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Paulo Ito e o grafite que incomoda

Artista expõe em suas obras situações problemáticas da sociedade brasileira e produz questionamentos necessários
Bruno Torres
27/09/19

O grafite de Paulo Ito não é uma arte do tipo inofensiva. O pintor de rua ficou internacionalmente famoso após ter feito um trabalho com duras críticas à Fifa durante a Copa do Mundo no Brasil. Na obra, um menino chora de fome ao se deparar com um prato que não tem comida, mas sim uma bola de futebol.

Nas ruas da cidade de São Paulo, em especial na zona oeste, os desenhos de Ito instigam o público a pensar sobre questões como ruralismo, exploração capitalista e turismo sexual. Os desenhos não estão lá somente para colorir os muros, mas para representar uma luta. Eles são denúncias que despertam uma atenção mais crítica aos problemas sociais. Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, o artista falou mais sobre suas ideias, referências e posições no cenário do grafite nacional.

Paulo_Ito

Portal NAMU: Você ficou mundialmente conhecido por seus desenhos com críticas à Copa do Mundo. Qual é sua opinião sobre projetos como o 4KM, que produziu um grande painel de grafite sobre o evento e teve patrocínio da Nike?
Paulo Ito: Dentro do que eles se propõem a fazer e do que foi feito, acho interessante. Esse projeto começou em 2012. As questões contra Fifa apareceram depois, embora já tivessem sido levantadas durante a Copa do Mundo na África do Sul. Quando o evento foi confirmado no Brasil, houve uma adesão e uma aprovação muito grande. Depois é que as pessoas realmente começaram a se questionar. Como o projeto 4KM começou antes, não houve um olhar crítico. Mas tenho certeza de que foi um trabalho sério. Alguns artistas, inclusive eu, preferiram não se alinhar ao projeto. Pouco tempo depois até neguei um trabalho para um clube de futebol por uma questão de coerência. Não vejo nenhum problema e não acho que as coisas têm de ser tão radicais. Não considero meu trabalho como uma crítica direta ao governo federal. Na verdade, acredito que ele mais questiona do que afirma ou encerra a discussão. A arte fomenta muito mais perguntas do que nos dá respostas.

Paulo_Ito

O patrocínio de grandes marcas e o envolvimento com o governo pode fazer com que o grafite, uma arte de resistência urbana, perca sua essência?
Esse aspecto subversivo que seria natural ao grafite já se perdeu faz tempo. Atualmente, há poucas pessoas fazendo um trabalho mais crítico. A base do grafite é o vandalismo e a ilegalidade, não a produção de painéis ou murais. A subversão está no ato de fazer e essa essência não é fácil de ser alcançada. Se você simplesmente escreve uma frase no muro, ela perde sua força de obra, pois se torna panfletária. O fato de grandes marcas, como a Nike, apoiarem os projetos não muda muita coisa, pois a maioria dos artistas se encaixarão nos moldes que a empresa achar ideal. Embora seja contraditório, uma coisa financia a outra. Você não vai ter uma produção de rua independente se não puder investir nisso, pois o artista naturalmente precisa de quem adquira sua obra. Sempre foi assim. É raro ver artistas que tiveram alguma projeção sem ter investido nada. Um painel feito na rua não sai por um valor baixo e muitos artistas não calculam essas coisas. Não é necessário que seja a Nike, mas acredito que a maioria não tem grandes problemas com isso. Eu não critico e nem acho ruim as pessoas fazerem essas escolhas, mas considero louvável quem as evita.

Como o grafite estimula a interação das pessoas com a cidade? Essa arte é capaz de tornar a metrópole mais humanizada?
O grafite é um antídoto ao cinza, à tristeza e à loucura da cidade. Acho que essa é uma visão pertinente. De fato, as grandes cidades são muito difíceis, a vida é dura mesmo. Concordo com o grafiteiro Ozi, que afirma que o painel está ali como um respiro na atmosfera opressora da cidade, embora eu ache que o grafite não seja só isso. Ter só essa ideia como bandeira é pouco. É necessário ir além e ter outras visões.

Paulo_Ito

Há quanto tempo você faz grafite?
Comecei a grafitar na rua há 14 anos, ao longo desse período, as vezes faço meus trabalhos de maneira ilegal, sem permissão. O que, apesar de ser interessante, não funciona muito para mim. Meu trabalho tem começo, meio e fim. Ele precisa ser passado de forma que as pessoas o entendam. Por isso, nem sempre é possível fazê-lo sem permissão ou aviso prévio. Algumas vezes é necessário um espaço autorizado onde eu possa trabalhar durante um dia inteiro ou mais sem o risco de alguém apagar o trabalho em seguida. Isso não funciona para mim. Fazer os desenhos ilegalmente é mais divertido, mas para mim é algo que não comunica de forma efetiva.

Quais são seus objetos de inspiração e qual mensagem você tenta passar com seus desenhos?
Não tenho objetos de inspiração, mas sim algumas obras e colegas como referência. Um artista que me inspirou muito é o Titi Freak. No começo eu achava que meu trabalho era parecido com o dele, mas meu traço mudou bastante. Hoje, é um estilo que devo manter porque serve como instrumento para o que quero falar. O Lourenço Mutarelli é outra inspiração pela maneira que opera, pelo fato de ter acreditado muito em um trabalho difícil e em um momento mais recente ter tido um reconhecimento maior. É um cara bem importante para mim por ter um trabalho inteligente e alcançado notoriedade sem fazer concessão.

Paulo_Ito

Já a mensagem que tento passar é sempre alguma que provoque algum tipo de reflexão. As pessoas me acusam de diversas coisas e isso é muito bom, porque mostra que meus desenhos incomodam. É possível ver a projeção que o público faz de questões que não estão explicitas na obra. Há um tempo, uma vizinha me perguntou quando ela veria um casal feliz no meu trabalho. Isso ela não verá nunca, pois é algo claro no meu estilo. Talvez veja no trabalho de outros artistas, há muita gente que fala sobre a felicidade porque é o discurso ideal da publicidade. Se essa vizinha assistir à Rede Globo, verá muitas famílias felizes. Esse tema cansa um pouco, e é por isso que tem algumas pessoas mostrando o outro lado. Na minha obra vai ser sempre assim. Não é um desequilíbrio que gosto de fazer, mas um contraponto.

Paulo_Ito

No início de dezembro começou o processo de criação do maior painel de grafite da América Latina, na Avenida 23 de Maio, em São Paulo. O projeto é uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura e mais de 200 artistas. O que você acha da aproximação dos grafiteiros com o poder público e da regulamentação dessa forma de arte?
O fato de o artista se aproximar do poder público não é novidade. Quantos artistas não trabalharam para a Igreja Católica, que possui um retrospecto negativo? Não é diferente agora e não acho que seja um problema, pois a história da arte sempre foi assim. A gestão atual da Prefeitura de São Paulo tem uma visão um pouco mais aberta. A gestão anterior prestigiou somente alguns artistas e isso criou um vínculo muito menos democrático. Essa aproximação não é um problema, mas sim uma característica. Daqui a menos de três anos comemoraremos o centenário da arte conceitual. Quando o artista francês Marcel Duchamp propôs a obra Urinol, que consistia na representação direta de um mictório masculino, algo que era uma grande brincadeira se transformou no símbolo da arte contemporânea. Isso mostra que existem também artistas que participam de ações institucionalizadas e tiram sarro, fazem críticas, como fez o artista mexicano Diego Rivera quando pintou o mural do Rockefeller Center em Nova York. Esse alinhamento contraditório com o poder, ao mesmo tempo em que sofre críticas, é antigo e continuará na arte de rua. Se aparecer algum trabalho na Avenida 23 de Maio que critique a atual gestão, não será uma surpresa.

Paulo_Ito

Onde você costuma pintar? Há diferenças entre as intervenções na periferia e no centro expandido?
Sim, há muitas diferenças. Naturalmente o artista de rua é muito mais bem tratado na periferia. Ao circular nos bairros mais pobres, você conhece de fato as pessoas e a vizinhança. É diferente de quando eu pinto em um bairro de alto poder aquisitivo, onde as pessoas não conversam, não se conhecem e têm uma noção distorcida de posse. Não é difícil ouvir nesses bairros algo como: “Porque você está pintando isso na minha rua?”. Como se a rua fosse daquela pessoa, como se o espaço ali fosse privado. A diferença é gritante. Essa é a razão pela qual é muito mais confortável pintar na periferia, onde os moradores pedem para você fazer sua arte naquele espaço.

Os bairros de classe alta podem não ter um déficit educacional, mas certamente falta compreensão humanitária e cultural. Esse público que teoricamente teria mais acesso a equipamentos culturais é o que menos compreende o grafite. No fundo parece ser tudo uma grande fachada. As pessoas de alto poder aquisitivo também têm poder político e por essa carência de valores e distorção cultural eles gerem a sociedade de uma maneira pífia e autocentrada. Também não podemos esquecer de que pintar no centro da cidade é muito disputado, já que é onde circula o maior número de pessoas. Aquela região tem mais visibilidade e todos os artistas estão de olho nisso. Já que a obra não existe sozinha, só existe se alguém vê.

A entrada do grafite nos museus é ao mesmo tempo um reconhecimento e uma limitação da expressão artística que o grafiteiro tem na rua?
Acho que não vai limitar, porque o grafite não entra nem no museu, nem na instituição. O que pode fazer parte desse espaço é um trabalho do artista que também faz grafite. Não acho que isso enfraquece o grafite, mas dá uma boa visibilidade para o artista. Talvez, eventualmente, ele tenha de fazer algum tipo de concessão. Às vezes, é preciso participar de alguns mecanismos que não são caros ao artista de rua. A instituição precisa de alguém que vá trazer público, pois ela não vai “criar” alguém. Então o grafite, o trabalho desse artista de rua, se adapta e vira mercadoria, vira um produto. Assim como praticamente tudo que nos rodeia, nesse momento que vivemos em que lógicas de mercado regem o mundo. A rua as vezes parece ser mesmo a única saída.


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