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Gerais

Ciclofaixas, porque a rua é pública

Para Daniel Guth a remoção de vagas de estacionamento tira algo do uso privado e devolve ao uso coletivo
Bruno Torres
27/09/19
São Paulo está sendo redesenhada pelas ciclovias que aparecem dia após dia nas ruas da capital. Segundo pesquisa recente feita pelo Datafolha, 80% da população aprova a implantação dessas medidas e reconhece a importância do uso da bicicleta na cidade. Mesmo assim, esse é apenas o começo do caminho daqueles que, como Daniel Guth, diretor de participação da ONG Ciclocidade, buscam mais respeito e o direito ao espaço compartilhado com os veículos motorizados. Não é fácil sair de uma megalópole totalmente voltada para os carros para uma cidade que seja mais para as pessoas. É preciso lutar pelo direito à mobilidade, pela ocupação dos espaços públicos e conseguir transformar o olhar que a sociedade possui sobre o uso do carro. “Durante muitas décadas nós dissemos para as pessoas que elas eram melhores se comprassem um carro, se tivessem um veículo mais possante e tudo mais”, destaca Guth. “As pessoas vão estranhar essa nova maneira de viver, porque de repente tudo aquilo que disseram passa a ser desconsiderado. Agora temos um modelo novo, no qual morar perto do trabalho é a melhor maneira de se viver e circular a pé e de bicicleta são mais recomendados”. Para ele, a mudança no estilo de vida da população é algo que leva tempo. Guth é de São Paulo, da Lapa. A bicicleta sempre esteve presente em sua vida. “Eu tomei contato mais próximo mesmo em 2008, quando ela se tornou meu meio de transporte principal”, conta. Membro do Ciclocidade desde 2009, em 2012, Guth passou a militar pela reconquista do espaço público para as bikes. No entanto, ele não se considera um cicloativista, palavra muito utilizada para nomear pessoas que atuam nesse cenário. “A palavra cicloativismo é um termo que não cabe muito, pois se trata de algo comum pedalar na cidade. A pessoa que pedala está naturalmente criando uma nova relação com os espaços públicos”. Para Guth, o cidadão que adota a bicicleta como meio de transporte necessariamente vai transformar a visão que tinha até então da cidade. Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, o diretor de participação da ONG Ciclocidade, explica que a chegada das ciclovias representa "um modelo diferente de interação com a cidade". Portal NAMU: Como você enxerga a resistência de parte da população às ciclovias nas grandes cidades? Daniel Guth: A resistência acontece porque a maioria das pessoas ainda não compreendeu que o modelo urbanístico que construímos estava fadado ao fracasso. Por isso, a nova forma de planejar a vida e a sociedade é conflitante, pois viemos de mais de século de dominação da indústria do carro. Estamos mostrando outra forma de enxergar o mundo não só na questão da mobilidade, também na questão do convívio, do descarte do lixo, dos poluentes, da vida no seu bairro, da habitação etc. Essa é a busca por um modelo de cidade em que a vida acontece de forma mais simples, com menos impacto e a bicicleta acaba tendo tudo isso, ela carrega essa revolução. Quem muda e passa se deslocar de bicicleta acaba por repensar em coisas como alimentação e a forma como habita o espaço urbano. Quais as principais dificuldades encontradas no diálogo entre sociedade civil e poder público nesse debate?

Essa é a busca por um modelo de cidade em que a vida acontece de forma mais simples, com menos impacto e a bicicleta acaba tendo tudo isso, ela carrega essa revolução

O poder público tem dificuldade de dialogar e de buscar a informação que de fato represente respostas corretas em políticas públicas. No âmbito da cidade isso é mais rápido porque há o imediatismo das pessoas. No âmbito estadual e federal, a dificuldade aumenta porque se acaba dando ouvidos para os que têm mais força, que são os ligados ao poder econômico. Muitas das politicas são regidas e advindas de diálogos com setores da produção, setores de cadeia produtiva e ligados ao poder econômico mais forte, então, o brasileiro, a pessoa mais simples, que de fato irá precisar das politicas sociais, não tem a possibilidade de ser ouvido. As dificuldades são enormes e tudo isso passa por uma crise maior que o país vive de representação. Por isso as pessoas estão cada vez mais se organizando em coletivos, em grupos, porque o espaço institucional já não cumpre a mesma função. O espaço do próprio governo acaba sendo espaço de reprodução do poder econômico, o que faz com que a população não se sinta representada por esse modelo.  Por que a questão do incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte é tão urgente para as metrópoles? É urgente porque representa um modelo de cidade diferente e um modelo diferente de interação com a cidade. A bicicleta representa isso. Trata-se também da relação de uso e ocupação do solo, da moradia, do trabalho e como a mobilidade urbana dialoga com isso. A forma como nós usamos e ocupamos nosso solo e como mobilidade pode incentivar a gente a repensar essa relação.
São Paulo tem um Uruguai inteiro que sai da zona leste e vai para o centro expandido todos os dias. Uma relação completamente invertida
São Paulo tem um Uruguai inteiro que sai da zona leste e vai para o centro expandido todos os dias. Uma relação completamente invertida. O ideal é que haja trabalho perto de onde as pessoas moram, dentro de distâncias possíveis de ser percorridas em pouco tempo. É tão urgente promover o ciclismo porque através disso acabamos produzindo benefícios e ganhos em áreas como saúde, meio ambiente e mobilidade. Quais as principais medidas poderiam ser adotadas pelo poder público para atender as reivindicações dos cicloativistas, em curto, médio e longo prazo? A urgência das medidas depende da forma como a cidade se organiza. Em São Paulo, por exemplo, nós sempre soubemos que para dar o salto do uso da bicicleta na cidade era preciso mexer na forma estratégica e urbanística. Por isso foi fundamental a elaboração de um novo Plano Diretor, que promova uma cidade diferente, facilitada pela estrutura cicloviária. Depois vem o segundo momento, que é a implantação da estrutura cicloviária, indutora de novos ciclistas. Chegamos ao ponto no qual para promover o uso, a forma é investir pesadamente em infraestrutura. Isso gera mais demanda. A mesma coisa vale para o uso do transporte coletivo. Se a cidade possui bons corredores e sistema de ônibus bem articulados, produz mais demanda para o transporte coletivo. Como conciliar veículos particulares e bicicletas em um mesmo espaço de forma pacífica? Não é possível que as vias sejam de alta velocidade. Precisamos melhorar a fiscalização, alongar as esquinas e criar técnicas possíveis para que nossas ruas sejam mais humanizadas. Uma ferramenta fundamental é a criação de campanhas para promover o uso da bicicleta. Além disso, implantar bicicletários públicos e criar um sistema de compartilhamento de bikes que possa ser mais capilar e cada vez com mais bicicletas. É necessário atingir pontos nos quais as pessoas considerem a bicicleta um modal possível.
Estacionar o carro na via publica é um uso privado do bem público, o que não é um direito constitucional. Portanto, a remoção de vagas estacionamento é tirar algo do uso privado e devolver ao uso público
Todas essas medidas estão contempladas no capítulo do novo Plano Diretor, ou seja, agora não é nada além de cumprir a legislação. O prefeito da cidade está cumprindo aquilo que a legislação obriga. O Código de Transito Brasileiro, desde 1995, coloca os veículos maiores cuidando dos menores. Isso também consta na Politica Nacional de Mobilidade Urbana, de 2012, que dá prioridade para o transporte coletivo e para a bicicleta. Por isso, o que está sendo feito hoje é lei e não há o que reclamar. Essas são ações do interesse público. Estacionar o carro na via publica é um uso privado do bem público, o que não é um direito constitucional. Portanto, a remoção de vagas estacionamento é tirar algo do uso privado e devolver ao uso público.
Veja também:  As bicicletas estão chegando Desafio diário: entrar e sair do ônibus Acessibilidade na hora do rush

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