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O que você quer ser quando crescer?

O teste vocacional perde sentido no cenário em que profissões dispensam diploma e exigem atualização

RaphaelJeanneret / Pixabay / CC0 Creative Commons

Para James Hillman, a escolha profissional não é racional, é algo que está dado desde a infância

Teste vocacional é uma técnica psicológica para ajudar as pessoas a escolherem uma profissão de acordo com seus gostos e aptidões. Dos mitos dos heróis às rodas familiares, o que o filho vai ser quando crescer sempre foi preocupação dos pais. Até o início da revolução industrial, havia pouca escolha. Normalmente, o menino seguia a profissão do pai e as mulheres cuidavam dos filhos. Na origem, segundo o dicionário Houaiss, vocação significa ação de chamar: intimação, convite.

Com a industrialização americana no começo do século 20, a escolha profissional torna-se preocupação dos empresários e das famílias. O aumento da produtividade passava por saber escolher os mais aptos para as especializações que começavam a surgir na indústria. Nas Forças Armadas, tais seleções já ocorriam. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, os testes vocacionais se popularizaram e muitos psicólogos se especializaram no assunto, inclusive no Brasil.

Frank Parsons, o americano tido como pai do teste vocacional, propôs algumas reflexões às pessoas antes da escolha profissional:

  • Olhar para si mesmas e seus lugares dentro da família e grupo social
  • Ver os outros do lugar deles e aceitá-los
  • Trabalhar em equipe
  • Identificar quais as marcas relevantes herdadas dos pais
  • Perceber gostos, habilidades e preferências que possam colaborar na escolha profissional

Era um mundo no qual a profissão era como um sacramento seguido por toda a vida, numa escala que levaria ao topo da carreira. A utopia individual masculina passava pelo bom emprego e pela permanência por muitos anos na mesma empresa, além da manuteção do status de provedor único da família. Uma sociedade de estruturas definidas e imóveis, bem diferente do mundo de hoje, cujas marcas são a “não utopia”, categoria adotada pelo sociólogo Zygmunt Bauman. A solidez da tríade trabalho, emprego e família não vigoram mais como orientadora das escolhas individuais.

James Hillman e a vocação na infância

Discípulo de Carl Jung, o psicólogo americano James Hillman, que morreu em 2011, foi outro que se debruçou sobre as escolhas profissionais dos jovens. Considerava que a escolha profissional satisfatória não é racional, é algo que está dado desde a infância, deriva de representações inconscientes acumuladas nos primeiros anos de vida.

Nas palavras do próprio Hillman: “Os vislumbres de uma vocação ocorrem durante a infância, mas isso não significa que depois o percurso seja linear. Na infância podemos ver melhor os sintomas, as atitudes que podem ser reveladoras.”

O teste vocacional tal como pensado no século 20 valeria hoje? O que Sartre chamava de “projeto de vida”, no meio do século 20, tem valor na “modernidade líquida”, feliz definição do sociólogo Zygmunt Bauman para atualidade? O mesmo Bauman complementa dizendo que o planejamento no longo prazo, antes visto como primordial, hoje é tido como empecilho, não assegura o alcance de uma vida superior.

Descobrir a vocação é parte de um pacote de longo prazo do sujeito atuando no tempo. Na modernidade líquida, isto se inverte, são as demandas do imediato que direcionam qual profissão cada um deve escolher. A imagem que o pensador polonês criou para definir o mundo do trabalho atual é a do patinador sobre a lâmina de gelo: se parar, afunda, além de nada saber sobre aquilo que o espera.

O chão é frágil, inseguro, nítida referência ao fim dos sistemas de proteção social estatais cada vez menos abrangentes. Qualquer escolha profissional, a seguir o pensamento de Bauman, tem a solidez de uma fina camada de gelo sobre um lago e o movimento do patinador pode ser traduzido como a necessidade de atualização constante, de sempre correr, de responder ao presente.

As novas profissões

Diferente do começo do século 20, a contemporaneidade tem a mudança e a desinstitucionalização das profissões como única constante. Diploma e carreira continuam válidos, porém os setores mais dinâmicos da economia são ligados à tecnologia da informação e às novas mídias e não dão tanta importância a diplomas e experiência. São mais fluidas.

O reflexo da fluidez nas escolhas vocacionais é a ansiedade, já que o controle sobre o futuro profissional inexiste. Por sinal, a ansiedade é um dos sintomas que Bauman aponta como característico do “mal-estar na modernidade”.

Outra alteração em relação ao modelo sólido que vigorou até a popularização da internet é o hibridismo profissional: alguém pode ser médico pela manhã, passar a tarde em casa negociando ações (homebroker) e, no próprio escritório caseiro, ser jornalista online, fazendo dinheiro com blog e outras atividades.

Longevidade

A expectativa de vida média dos brasileiros está em 74 anos, no Japão chega a 86. As pessoas vivem mais e com capacidade cognitiva por mais tempo. Um japonês nascido em 2013 viverá por 100 anos. Como garantir que uma profissão escolhida aos 18 anos existirá 50 anos depois, em um tempo no qual aviões, carros e trens não precisam de pilotos e impressoras 3D produzem em casa o que antes só seria possível em uma grande indústria?

Freud dizia que felicidade estava ligada às memórias infantis e Hillman vai também até a infância como fonte para escolhas profissionais mais acertadas. São coisas sobre as quais não temos controle. Como é comum nas falas dos artistas, dos escritores e nos exemplos de biografias que Hillman cita: a melhor profissão é aquela que nos escolhe, nos sequestra, e não a que optamos.

A reflexão de Hillman é psicológica, diferente da de Bauman. Escolher a profissão como resposta à fluidez, ao imediato, é optar pelo sintoma, pela ansiedade e não pelo desejo, que repousa no inconsciente e cujo acesso demanda tempo, trabalho.

É absolutamente normal desconhecer a real vocação aos 18 anos, início do processo de individuação, reflexão pertinente para quem considera a escolha vestibular como determinante do futuro. Se Freud, Wittgenstein, Jung, Lacan abandonaram e reconstruíram suas ideias à medida que amadureciam, não seria melhor trocar o teste vocacional por escuta? A escuta de si mesmo?7

Foto: Thinkstockphotos; Monica H. / Flickr / CC BY 2.0