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O método da dúvida de Descartes

Entenda como o pensador francês criou um sistema lógico para questionar a experiência do real e chegar à verdade

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Para Descartes, utilizar métodos que ponham em dúvidas a existência é um caminho para a verdade

O físico alemão Albert Einstein (1879-1955) não ficou mundialmente famoso apenas em função de suas conquistas na área da física. A formulação matemática e a comprovação da Teoria da Relatividade o levaram a ser reconhecido entre seus pares, matemáticos e físicos. No entanto, para o homem comum e leigo, o que tornou o cientista alemão familiar foi a popularização de suas pesquisas por meio de experimentos mentais.

O experimento mental (Gedankenexperiment) é uma ficção elaborada pelo discurso científico e/ou filosófico. Apesar de representar algo não realizável no mundo sensível, ele é capaz de gerar efeitos ou consequências que estimulam ou refutam hipóteses científicas ou filosóficas. Atualmente, é muito utilizado na filosofia analítica e na filosofia da mente.

Albert Einstein não foi o primeiro a fazer uso da técnica. Muitos outros cientistas e filósofos lançaram mão desse procedimento, embora não o tivessem nomeado. O filósofo francês René Descartes (1596-1650) o utilizou para elaborar sua doutrina filosófica. Vamos recuperar algumas etapas do desenvolvimento de sua obra Meditações metafísicas (1641) para melhor compreender como funciona.

Seleção e validação

Descartes estava em busca de um fundamento seguro e inabalável do conhecimento, uma primeira certeza que pudesse servir de alicerce para toda filosofia e ciência. Para realizar esse empreendimento, ele elaborou um método baseado na dúvida, também conhecido como dúvida metódica. Ao enfrentar e superar níveis de dúvida cada vez mais radicais, Descartes eliminava todo conhecimento que não era seguro e que facilmente se abalava para realizar uma varredura no terreno do saber.

A dúvida metódica de Descartes não se confundia com a de um homem comum, que não sabe se ouviu essa ou aquela palavra em uma roda de conversa ou se uma experiência de sua infância ocorreu dessa ou daquela maneira. A dúvida cartesiana é um método, um caminho que conduz ao conhecimento certo e indubitável. Por esse motivo, as dúvidas de Descartes foram elaboradas em um contexto de experimento mental, cujas consequências tornaram possível a elaboração do pensamento filosófico cartesiano.

Tipos de dúvidas

A dúvida metódica cartesiana se realizou em três etapas: a dúvida sensível, a dúvida do sonho e a dúvida metafísica. A sensível é aquela que nos leva a desconfiar dos sentidos e de tudo aquilo que aprendemos através dos sentidos. Nossos olhos nos mostram que o Sol é pequeno, mas sabemos que suas dimensões são muito superiores às da Terra. A concentração de ácido lático na musculatura nos faz perder a sensibilidade da perna, apesar de nossas mãos poderem tocá-la e percebermos que ela continua unida ao nosso tronco. Como os sentidos podem nos enganar uma única vez, então seu conteúdo não é um alicerce seguro para o conhecimento.

A dúvida do sonho é aquela que nos mostra que não podemos ter certeza de estarmos acordados ou sonhando nesse momento. Muitas vezes sonhamos realizar diversas atividades mesmo em estado de repouso. O computador que agora utilizo e a escrivaninha em que me vejo sentado no instante que escrevo podem ser frutos de um sonho. Por isso, tenho de desconfiar mesmo daquelas certezas mais banais e ordinárias.

Questionamento e realidade

O experimento mental da dúvida do sonho me faz questionar se estou sentado em frente ao meu computador vestido em uma camisa branca ou se estou de pijama deitado em minha cama. Entretanto, essa dúvida ainda não é radical, pois de uma certeza eu não posso duvidar: a camisa branca, o computador, a cama, o pijama, os corpos e os objetos de um modo geral e tudo aquilo que percebo possuem extensão e são quantificáveis, ou seja, as operações matemáticas continuam válidas, seja no sonho, seja na vigília. O computador e a cama possuem dimensões espaciais e, caso queira, posso contar quantas roupas eu tenho.

Já a dúvida metafísica pode nos levar a duvidar da própria matemática. Por meio de um experimento mental, imaginemos a figura de um Deus enganador, que nos faz acreditar que todas as operações matemáticas, apesar de serem sempre constantes, regulares e invariáveis, não são verdadeiras, ou seja, imaginemos que esse Deus nos leva a acreditar que todas as demonstrações matemáticas são verdadeiras, apesar de serem falsas. O experimento mental da figura do Deus enganador nos mostra que até a matemática, único resíduo de certeza que mantínhamos em nossa mente, não é um conhecimento seguro.

Dúvida e finalidade

Não satisfeito com o experimento mental do Deus enganador, Descartes o substituiu pela figura do gênio maligno, entidade igualmente poderosa e capaz de enganá-lo. Se a função do experimento mental do Deus enganador é a mesma do experimento mental do gênio maligno, qual seria o motivo de Descartes ter substituído um pelo outro? A figura do Deus enganador fazia Descartes recordar de um conjunto de opiniões que havia aprendido há muito tempo. Embora utilizasse o adjetivo “enganador”, a ideia de um bom Deus estava profundamente impregnada na mente de Descartes e isso prejudicava seu empreendimento. O contrário acontece quando se utiliza a ideia de um gênio maligno. Essa ideia não foi aprendida pela educação, sendo um artifício mais eficiente à dúvida metafísica do que o Deus enganador.

Apesar de o experimento mental da dúvida metafísica, que incluía a figura do Deus enganador e do gênio maligno, levá-lo a duvidar da própria matemática, Descartes, depois de muito esforço, conseguiu, finalmente, superar seu estado de dúvida e alcançar sua primeira certeza. A passagem do estado de dúvida para o estado de certeza e o conteúdo dessa primeira certeza não serão desenvolvidos aqui. Para nós, foi suficiente mostrar o modo como Descartes se utilizou de experimentos mentais para elaborar e operar uma dúvida que se diferenciava do estado de dúvida que muitas vezes nos encontramos durante o dia a dia.

Consideramos que a dúvida metódica é uma experiência absurda quando vivenciada em nossa rotina, mas ela se torna um notável empreendimento filosófico quando operada em um experimento mental com uma finalidade filosófica. Descartes não era um neurótico que sofria de um pensamento obsessivo pela dúvida, e sim um filósofo que utilizou a dúvida como instrumento em sua jornada em busca pelo fundamento do conhecimento, pela primeira certeza do saber.