste padrão, pois ela mesma é a operadora. No resto da cidade as companhias particulares são contrárias à sua implementação.

Você acredita que São Paulo foi pensada para o automóvel e conforme a lógica da especulação imobiliária?
Sim, nosso modelo urbano espraiado favorece ambos os interesses.

Aproveitar espaços abandonados pode mudar a relação que as pessoas têm com a rua?
Assistimos nos últimos anos a uma reocupação dos espaços públicos. A Rua Augusta, por exemplo, está se transformando em um novo lugar após anos de decadência. É interessante ver que os jovens estão à frente desse processo, demonstrando sua enorme insatisfação em relação à cidade que lhes foi oferecida. Esse é o grande fenômeno urbano dos últimos anos.

O movimento de reocupação do Largo da Batata é uma resposta à falta de planejamento dos projetos urbanos para a população? Como os cidadãos pode se organizar para melhorar a rua e o bairro onde vivem?
A resposta anterior responde a pergunta. A melhor forma de ajudar é ocupando os espaços públicos de seu bairro. Essa é a transformação que vivenciamos em nossas cidades. Ao sair de suas casas, as pessoas percebem uma série de carências. E querem mais. Mais árvores, mais bicicletas, mais calçadas, mais praças, mais escolas, mais cinemas. Mais qualidade urbana.

Os serviços de compartilhamento de carros e bolsões podem funcionar em São Paulo?
Acho que o compartilhamento ainda é uma incógnita. Ele tanto pode ser um aliado na transformação do motorista em passageiro, como um incentivo ao uso do carro. Essa é uma experiência que precisa ser melhor avaliada.

Mobilidade e arquitetura

Como você avalia a cobertura da mídia impressa nacional sobre assuntos de mobilidade urbana e arquitetura?
São dois assuntos com muito pouco espaço na imprensa brasileira. Além disso, pouca vez são tratados com a devida profundidade. Uma vez o Estadão escreveu um editorial carregado de inconsistências a respeito das faixas de ônibus. Penso que a imprensa brasileira não enriquece o debate sobre estes temas, pois em algumas oportunidades sua visão é anacrônica.

Você pode mencionar alguns projetos relevantes na área de sustentabilidade urbana? Qual a importância do trabalho de profissionais como Shigeru Ban para a arquitetura?
A arquitetura de Shigeru Ban é uma generosa resposta aos problemas da contemporaneidade. Não apenas no que diz respeito à sustentabilidade, mas também à crise econômica e política global que vivemos. Ele nos faz lembrar que o trabalho dos arquitetos deve sempre ter como objetivo o homem. Parece óbvio, mas este é um discurso subversivo diante dos vaidosos “starchitects”, cujas obras vazias de sentido decoram as mais variadas mídias pelo mundo.

Como a iniciativa privada pode ajudar em questões de mobilidade urbana no país?
Ela pode contribuir em vários aspectos. Basta haver coordenação por parte do setor público para potencializar suas ações. Veja o que ocorreu com o empréstimo de bicicletas. Os dois bancos que investiram nessa modalidade não possuem sistemas compatíveis entre si e isso fere o interesse público.

Existem exemplos de cidades brasileiras que possuem um bom projeto de mobilidade urbana?
Curitiba é a cidade que mais se aproxima do conceito de boa mobilidade urbana. Mesmo assim, percebe-se nos últimos anos uma incapacidade do sistema em lidar com o crescimento da metrópole.

Entender a complexidade das cidades contemporâneas e no âmbito da sustentabilidade é algo que falta para arquitetos, jornalistas e profissionais da área?
Parece-me que para uma boa parte dos arquitetos o sucesso de seus trabalhos é uma questão de estrelato. O edifício foi utilizado como cenário para o último filme do James Bond: sucesso. Não importa qual o impacto para a cidade e seus moradores. Sou muito crítico em relação a isso, pois não consigo ver a arquitetura como um fenômeno de marketing. Essa postura empobrece o papel dos arquitetos, especialmente diante das desafiadoras consequências da crise de 2008: aquela que insiste em não acabar.

Foto: Murilo Navarro da Cruz (câmera analógica)


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