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O que é

A filosofia hegeliana é antes de tudo uma crítica à filosofia transcendental de Immanuel Kant (1724-1804). Procura aliar ser e pensar em um movimento que é imanente à própria experiência.
A dialética hegeliana é a forma lógica para lidar com a identidade entre pensamento e realidade. Hegel procura o dinamismo dessa relação como movimento e não como uma identidade estática entre sujeito e objeto.
A ideia de movimento leva a filosofia a ser uma ciência da experiência da consciência. Ela é tida como um movimento do espírito (em alemão, Geist), que é também racional, e por isso, um conceito. A dialética é o movimento do conceito ou o percurso do espírito como saber absoluto.
A forma dialética permite ao pensamento elaborar a sucessão no tempo do espírito. Dela decorrem as teorias do Estado, como formação da instituição social no tempo. Ela também é a criado de uma teoria da história, capaz de pensar a própria filosofia inserida nesse percurso do tempo, e uma teoria importante sobre a religião, articulando fé e razão, finito e infinito. Para Hegel, na religião a vida finita ascende ao infinito.

Criação

A filosofia hegeliana organiza-se através da sistematização do saber absoluto. O sistema do pensamento hegeliano é elaborado nesse percurso do Espírito como devir da razão.

A produção filosófica de Hegel pode ser vista em um antes e um depois da publicação da Fenomenologia do Espírito (1807). É nesta obra que apresenta e introduz o sistema do saber absoluto.

Os textos que a precedem, como os escritos de Jena, compreendem a formulação e justificação da filosofia hegeliana como sistema. Os textos posteriores a ela desdobram e procuram amarrar o sistema lógico da dialética hegeliana, na articulação entre realidade e pensamento. E por fim, as publicações póstumas são os desenvolvimentos que especificam momentos desse saber absoluto: O Estado, a história, a religião e as artes.

Toda a produção hegeliana é a estruturação da imanência da própria experiência para a consciência. Os temas e os vários momentos do Espírito compreendem a identidade dinâmica entre a consciência e o mundo exterior e o saber que ela tem sobre esse processo e sobre si mesma.

É a ciência da experiência da consciência. A dialética é a forma lógica que desenvolve e expressa na temporalidade finita o infinito do Espírito.

Por isso se diz que a aceitação do pensamento hegeliano, em sua completude, exige compreender a necessidade de formular o sistema que dá conta de todos os aspectos de sua filosofia.

Histórico

Contexto da Revolução Francesa: Hegel, assim como outros filósofos de sua época, como Friedrich Schiller (1759-1805), Johann Gottfried Von Herder (1744-1803), Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) e Immanuel Kant (1724-1804), era um entusiasta liberal defensor da Revolução Francesa. Isso está presente em suas ideias sobre a liberdade e emancipação da consciência humana.

Idealismo absoluto: Após a filosofia kantiana inaugurar o idealismo transcendental, houve muita disputa no debate filosófico alemão. No início do século 19, três filósofos canalizaram o debate sobre a questão do absoluto ou da filosofia como um absoluto: Johann Fichte (1762-1814), Georg Wilhelm Hegel (1743-1819) e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854).

Herdeiros do hegelianismo: Após grande sucesso na Alemanha das obras de Hegel, havia duas escolas bem demarcadas por volta dos anos 1820 e 1830: os velhos hegelianos, ou hegelianos de direita, que se encontravam mais próximos da oficialidade do Estado da Prússia, e os jovens hegelianos, ou hegelianos de esquerda, mais radicais em suas concepções sobre a política, a história e a arte.

Karl Marx: O autor de O Capital foi profundamente influenciado pela dialética de Hegel. Ele transformou a dialética idealista hegeliana, que entendia a razão como determinante da realidade objetiva, na dialética marxista, a qual apontava exatamente para o contrário, ou seja, que a realidade material condiciona a ideia que fazemos dela.

A recepção francesa no século 20: Após o declínio do hegelianismo na Alemanha no século 19, a França foi uma importante receptora dessa tradição.

No século seguinte, o pensamento de Hegel voltou a ser pauta da filosofia, como instrumento para tratar de assuntos variados, como a questão do “desejo” na psicanálise, o problema da formação do Estado moderno e das conquistas de direitos.

Atualidade

Uma teoria do Estado moderno: A concepção hegeliana compreende o Estado como um processo de relações intersubjetivas formado por momentos ou estágios que o constituem como uma comunidade de vida racionalmente fundada. O Estado é pensado na relação conjunta entre sociedade civil e Estado, economia e política. É diferente da teoria liberal que tende a ver esse polos em uma divisão ontológica.

O problema do reconhecimento: A filosofia hegeliana propicia uma base de estudos sobre os problemas do reconhecimento no debate cultural. Um exemplo de trabalho nesse sentido é de Axel Honneth (nascido em 1949), atual diretor da Escola de Frankfurt. Honneth reivindica a noção hegeliana exposta nos escritos de Jena, não mais no marco de um racionalismo forte, mas como uma teoria da intersubjetividade, como um modelo possível para pensar a modernidade política e do debate contemporâneo.

Concepção de liberdade: Embora Hegel seja “mal afamado” no que diz respeito às liberdade individuais, propiciou uma concepção de liberdade que contribui até os dias de hoje para o problema das conquistas por direitos: a liberdade é concebida simultaneamente como um conjunto e como um processo de determinações da vontade. Permite, assim, pensar uma estrutura objetiva das determinações da liberdade, e como experiência progressiva da aquisição das determinações da consciência humana.

Fundamentos

Crítica ao idealismo transcendental: A filosofia hegeliana procura idéia diferente da “unidade sintética a priori” do idealismo transcendental. Kant havia diferenciado a aparência das coisas e as coisas em si mesmas; ou seja, entre fenômeno e coisa em si. Hegel modifica essa visão, porque considera que ela destrói a própria noção de experiência. Ao invés de adotar a crítica transcendental kantiana, elabora uma crítica imanente. Nela a realidade numenal (da coisa em si) deixa de ser um substrato desconhecido, como em Kant, e sim um processo ativo. O pensamento e a realidade agora estão fundidos.

A dialética hegeliana: Nesse processo, Hegel pretende uma explicação filosófica verdadeira da experiência, possível através do procedimento dialético que dá conta dessa relação entre pensamento e realidade. O desenvolvimento triádico de cada conceito e de cada coisa se dá num movimento em que: 1) tese: uma coisa em si mesma (An-sich); 2) antítese: conhece o exterior de si mesma (Anderssein); e 3) síntese: retorna e encontra a si mesma (An-und-fur-sich). Nesse processo dialético, a antítese opõe totalmente a tese, enquanto no terceiro passo, há um retorno ao primeiro momento de uma maneira enriquecida, com o acúmulo da experiência.

Exemplo da dialética hegeliana: Por exemplo, se penso no problema da liberdade: 1) primeiro, penso a liberdade em um selvagem, a princípio, livre; 2) em um segundo momento, constata-se que o selvagem cedeu a sua liberdade ao seu oposto, à tirania e à civilização da lei.

E em um terceiro momento, o cidadão, sob o controle da lei, encontra-se no estado chamado liberdade, só que em um estágio mais alto que aquele que o selvagem podia atribuir, já que consiste na liberdade de fazer, dizer e pensar muito maior do que o estado originário do selvagem. É a própria experiência que leva ao desdobramento dialético.

Uma compreensão dinâmica da experiência na dialética: Hegel, diferente da tradição, compreende o ser não apenas como aquilo que é, mas o que é e o que não é. Ambos, o ser e o nada, estão unidos no conceito das coisas. A expressão do ser como realidade contém aquilo que uma coisa é, e também o que ela não é, e ainda o que ela pode vir a ser. O conhecimento pleno de uma experiência só é possível quando se sabe o que uma coisa foi, o que ela é, e o que ela virá a ser. Assim, a experiência que a consciência tem de si é o acúmulo desse processo, avançando em cada estágio, como uma espiral no tempo. Nesse movimento, uma figura é posta, sai de si mesma, e depois retorna a si, num estágio mais elevado.

O espírito e a sua fenomenologia: A descrição e compreensão desse movimento da consciência é o percurso do espírito absoluto, como experiência do conceito, na história. Ao percorrer essas figuras do pensamento, passamos pela consciência, a consciência de si mesma, o Estado, a Religião e a Filosofia, em que a tarefa desta última é descrever este processo em todas e cada uma de sua etapa. Assim como o ser e o nada formam juntos o conceito mais alto de resultados, num estágio mais avançado temos a vida e o pensamento. O importante é o processo [das Werden], que pode ser nomeado como Espírito [Geist] ou Conceito [Begriff]. Ao final, também se pode chamá-lo de Deus, que é o término do processo triádico, o resultado final como saber desse absoluto.

Teoria da História: Todos os movimentos aparentemente contingentes, são, na realidade, eventos resultantes do processo histórico. São passos lógicos no desenvolvimento da razão, que se corporifica no Estado: as paixões, os impulsos, os interesses são todos uma expressão da razão, ou dos instrumentos de seu uso. Do nosso ponto de vista, o que vemos é o árduo desenvolvimento dessas sucessão no tempo, que revela três importantes passos: 1) A monarquia oriental (a unidade, a supressão da liberdade); 2) A Democracia Grega (a expansão na liberdade que estava perdida); 3) A Monarquia Constitucional Cristã (que representa a reintegração da liberdade no governo constitucional).

Teoria do Estado: O Estado é o responsável por colocar a lei constitucional. O indivíduo é só em parte livre, porque é o sujeito da necessidade e precisa da liberdade do cidadão. Primeiro ele se expressa como reconhecimento do direito dos outros. Depois como moralidade. Finalmente, como moral social, em que a primeira instituição é a família, que é uma forma de sociedade civil. De uma forma imperfeita, a família é comparável ao Estado, que é o corpo social perfeito da Ideia. Na mediação com os outros Estados, a Ideia coloca a lei internacional, nessa dialética da história. A Constituição é o espírito coletivo da nação, e o governo o seu espírito. A guerra, por sua vez, é o meio indispensável para o progresso político, representando a crise da ideia, que toma corpo em diferentes Estados, saindo vitorioso o melhor dos Estados. A base do desenvolvimento histórico é, portanto, racional, já que o Estado é o corpo da razão como espírito.

Na prática

A filosofia hegeliana é especulativa, mas podemos destacar dois aspectos que apontam a forma indireta como o ideário hegeliano está presente na organização que a nossa consciência faz do dia-a-dia:

1) A constituição do Estado moderno como processo constante – as leis, o zelo e o trabalho diário em nome da fortificação estatal é decorrente do apreço hegeliano do indivíduo que emoldura a sua vida nas forças do Estado. Vive como a sua engrenagem. O indivíduo confere um valor superior ao Estado como algo natural, que o sobrepõe, que cuida da sua vida, da suas finanças, e em troca, ele reconhece a autonomia estatal perante à sua individualidade.

2) A ideia de reconhecimento cultural, tão difundida, é uma atualização renovada da chave de leitura hegelian. Ela nos remete à dialética do senhor e do escravo, famosa seção da Fenomenologia do Espírito. Assim, hoje podemos dizer que um indivíduo só se reconhece numa cultura quando ele está consciente de que outros indivíduos reconhecem a cultura que ele participa. Não é um processo isolado, mas de dependência. O ideal do convívio com a diferença tem uma remissão importante à filosofai hegeliana.

Principais nomes

Georg Wilhelm Hegel (1743-1819): Filósofo alemão, nascido em Stuttgart. Estudou teologia, sobretudo sobre as religiões reveladas (judaísmo e cristianismo), comparadas à civilização greco-romana. É por volta de 1800 que Hegel matura a sua filosofia, com os escritos preparatórios para o seu sistema filosófico, assim como os escritos de Jena, culminando na sua grande obra, a Fenomenologia do Espírito (1807). É através dela que o sistema hegeliano se apresenta numa exposição extensa e completa. Também é nela que se observa pela primeira vez uma concepção clara e distinta da noção de absoluto em relação a Schelling: para este, o absoluto constitui o princípio, e para Hegel a síntese e conclusão suprema, o resultado de todo o processo dialético.

A formação do pensamento hegeliano é um assunto complexo, mas talvez possa ser dividida em três princípios de inspiração: teológico, metafísico e crítico. A influência de Spinoza é importante para unificar a relação entre pensamento e ser em uma identidade metafísica. À substância de spinozana falta o retorno a si, para se tornar um sujeito absoluto que reconhece a si mesmo. Por outro lado, Hegel pretende unificar os dualismos racionais kantianos, e assim estabelecer uma unidade dialética entre as oposições abstratas em uma perspectiva de conciliação na dialética: sujeito-objeto, entendimento-razão, matéria-forma, coisa em si-pensamento, natureza-Deus, liberdade-necessidade, etc. Hegel atribui expressamente a concepção da dialética como processo de síntese dos opostos através da mediação da negatividade, em que tudo é considerado mediante a “sagrada triplicidade” (tese-antítese-síntese).

Quando tomamos a Fenomenologia do Espírito (1807), interessa o percurso da “experiência da consciência” no mundo, envolvidas como relação lógica e científica. Há um “saber absoluto” nas principais etapas da progressão das figuras do pensamento – consciência, consciência de si, razão, espírito e religião. Trata-se do princípio motor do processo que para Hegel é a dialética, não enquanto simples instrumento do pensamento, e sim como essência do pensamento, a realidade como tal.

A dialética é este suprimir-consevar que descreve o itinerário da consciência em seus diversos pontos de vistas teóricos e práticos, e que chegam a se tornar uma reflexão filosófica. A razão é o espírito humano compreendido na plenitude de suas atividades espirituais, e na totalidade se seus momentos culturais e históricos. É o conteúdo da verdade justamente porque revela o devir da vida do espírito, até alcançar um saber absoluto.

A lógica hegeliana é o estudo denso e formal desse processo, levando às últimas consequências, na Ciência da Lógica (1812-1816), o princípio da autonomia do pensamento. É nessa lógica dialética que Hegel insere a filosofia como resultado e produção desse movimento no tempo (pela história), na relação do homem e sua finitude com o infinito (a religião), e as formas de expressão do espírito na cultura (pela estética).

Outras visões

Oposição ao kantismo: A chave hegeliana opõe-se aos fundamentos empíricos do criticismo kantiano. Em primeiro lugar, por considerar a estrutura categórica de Kant limitada e subjetiva. Hegel recusa a distinção entre coisa em si e fenômeno, a consciência transcendental e os juízo sintéticos a priori. O que está em questão nessa oposição é a diferença da concepção sobre a noção de “experiência” da consciência. As consequências entre ambos dizem respeito sobretudo à diferença da concepção da relação entre a finitude humana e o infinito, o que pode ser visto na ciência e na religião.

Existencialismo: A divisão entre ser e pensar, tão cara aos pensadores existencialistas, em Hegel está unida. Por este motivo principal, o existencialismo kierkegaardiano, apesar de tomar a dialética hegeliana, muda a chave em que ela está inserida. O resultado é que na tradição existencial o indivíduo é colocado como o principal, enquanto em Hegel ele é uma parte integrante do Todo.

Dialética marxista: A ideia de emancipação pelo comunismo é possível pela dialética marxista, que se coloca como uma dialética do trabalho, verdadeiramente efetiva, como teoria e práxis econômica. A dialética de Hegel é tida por Marx como o primeiro grande instrumento para pensar a relação entre pensamento e realidade no século 19. No entanto, ela estaria muito presa à filosofia como representação do pensamento, como uma ideologia.

Friedrich Nietzsche (1844-1900): Nietzsche seria o avesso hegeliano. Crítico ferrenho da idea de Estado, de filosofia da história e da ideia de síntese. Defendeu a ideia de luta como sobreposição de uma parte sobre a outra, sobretudo pelo apreço do indivíduo e de suas vontades. Além disso, refutou toda tentativa de aproximar a filosofia da religião, como no idealismo alemão, em particular em Hegel.

Ramificações

O hegelianismo pode ser dividido em duas ou três escolas bem definidas:

Os velhos hegelianos, ou hegelianos de direita: Considerados a ala conservadora dos hereditários do sistema de Hegel. Com grande poder nas universidades alemãs em meados do século 19, viam na sociedade prussiana a culminação de todo o processo filosófico e político: Carl Friedrich Göschel (1781-1861), Georg Andreas Gabler (1786-1853), Johann Eduard Erdmann (1805-1892), Julius Schaller (1810-1868), Leopold von Henning (1791-1866), Eduard Zeller (1814-1908), Kuno Fischer (1824-1907).

Hegelianos de Centro: Ao centro, alguns discípulos de Hegel, sem tendências definidas: Karl Ludwig Michelet (1801-1893), Philipp Konrad Marheineke (1780-1846), Johann Karl Wilhelm Vatke (1806-1882), Heinrich Gustav Hotho (1802-1873) e o nome mais destacado: Karl Rosenkranz (1805-1879).

Os jovens hegelianos, ou hegelianos de esquerda: Tidos como o setor mais liberal e progressista, leitores de Hegel a partir de um ponto de vista crítico ao cristianismo e à política da época, sobretudo à vinculação entre Estado, Deus e a religião. Os representantes: Eduard Gans (1797-1839), Friedrich Wilhelm Carové (1789-1852), Heinrich Heine (1797-1856), Ludwig Feuerbach (1804-1872), Max Stirner (1806-1856), Bruno Bauer (1809-1882) e Karl Marx (1818-1883).

Principais obras

Fenomenologia do Espírito (1807) 

É uma introdução ao sistema lógico criado por Georg Wilhelm Hegel. Nesta obra encontramos a sequência das diferentes formas ou fenômenos da consciência. A consciência não parte do saber absoluto, mas conduz necessariamente a ele. Assim o pensamento pode situar-se na imediatez do absoluto, ser ciência da ideia absoluta. Esta ciência da consciência procede dialeticamente, num processo de constante afirmações e negações sucessivas, que conduz à certeza sensível ao saber absoluto. É o mesmo processo que serve à filosofia para manifestar a ideia.

No percorrer das figuras fenomenológicas, o estado de inconsciência na relação com o objeto, em que as contradições vão levando a um reconhecimento pleno que a consciência faz de si mesma e da identidade essencial consigo mesma. Na “espiral dialética, a consciência percorre as seções da certeza sensível, a percepção, o entendimento, a verdade da certeza que a consciência tem de si mesma, a certeza e verdade da razão, a efetivação da consciência de si racional, a individualidade, e então o Espírito, a religião, e enfim, o saber absoluto.

Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817)  

Obra sistemática que procura expressar a ideia de enciclopédia e como exposição abreviada da Ciência da Lógica (1812-1816). Nesta obra Hegel procura fazer essa apresentação das ciências a partir do raciocínio dialético. O fundamento do conteúdo enciclopédico é o saber absoluto da filosofia especulativa, sendo que esse mesmo conteúdo enciclopédico que era fim da filosofia do espírito é agora início da Lógica, levando a crer que o saber que é o fim é a verdade do começo. O saber que é o fim e é a verdade do começo se dá apenas na medida em que o saber absoluto (enciclopédico) se põe como mediação: deve ser mediatizado pelo seu próprio conteúdo, ao mesmo tempo que se compreende nessa mediatização.

Princípios da Filosofia do Direito (1820)

Manual publicado para o uso dos estudantes que assistiram às suas aulas na Universidade de Berlim. Esta obra tem uma influência muito grande para a teoria política e social, sobretudo para as várias correntes do marxismo e mesmo do liberalismo. Hegel desenvolve parte do seu sistema publicado na Enciclopédia das Ciências filosóficas (1817), correspondendo à teoria do espírito objetivo. É a parte prática de Hegel. O Espírito tende à liberdade, à completude. Busca encarnar-se adequadamente no mundo, como dever-ser, isto é, pelas normas que tornam possível a sua efetivação. A obra divide-se em um prefácio, o direito abstrato, a moralidade, a vida ética (a família, a sociedade civil e o Estado), e o direito público interno, nas suas várias formas de manifestação.

Lições Sobre a Filosofia da História (Póstumo: 1937) 

Para Hegel, a Ideia, na Fenomenlogia do Espírito (1807), é realidade na história. O objetivo da história universal é que o espírito torne-se um saber verdadeiro e se realize no mundo presente de modo concreto, como objetividade. A racionalidade integral da história implica ainda a realização completa da moral e da liberdade. O sujeito da história é justamente o povo e seu espírito, em que a marcha dos acontecimentos leva à constituição do Estado, reunindo os costumes, a arte e o direito. O fim da história é justamente realizar a liberdade e a razão. Nessa obra, Hegel percorre, assim, os vários momentos enciclopédicos não como uma descrição dos fatos, mas como uma lógica do percurso histórico dos acontecimentos.

 

Fontes e inspirações

Baruch Spinoza (1632-1677): Filósofo judeu e holandês. Tornou-se um grande expoente do racionalismo. Spinoza é a principal influência hegeliana da filosofia moderna, sobre tudo na sua concepção de substância e ideia. Em Spinoza, a noção de ideia como essência objetiva unifica-se aos objetos do mundo exterior. Essa concepção está presente em sua grande obra, Ética (1674), segundo a qual o universo é idêntico a Deus, única substância existente. A ideia da substância única, que confere realidade ao mundo, aproxima-se do modo como Hegel pensa a totalidade do percurso do espírito. O problema, no entanto, é que para Hegel há uma negatividade da substância absoluta de Spinoza. Ela prejudica a dialética natural das coisas do mundo. O homem, que seria um dos modos dessa substância una em Spinoza, encontra-se regido por uma necessidade de tal ordem, que a sua liberdade fica prejudicada. O princípio da subjetividade no homem, a vida e o devir ficam comprometidos porque Hegel compreende o absoluto de Spinoza como ser uno, imóvel e inerte. A introdução da dialética hegeliana nessa perspectiva totalizante do mundo em Spinoza é uma tentativa de conferir um movimento que torna possível uma liberdade. Assim, o homem é também livre no reino da necessidade das ideias objetivas.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): Filósofo suíço nascido em Genebra. Dele, Hegel herdou as ideias políticas sobre o uso da liberdade e da razão. A ideia da vontade geral, central no Contrato Social (1762) de Rousseau, foi incorporada propiciando a formulação da ideia do Estado em Hegel. Entre ambos permanece a concepção matriz de harmonia entre a liberdade individual e a autoridade governamental. Nessa unidade é estabelecida a justiça: pela ideia de um contrato, cada indivíduo entrega seus direitos ao governo, que em troca dá garantias de sua vida e de sua propriedade.

A diferença entre ambos os autores, no entanto, está na organização dessa perspectiva. Em Rousseau encontramos uma visão agregadora e atomística, em que o indivíduo se identifica com uma vontade geral em busca do bem comum, como síntese do que é melhor para todos. Em Hegel, esse processo ocorre pela organicidade do Estado, em uma conexão especulativa entre a vontade do indivíduo e a lei universal.

Immanuel Kant (1724-1804): Filósofo alemão nascido em Konigsberg. O criticismo kantiano é um marco de viragem na filosofia. Em grande medida, é uma oposição e um dos motivadores da concepção hegeliana de experiência. Segundo Hegel, as categorias do entendimento em Kant são os elementos subjetivos da consciência, e que dá um valor objetivo à intuição pura sensível. Elas são determinações do sujeito, mas não do objeto. Se em Kant o fenômeno (aquilo que aparece) opõe-se à coisa em si (aquilo que não se pode pensar), em Hegel, ocorre o contrário, a objetividade é o “em si pensado”, a determinação do objeto e o conhecimento objetivo. O idealismo kantiano, assim, seria para Hegel muito subjetivo, incapaz de lidar com os objetos da experiência no sentido concreto e imediato, mas apenas na universalidade abstrata. Para Hegel, a doutrina de Kant não teria feito nenhum progresso para a ciência pelo conhecimento das leis, porque não chegou a alcançar a sensibilidade na sua imediatez, como fato empírico. A filosofia hegeliana, em especial como é tratada na Fenomenologia do Espírito (1807), revela que a dialética da experiência é uma oposição direta à consciência transcendental do projeto das três Críticas kantianas, a saber: a Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica do Juízo (1790).

Johann Gottlieb Fichte (1762-1814): Filósofo alemão, nascido em Rammenau, e importante referência de debate para Hegel, com a sua importante obra, Princípios da Doutrina da Ciência (1797). Dois aspectos do pensamento fichteano surgem como indicadores de parentesco com Hegel: 1) a tarefa do pensar como a identidade originária do espírito, isto é, como um acontecimento único, primitivo, e que fundamenta a possibilidade do saber e gênese da temporalidade; 2) o programa da justificação integral da filosofia por ela mesma – ou seja, a filosofia, como grande ciência de auto-realização do espírito. No entanto, a famosa identidade do Eu = Eu de Fichte soa para Hegel como um idealismo absoluto, e radicalmente subjetivo. Fichte pensa a uma diferença entre o absoluto e o saber absoluto (a razão infinita). O Eu é o absoluto, a coisa pensante que existe e tem intuição de si mesma como o Eu, e que é a coisa última. O Eu é intuído por si próprio como ação, e então vem o pensamento. O Eu absoluto necessita, para a sua ação, um objeto sobre o qual recaia essa atividade. O universo é este objeto. Então, no ato primeiro de afirmar-se a si mesmo como atividade, necessariamente tem que afirmar também o “não eu”, como fim dessa atividade. Então, o absoluto se explicita em sujeitos ativos e em objetos de ação. O conhecimento é uma atividade subordinada que tem por objeto permitir a ação do homem. Para atuar o eu necessita, primeiro, que haja um “não eu”; em segundo, conhecê-lo no tempo e no espaço. A atividade do sujeito é resultado de uma reflexão e idealismo absoluto, e que Hegel pretende passar dessa filosofia do absoluto como reflexão para a filosofia da vida. Ou seja, Hegel pretende outro modelo para pensar o sujeito e o seu modo de ser e de viver, uma relação única entre a finitude do homem e o infinito da razão do espírito.

Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854): Filósofo alemão, nascido em Leonberg. Hegel encontra parentesco com Schelling na ideia de que a filosofia surge exatamente no momento em que a consciência do homem entra em contradição com o mundo exterior.

A especulação filosófica é o meio termo dessa separação entre representação e objeto, entre consciência e ser. No entanto, a diferença está na relação entre sujeito e objeto: para Schelling, o pecado original da filosofia está nessa cisão no absoluto, e por isso se fala de uma filosofia negativa, incapaz de pensar a relação finito-infinito.

A filosofia não é um fim em si mesma, e tem de se superar, negando a si mesma. Hegel considera esse valor da filosofia atribuído por Schelling como algo muito derivado da objetividade, e por isso a sua compreensão da relação finito-infinito do espírito procura unir a consciência e o mundo exterior como síntese do conceito.

Se em Schelling a filosofia se nega para chegar à religião, como se houvesse uma cisão entre o ser e o pensar, em Hegel a filosofia identifica-se com a religião, em que o espírito é a subjetividade unindo-se à objetividade, isto é, unido ser e pensar em um sistema.

Hegel influenciou muitos pensadores. Alguns deles abriram caminhos ou ficaram conhecidos em diversas áreas do pensamento filosófico:

Søren Kierkegaard (1813-1855): Filósofo dinamarquês que inaugura o marco do existencialismo. Foi leitor da filosofia hegeliana, da qual foi crítico. Também através dela formulou a sua dialética da interioridade e o problema do paradoxo do indivíduo singular.

Karl Marx (1818-1883): Filósofo alemão. Inspirou-se na dialética hegeliana para pensar o materialismo histórico e a questão da economia como produção da ideologia como alienação da consciência.

Edmund Husserl (1859-1938): Filósofo alemão, expoente da escola fenomenológica, que veio a influenciar a filosofia o século 20. Partiu dos estudos hegelianos para formular uma nova relação entre sujeito e objeto como fenômeno.

Jean Hyppolite (1907-1968): Filósofo importante na academia francesa. É autor de um dos principais comentários da obra hegeliana: Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito (1947).

Jacques Lacan (1901-1981): Psicanalista francês, discípulo da teoria freudiana e inserido na tradição estruturalista. Leitor recorrente de Hegel, apropriando-se da ideia de devir na dialética para pensar a relação do desejo com o inconsciente.

Jacques Derrida (1930-2004): Importante filósofo do pós-estruturalismo. Escreveu muitas obras sobre linguagem, tendo como referência o pensamento de Hegel.

Alain Badiou (nascido em 1937): Conhecido filósofo francês. Considerado um filósofo político, entusiasta do comunismo e leitor especialista e dedicado à obra hegeliana.

Fontes de pesquisa

http://www.lemonde.fr/revision-du-bac/annales-bac/philosophie-terminale/texte-de-hegel_t-irde106.html

http://sos.philosophie.free.fr/hegel.php

http://www.larousse.fr/encyclopedie/personnage/Hegel/123458

http://global.britannica.com/EBchecked/topic/259378/Georg-Wilhelm-Friedrich-Hegel

http://www.lexpress.fr/culture/livre/l-influence-d-hegel-sur-la-philosophie-francaise_986910.html

http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/apr/01/negative-dialectics-frankfurt-school-adorno

http://www.cosmovisions.com/Hegel01.htm

 http://www.biografiasyvidas.com/biografia/h/hegel.htm

http://mercaba.org/Filosofia/Hegel/01.htm

http://www.ac-grenoble.fr/PhiloSophie/articles.php?lng=fr&pg=44

http://html.rincondelvago.com/friedrich-hegel.html

http://www.monografias.com/trabajos10/geor/geor.shtml

http://ec.aciprensa.com/wiki/Hegelianismo#.Uh-RpqyUdC4

http://filosofia.laguia2000.com/el-idealismo/biografia-de-hegel

http://digression.forum-actif.net/t303-hegel-critique-de-kant

http://www.filosofia.net/materiales/articulos/a_15.html

http://pt.scribd.com/doc/6952679/Spinoza-en-Hegel

http://rousseaustudies.free.fr/articlerousseauhegel.html

http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/phlou_0035-3841_1965_num_63_79_5313

Cronologia:

Georg Wilhelm Hegel (1743-1829)

Fenomenologia do Espírito (1807)

A Ciência da Lógica (1812-1816)

Encicloṕedia das Ciências Filosóficas (1817)

A Filosofia do Direito (1817)

Lições Sobre Estética (Póstumo: 1932)

Lições Sobre a Filosofia da Religião (Póstumo: 1932)

Lições Sobre a Filosofia da História (Póstumo: 1937)

As escolas hegelianas (velhos hegelianos ou direita hegeliana, centro, jovens hegelianos ou esquerda hegeliana) (1830-1850)

Difusão do marxismo, sob a influência hegeliana (a partir de 1840)

Difusão do existencialismo kierkegaardiano, em debate com a filosofia de Hegel (a partir de 1840)

Recepção hegeliana na França (1930)

Retomada hegeliana do pós-estruturalismo francês (a partir de 1960)

Redescoberta de Hegel sobre o problema do reconhecimento pela terceira geração da Escola de Frankfurt (a partir de 1990).

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