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Cidades

A crise de água no Sistema Cantareira

Negligência e falta de planejamento dos governos causa colapso do maior sistema de abastecimento da metrópole paulista
Bruno Torres
27/09/19

O Cantareira é o maior sistema fornecedor de água para a região metropolitana de São Paulo. Ele atende grande parte das regiões da capital e mais dez municípios no entorno. Contudo, desde 2013 o sistema passa pela situação mais crítica de sua história. Em razão dos baixos níveis dos reservatórios, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem oferecido à população desde maio de 2014 água captada abaixo dos níveis normais, o chamado volume morto.

Desde fevereiro de 2014, especialistas já alertavam a população sobre o possível colapso. A estimativa inicial era de que os níveis mínimos fossem atingidos apenas no mês de agosto, mas já em maio as autoridades foram obrigadas a apelar para medidas extremas. Assim, a Sabesp teve de investir mais de R$ 50 milhões em obras para a utilização dos 287 bilhões de litros de água localizados abaixo do nível das bombas.

Causas

Em entrevista ao Portal NAMU, o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP, José Carlos Mierzwa, explicou que a crise do Sistema Cantareira não decorre apenas das condições climáticas que alteraram o regime de chuvas do período, mas sim uma combinação de fatores. O primeiro deles é a grande concentração populacional da região metropolitana de São Paulo, região com pouca disponibilidade hídrica para abastecer uma população de quase 20 milhões de habitantes.

Represa Atibainha

O segundo é o desperdício na rede física, que chega a 30% do total distribuído. O terceiro motivo apontado por Mierzwa é um problema com o qual os brasileiros são obrigados a lidar há muito tempo: os baixos índices de saneamento básico. De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, apenas 53% do esgoto do Estado de São São Paulo recebe tratamento adequado. A poluição que chega aos cursos d’água na região metropolitana da capital paulista inviabiliza reúso da água e acirra a disputa da água pelos municípios. A estiagem histórica na região Sudeste nos últimos dois anos é apenas o ápice de um problema bem maior. Os caminhos para combater esse problema seriam melhorar o saneamento básico e intensificar as políticas de preservação ambiental, principalmente a proteção das áreas produtoras de água e controle do desmatamento.

O que foi feito?

A primeira medida paliativa adotada pela Sabesp para contornar a crise foi incentivar a população a reduzir o consumo. O programa "Guardião das águas", oferece descontos na conta de água para quem diminuir o consumo e multa quem desperdiçar. O racionamento, ação drástica de controle da oferta de água, deveria ter sido feito quando os reservatórios chegaram aos níveis de 30% em dezembro de 2013. Em em janeiro de 2015, o Governador Geraldo Alckmin referiu-se à medida como uma "restrição hídrica". Contudo, grande parte da população da metrópole já reclamava de cortes no abastecimento desde 2013. É importante notar que se não fosse por pressão de entidades como o Idec e o Ministério Público Estadual, a veiculação das datas, locais e horário de corte de água não viria de forma voluntária da companhia.

Sem saída para o problema, a Sabesp se viu obrigada então a aproveitar a reserva técnica (volume morto), o que a duras penas tem garantido o abastecimento até agora. O uso dessa água tem gerado preocupações por parte dos consumidores no que diz respeito à contaminação. A distribuidora garante que todos os procedimentos necessários foram adotados para garantir condições ideais para consumo, assim como acontece com o recurso proveniente de outros mananciais, apesar de estudos feitos pela Cetesb comprovarem a contaminação do manancial contaminação do manacial.

Represa

Palavra do especialista

Ao ser indagado sobre quais seriam as medidas adequadas para evitar esse problema agora e no futuro, Mierzwa acredita que o racionamento planejado seja a melhor das soluções. A ideia é reduzir a quantidade de água perdida na rede por meio da redução de pressão. O professor exemplifica o processo: “Durante à noite, quando o consumo de água é menor, se a pressão da rede for mantida da mesma forma que é usada nos horário de demanda, a perda de água chega a aproximadamente seis metros cúbicos por segundo, relativa apenas ao Sistema Cantareira, o que leva a uma redução do volume disponível no reservatório. Assim, se o racionamento, ou a redução na pressão da rede fosse adotado no período da noite, seria economizada uma vazão equivalente àquela que se cogita trazer do rio Paraíba do Sul ou do São Lourenço."

O que eu posso fazer?

Enquanto a Sabesp e o Governo do Estado de São Paulo não fazem o que deveriam, algumas ações simples podem ajudar o cidadão comum a economizar água. Veja oito dicas para reduzir o desperdício em casa:

1. Tome banhos curtos e feche o registro ao passar sabonete e xampu. Um banho de 15 minutos com o chuveiro ligado gasta 135 litros de água. Já com o registro fechado durante o ensaboamento e uma duração de cinco minutos, o consumo cai para 45 litros.

2. Não use a mangueira de jardim como vassoura. Calçadas podem e devem ser apenas varridas. Uma mangueira aberta por 15 minutos gasta em média 280 litros de água.

3. Use um balde para lavar o carro. Utilizar a mangueira resulta em uma perda de 560 litros de água, enquanto com o balde são gastos apenas 40 litros.

4. Retire o excesso de comida da louça com a esponja antes de começar a lavar a louça. Esse cuidado economiza até 220 litros de água.

5. Acumule roupas para usar a máquina de lavar na capacidade máxima. Se possível, reaproveite a água do enxágue para limpar o quintal ou dar descarga.

6. Feche a torneira enquanto escova os dentes ou faz a barba.

7. Esteja sempre atento aos vazamentos. Isso economiza água e dinheiro.

8. Use um regador para molhar as plantas e prefira o período da noite.

Foto 1: Nathália Kamura
Foto 2: Luiza Folegatti


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