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Gerais

Xamãs cantam pela mudança no planeta

Cânticos sagrados e rituais marcaram o encontro internacional de lideranças nativas das Américas
Bruno Torres
22/07/15

Quatro dias de tambores, cânticos sagrados, aromas de ervas e uma atmosfera ritualística de arte e de cura. O Encontro Internacional das Nações Xamânicas, que reuniu pela primeira vez no Brasil lideranças da cultura nativa das Américas, contou com cerca de 500 participantes de várias partes do continente na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. O diálogo entre culturas consideradas ancestrais e questões contemporâneas mostrou-se ainda mais atual ao mostrar a importância da conexão do homem com a natureza e chamar atenção para nossa responsabilidade na recuperação do planeta.

“Somente a conscientização de que somos aquilo que produzimos nos fará interromper o processo destrutivo que desencadeamos ao nosso redor”, afirma Alexandre Tadeu, um dos organizadores do evento. “Para que o planeta se equilibre, precisamos também nos equilibrar. Somente o comportamento humano possibilitará a regeneração do nosso planeta”.

Alexandre Tadeu (ao meio), com o cacique Iradzu da tribo kariri-xocó (à direita) e esposa

Fernando Bañol, também organizador do encontro, ressalta que o objetivo do evento foi desmistificar o xamanismo no Brasil. “Trazer luz para que as pessoas possam enxergar a relação que temos com nossa Mãe Natureza e nosso Pai Celestial”, diz ele. “O xamanismo está presente entre todos os povos ancestrais do planeta e vem trazer um recado: viva amorosamente, sirva desinteressadamente.”

A cura pelo canto

O xamanismo propõe a cura do homem e do planeta através dos seus próprios recursos, seja por meio de expressões do reino vegetal (o poder das plantas), do reino animal (o poder dos animais), e do próprio homem (o poder da arte e do espírito), explica Bañol.

Um exemplo do poder da arte e do homem seria simplesmente cantar. “O canto é uma arte de expressão, ‘ex-pressão’ é ‘tirar a pressão do peito’, é quase um lamento, mas também pode ser tirar uma pressão de alegria, não ficar com o peito pressionado”, diz a representante da Nação Mapuche, Beatriz Pichi Malen, cantora nativa. “Reverenciamos o conhecimento de nossos ancestrais com os cantos que são orações, com os sons sagrados da natureza”, reflete Malen.

“Nossas vidas podem se transformar o momento que quisermos e com a nossa transformação também transformamos onde vivemos”, conclui a cantora. 

Curar o homem para curar o planeta

“Somos a proporção matemática do universo, somos microcosmo e o universo o macrocosmo", afirma Bañol. "Meu mestre Samael Aun Weor (reformulador da Gnose na Era de Aquário), dizia: temos de aprender, imitar e obedecer a natureza.” Dessa forma, o pesquisador remeteu aos princípios que regem o poder da transformação evolutiva do ser humano e, consequentemente, de seu habitat que, por sua vez, são inspirados em posturas espiritualistas e científicas.

De comum acordo, o médico cirurgião Alberto Gonzalez (foto), apresentou um modelo de alimentação que traduz semelhante afirmação de Bañol: “Somos participantes ativos na cura e na transformação do homem e do planeta. Sou feliz por ser médico e estar consciente que a integração mente-espírito/corpo-metabolismo e o encontro da homeostasia é a chave para a cura da doença individual e planetária.”

Assim como Gonzalez diz que a “saúde começa na terra” e indica preferencialmente a utilização de produtos orgânicos na alimentação, o engenheiro agrônomo biodinâmico Marcelo Sambiase confirma com os conceitos fundamentais da agricultura que preserva a vida, a saúde e o bem-estar do ambiente e dos seres que nele habitam. “Atualmente vivemos numa selva de pedra onde a doença é adquirida principalmente por meio da alimentação, pois ela vem de uma terra totalmente desequilibrada, pela necessidade do ‘ter’ e não do ‘ser’, isto é, priorizamos a quantidade ao invés da qualidade.” 

O engenheiro ainda complementa: “a natureza possui apenas virtudes, ela é doadora, diferente do homem, que a explora”.

Encontro do condor com a águia

Inspirado em antiga profecia sobre a união dos povos das nações do Norte e do Sul das Américas, segundo Don Valerio Cohaila (Nação kallawaya-ayamara e lakota), “a partir deste momento, estaremos dando a oportunidade para que o povo indígena se manifeste e troque experiências com a cultura contemporânea. Como diz a profecia, a partir de agora as portas estarão abertas para os descendentes das tradições mostrarem o potencial da cultura nativa junto à cultura moderna.”

O pajé Cândido Mariano Elias, da terra indígena icatu (na cidade de Braúna/SP) complementa, “estamos aqui para mostrar que o índio ainda preserva seu conhecimento e com ele poderá ajudar o mundo a melhorar”. O pajé Cândido, a índia Neusa Umbelino e o índio Ilson Iaiati, assistidos pela antropóloga e professora Niminon, trouxeram experiências com plantas medicinais. “Nós, índios, fazemos experiências com a nossa saúde, por isso sabemos que as plantas funcionam mesmo”, diz o pajé.

“A natureza tem poder curativo que vem das montanhas, dos ventos, dos locais sagrados, dos lagos, dos rios, da terra, de tudo que tem vida no céu e na terra”, complementa Don Cohaila. 

Don Valerio Cohaila (foto), curandeiro e sacerdote do povo aymara

O ciclo da vida

Citando Gilberto Gil, Wilson Gonzaga, psiquiatra pioneiro nas pesquisas com a bebida ayahuasca, um preparado com plantas de poder, afirma: “Morre o grão, nasce o trigo, morre o trigo, nasce o pão”, assim prossegue a vida, uma contínua e natural transformação".

“Precisamos caminhar na direção do tempo da natureza”, Alberto Gonzalez continua. “Acordar quando os passarinhos começam a cantar, dormir quando o sol se põe no horizonte, plantar quando é época de plantar e colher quando o fruto estiver maduro”, finaliza o músico argentino Daniel Nankhay, “seguir o caminho do coração, sem forçar a semente a nascer”.

Daniel Namkhay (foto), pesquisador de culturas e músico, expõe instrumentos de tradições nativas

Próximos encontros

“Talvez as culturas nativas ancestrais possam nos indicar o melhor caminho a seguir. É isso que queremos continuar apresentando em nossos futuros Einx”, promete Alexandre Tadeu.

Fotos: Anjee Momoi

 


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