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Cuba não é só Havana

O fotógrafo Diogo Zacarias relata as belezas e costumes do país em viagem por cidades do interior da ilha

Diogo Zacarias

Os cubanos são bastante receptivos com os visitantes, mesmo com as difíceis condições enfrentadas no país


Santiago de Cuba

O trajeto entre a capital de Cuba, Havana, e Santiago de Cuba é um desafio: são 870 km e há apenas uma empresa que faz o transporte rodoviário para turistas. Os horários de saída são poucos e o preço gira em torno de 60 CUCs, moeda paralela ao peso cubano (CUP) criada para facilitar a conversão em dólares.

No entanto, próximo à estação de onde saem os ônibus, há a possibilidade de pegar os chamados camiones, caminhões adaptados para transporte de passageiros que cobram cerca de 10 CUCs. Geralmente nos camiones não viajam muitos turistas, o que aliás, é proibido. Não foi uma das viagens mais confortáveis que já fiz na vida, mas sim uma das mais legais e, sem dúvida, a experiência mais genuína que tive no país. Foram 12 horas de viagem com algumas paradas para de fato atravessar a ilha de uma extremidade a outra.

A rua mais movimentada de Santiago de Cuba é a Enramada. Lá se pode encontrar todo o tipo de atividade, de mercados e loja de eletrônicos a cinemas e teatros. A rua liga a degradada zona portuária à belíssima Plaza de Marte, um local aberto em uma das regiões mais altas da cidade. A cidade possui um terreno irregular, com muitas ladeiras íngremes, o que apesar de dificultar um pouco o trajeto a pé, deixa a cidade mais charmosa.

Santiago, Cuba

Santiago de Cuba é uma cidade que respira história e cultura. Andando pelas ruas é possível notar lugares marcantes na história cubana, como a casa onde o morou aos sete anos de idade o presidente Fidel Castro, a primeira catedral do país e até mesmo a região de Serra Maestra, onde foi travada umas das batalhas mais decisivas da Revolução Cubana. À noite, na parte central, há uma programação musical riquíssima. Tive o prazer de assistir um sarau em que era permitido levar sua própria bebida e curtir o espaço por apenas 2 CUC.

Santiago de Cuba

Remédios

Durante o trajeto de avião para Havana, vi uma reportagem sobre uma comemoração natalina muito tradicional no interior do país. Entre os dias 16 e 24 de dezembro acontecem em Remedios, cidade de 46 mil habitantes no interior da província de Villa Clara, as Parrandas, festividades semelhantes a um carnaval de rua com muita música, dança e bebida. O ápice é na noite do dia 24, quando os dois bairros mais tradicionais da cidade, San Salvador e El Carmen, se enfrentam em um desafio de luzes e fogos de artifício na praça principal. Algumas apresentações desse ano foram comprometidas por alguns problemas técnicos e a justificativa que ouvimos dos moradores era que “os bairros estariam guardando dinheiro para o ano que vem, quando a disputa celebra 50 anos”.

Cheguei na cidade na manhã do dia 24 com medo de não encontrar lugar para me hospedar, pois nessa época as pessoas, especialmente os habitantes da região, vão até a cidade para curtir as festas. Como as vagas eram poucas, o preço estava um pouco elevado. Consegui um quarto por 30 CUCs em frente à praça principal, mas preferi pechinchar e por isso fiquei em um lugar mais afastado por 15 CUCs.

Durante a tarde do dia 24, acontece uma grande feira com muitas barracas de comidas e bebidas com preços baixos. Há também um miniparque de diversões para as crianças. O clima é agradabilíssimo. Em uma das pontas da feira há carros que vendem canecas de chopp por apenas 15 pesos nacionais.

Santa Clara

A cidade de Santa Clara, capital da província Villa Clara, tem em sua história um capítulo fundamental para Revolução Cubana. O triunfo de Fidel Castro e das tropas rebeldes ocorreu 12 horas após a tomada de Santa Clara em uma batalha histórica liderada por Ernesto Che Guevara. A fachada do Hotel Santa Clara Libre ainda ostenta marcas de projéteis disparados durante batalha entre os revolucionários e o exército do ex-presidente Fulgêncio Batista.

Garoto cubano

Na Praça da Revolução há um enorme memorial em homenagem a Che Guevara. É um complexo de monumentos e um dos mais bonitos e emocionantes que visitei em Cuba. Além de um pequeno museu, com livretos, fotos, objetos e documentos dedicado ao guerrilheiro, há um mausoléu onde Guevara e mais 29 guerrilheiros estão enterrados. A visita é gratuita, mas é obrigatório guardar os pertences pessoais em um guarda volume, pois não é permitido nem fotografar ou filmar as partes internas do memorial.

Na saída do terminal rodoviário há um grande mural com trabalhos de cartunistas cubanos com charges que expressam um ponto de vista revolucionário sobre as invasões norte-americanas em outros países.

Fiquei hospedado em uma casa próxima à rodoviária por 20 CUCs. Ali perto também fica o Boulevard, uma rua onde pode se encontrar uma grande variedade de restaurantes, bares, cafés e afins. A praça central, no fim da rua, é um lugar muito aconchegante para passar um fim de tarde.

Cienfuegos

Em outubro de 2014 tive o prazer de conhecer em uma exposição em Campinas, São Paulo, o artista Rafa Cáceres. “Esse é meu endereço e meu telefone, liguem para mim quando estiverem em Cuba”, disse ele de forma gentil. Quando cheguei em Cienfuegos, encontrei-me com ele em uma agradável noite de dezembro no Paseo del Prado, uma larga calçada central que atravessa parte da cidade.

Cienfuegos, Cuba

Consegui uma hospedagem em uma casa de renta, ou seja, uma casa de aluguel, por 25 CUCs na parte central da cidade. É próxima ao belíssimo Parque José Martí e também do ateliê que Cáceres divide com outros artistas da cidade. Não tenho dúvidas de que, Cienfuegos foi o lugar mais acolhedor e hospitaleiro que conheci na ilha. Acredito que minha proximidade com Cáceres me ajudou a formar essa opinião.

No malécon (calçadão à beira-mar que serve como barreira para ondas) há grandes construções, como cassinos, hotéis e casas da época em que Cuba era fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Algumas são inacreditáveis, como um edifício de arquitetura andaluz próximo ao Hotel L’Agua, o maior da cidade. Cienfuegos é famosa entre estudantes de arquitetura, pois a maioria de suas construções coloniais estão em ótimo estado de conservação.

Há muita opções para curtir a noite da cidade. Ao redor do Parque José Martí existem alguns bares com apresentações musicais, teatro e programas afins, assim como na região do malecón, que tem shows de stand up comedy, restaurantes etc. Apesar disso, muitos jovens preferem consumir suas bebidas encostados no malecón. Cienfuegos é, sem dúvida, o lugar que mais me deixou saudades em toda a ilha.

Fotos: Diogo Zacarias


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