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Entenda o significado dos sonhos

Para o psicanalista Roberto Girola, os sonhos são janelas para alma que nos permitem ter acesso ao inconsciente

Stergo / Pixabay / CC0 Creative Commons

"O sonho nunca pode ser entendido ao pé da letra. O que você vê não é o que ele quer transmitir", diz Girola

“O sonho é uma janela para alma”, afirma o psicanalista Roberto Girola. Nessa perspectiva, todo sonho é uma forma de o inconsciente se manifestar e tentar revelar algo que está escondido. “Ele é um grande instrumento para você ter acesso ao seu mundo interno. É um instrumento controverso e difícil, porque não é fácil interpretar os sonhos, ainda mais os próprios, justamente porque eles nos dão acesso a um material que estava inacessível”, explica Girola que leciona no Centro de Estudos Psicanalíticos.

Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, Roberto Girola, autor dos livros A psicanálise cura? e Perguntas a um psicanalista, explica os mecanismos dos sonhos e fala sobre qual seria um caminho para interpretá-los.


“Para a psicanálise, o sonho é profundamente ligado à pessoa e ao momento da vida no qual ela está”, diz Girola

Portal NAMU: O que é o sonho na visão psicanalítica?
Roberto Girola: O sonho é um conteúdo do nosso mundo interno que é construído pelo inconsciente para que ele possa emergir e ter algum acesso à consciência.

Ele é paradoxal. Ao mesmo tempo em que o sonho procura revelar algo, ele faz isso escondendo. Freud definia isso como o trabalho do sonho. O trabalho do sonho é hercúleo, no sentido de fazer um esforço para revelar e esconder ao mesmo tempo e para que aquilo que for revelado não acorde o sonhador. Os sonhos nos quais a gente acorda são aqueles nos quais o trabalho do sonho, de certa forma, falhou, porque ele não conseguiu mascarar certos conteúdos de uma forma em que eles fossem aceitos pelo sonhador sem assustar demais.

O sonho é como uma peça teatral que o inconsciente monta. Ele escolhe o cenário, os personagens, o roteiro, mas nada disso é casual.

Os sonhos ajudam no desenvolvimento psíquico? É saudável sonhar?

É fundamental sonhar. Muitas religiões e o paganismo viam o sonho como um meio de revelações divinas e até de premonições futuras. Sempre houve uma valorização do sonho. Hoje, há uma tendência da neurociência em diminuir esse valor e entender o sonho apenas como uma descarga de caráter neurológico, totalmente aleatória e que não tem significado. Eu não concordo com essa visão. O sonho é muito importante para o psiquismo.

É uma forma de ele poder se organizar e conectar essa pequena parte, que é a consciência, com essa imensa parte que é o inconsciente. O nosso inconsciente tem uma percepção muito mais ampla do que a nossa consciência. É altamente saudável sonhar.

O que acontece com quem não sonha?
Pessoas que não sonham têm dificuldade em acessar o seu mundo interno. Nessas pessoas, geralmente, o mundo interno escolhe outro caminho para se manifestar que é o corpo. É a somatização. São pessoas que tendem a apresentar doenças psicossomáticas. Essas doenças, a meu ver, são as provas de que o inconsciente precisa do sonho como um canal de comunicação.

Por que nos lembramos de alguns sonhos e de outros não?
Nem todo mundo consegue lembrar os sonhos. Isso pode acontecer por várias razões. Uma delas é que o sonho pode não ter sido tão representativo. Outros não lembram porque têm um bloqueio em acessar o seu mundo interno. Há pacientes meus que em uma terapia de anos têm pouquíssimos sonhos e outros que sonham toda semana ou todo dia. Não há uma frequência recomendada para se sonhar. É uma autorregulação que o próprio psiquismo faz, mas sonhar é sempre bom. Mesmo aquele pesadelo horrível é um sonho bom, porque era uma necessidade do inconsciente te colocar em contato com um conteúdo que para você é difícil, mas que era importante para você aprender a lidar com ele.

Existe algum mecanismo capaz de nos ajudar a lembrar mais dos sonhos?
Uma dica é quando você acaba de acordar e ainda está no momento de passagem entre a vida onírica e a vida consciente, você pode não abrir os olhos imediatamente e tentar rememorar os sonhos. Esperar um pouco para deixar o mundo externo tomar conta. Isso pode ajudar. Ainda assim, é difícil lembrar-se do sonho perfeitamente. Nós lembramos sempre de fragmentos.

árvores desfocadas
Os sonhos são misteriosos. Muitas vezes, o significado não está claro e interpretá-los pode não ser tão simples

É certo dizer que os sonhos duram apenas alguns segundos?
Não há um tempo determinado. Mas com certeza a duração real do sonho não pode ser equiparada à duração do sonho no inconsciente. Outro ponto é que o inconsciente tem dificuldade com o tempo. Dificilmente, ele aparece representado nos sonhos. Quando há alguma menção ao tempo, normalmente, é porque o sonho precisa mostrar alguma transformação.

Como interpretar os sonhos?
Existem muitas técnicas de interpretação dos sonhos. Para a psicanálise, o sonho é profundamente ligado à pessoa que sonha e ao momento da vida no qual ela está. Por isso, eu acho que essas tentativas de banalizar a interpretação do sonho com manuais ou imagens descritivas não funcionam, porque depende do que cada elemento representa para a pessoa que sonhou. E, geralmente, os sonhos trazem memórias que são individuais. A interpretação também não pode ser feita apenas pelo analista. É preciso que o autor do sonho participe. É um trabalho em conjunto. Jung, que acreditava na questão do inconsciente coletivo, usava mais uma forma de interpretação de sonhos baseada nos arquétipos, em símbolos, que pertencem à humanidade. Ele fazia uma interpretação a partir desses dados coletivos. Já a psicanálise tem como foco o indivíduo.

O sonho nunca pode ser entendido ao pé da letra, porque o que você vê do sonho, para começar, não é o que ele quer transmitir. Por exemplo, se sua mãe morreu no sonho, não quer dizer que ela vai morrer. Provavelmente, o seu inconsciente precisa que a sua mãe morra, porque ela está sendo um empecilho para você assumir a si mesmo e a sua vida e ele se sente oprimido. Então, o inconsciente a elimina no sonho.

Há elementos que sempre representam algo específico?
Há alguns elementos que costumam ter o mesmo significado nos sonhos. Por exemplo, os animais ferozes, geralmente, representam os instintos. A cobra é um animal que aparece bastante e, normalmente, traz sensações de ambiguidade e de perigo. Mas o significado pode variar dependendo da relação que a pessoa tem com a cobra. Jung a via como um símbolo de continuidade da vida, principalmente na imagem da cobra comendo o próprio rabo. Ela também pode ser um símbolo fálico. Obeliscos e colunas também podem ser representações do falo.

Outros símbolos como a casa e o carro são recorrentes nos sonhos. O carro, por exemplo, é um símbolo relativamente novo. Do ponto de vista sensorial, o carro é uma extensão da pessoa. No sonho, ele pode ser uma representação do eu. É importante perceber a posição da pessoa no carro. Se está dirigindo ou se é outra pessoa, se está sentado na frente ou atrás.

Os sonhos podem ser tão reais quanto a realidade.

Existe essa possibilidade de usar imagens, mas desde que isso faça sentido para o sonhador. Por exemplo, quem sofreu um grave acidente de carro tem uma memória traumática associada, então, o carro pode ter outro significado. A interpretação do sonho é complexa.

Os números sempre me chamam atenção. Na análise, vamos ‘cavando’ e descobrimos que há eventos importantes que esse número está remetendo de forma bem misteriosa. Por exemplo, se aparecer um 4 pode se referir à idade que a pessoa tinha quando algo aconteceu. Às vezes, o número se refere à casa em que pessoa morou em um determinado momento da vida. É como se o inconsciente montasse uma peça teatral. Ele escolhe o cenário, os personagens, o roteiro, mas nada disso é casual. Tudo tem um fim que é revelar aquilo que a psicanálise chama de pensamento oculto do sonho.

Como os sonhos podem nos ajudar na vida desperta?
Eu tenho uma teoria, que não é comprovada, mas eu acredito que a atenção que a pessoa dedica para entender seus sonhos faz com que o inconsciente tenha prazer em sonhar. Atualmente, há uma hiper-realidade do mundo externo como se só ele fosse real. A percepção que nós temos do mundo externo também é uma construção da nossa mente. Nós não vemos a mesma coisa. Os sonhos podem ser tão reais quanto a realidade. A realidade é uma construção da nossa mente, claro, que ela parte de algo que existe externamente, mas o que nós construímos é totalmente determinado pela nossa forma de ser, pelas nossas memórias e pelo nosso mundo emocional.

Fotos: Marina Fontanelli; Vinoth Chandar/ Flickr: VinothChandar/ CC BY 2.0;  jeronimo sanz/ Flickr: jeronimoooooooo/ CC BY 2.0