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Saúde

Entenda o significado dos sonhos

Para o psicanalista Roberto Girola, os sonhos são janelas para alma que nos permitem ter acesso ao inconsciente
Bruno Torres
27/09/19

“O sonho é uma janela para alma”, afirma o psicanalista Roberto Girola. Nessa perspectiva, todo sonho é uma forma de o inconsciente se manifestar e tentar revelar algo que está escondido. “Ele é um grande instrumento para você ter acesso ao seu mundo interno. É um instrumento controverso e difícil, porque não é fácil interpretar os sonhos, ainda mais os próprios, justamente porque eles nos dão acesso a um material que estava inacessível”, explica Girola que leciona no Centro de Estudos Psicanalíticos.

Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, Roberto Girola, autor dos livros A psicanálise cura? e Perguntas a um psicanalista, explica os mecanismos dos sonhos e fala sobre qual seria um caminho para interpretá-los.

“Para a psicanálise, o sonho é profundamente ligado à pessoa e ao momento da vida no qual ela está”, diz Girola

Portal NAMU: O que é o sonho na visão psicanalítica? Roberto Girola: O sonho é um conteúdo do nosso mundo interno que é construído pelo inconsciente para que ele possa emergir e ter algum acesso à consciência.

Ele é paradoxal. Ao mesmo tempo em que o sonho procura revelar algo, ele faz isso escondendo. Freud definia isso como o trabalho do sonho. O trabalho do sonho é hercúleo, no sentido de fazer um esforço para revelar e esconder ao mesmo tempo e para que aquilo que for revelado não acorde o sonhador. Os sonhos nos quais a gente acorda são aqueles nos quais o trabalho do sonho, de certa forma, falhou, porque ele não conseguiu mascarar certos conteúdos de uma forma em que eles fossem aceitos pelo sonhador sem assustar demais.

Os sonhos ajudam no desenvolvimento psíquico? É saudável sonhar?

É fundamental sonhar. Muitas religiões e o paganismo viam o sonho como um meio de revelações divinas e até de premonições futuras. Sempre houve uma valorização do sonho. Hoje, há uma tendência da neurociência em diminuir esse valor e entender o sonho apenas como uma descarga de caráter neurológico, totalmente aleatória e que não tem significado. Eu não concordo com essa visão. O sonho é muito importante para o psiquismo.

É uma forma de ele poder se organizar e conectar essa pequena parte, que é a consciência, com essa imensa parte que é o inconsciente. O nosso inconsciente tem uma percepção muito mais ampla do que a nossa consciência. É altamente saudável sonhar.

O que acontece com quem não sonha? Pessoas que não sonham têm dificuldade em acessar o seu mundo interno. Nessas pessoas, geralmente, o mundo interno escolhe outro caminho para se manifestar que é o corpo. É a somatização. São pessoas que tendem a apresentar doenças psicossomáticas. Essas doenças, a meu ver, são as provas de que o inconsciente precisa do sonho como um canal de comunicação.

Por que nos lembramos de alguns sonhos e de outros não? Nem todo mundo consegue lembrar os sonhos. Isso pode acontecer por várias razões. Uma delas é que o sonho pode não ter sido tão representativo. Outros não lembram porque têm um bloqueio em acessar o seu mundo interno. Há pacientes meus que em uma terapia de anos têm pouquíssimos sonhos e outros que sonham toda semana ou todo dia. Não há uma frequência recomendada para se sonhar. É uma autorregulação que o próprio psiquismo faz, mas sonhar é sempre bom. Mesmo aquele pesadelo horrível é um sonho bom, porque era uma necessidade do inconsciente te colocar em contato com um conteúdo que para você é difícil, mas que era importante para você aprender a lidar com ele.

Existe algum mecanismo capaz de nos ajudar a lembrar mais dos sonhos? Uma dica é quando você acaba de acordar e ainda está no momento de passagem entre a vida onírica e a vida consciente, você pode não abrir os olhos imediatamente e tentar rememorar os sonhos. Esperar um pouco para deixar o mundo externo tomar conta. Isso pode ajudar. Ainda assim, é difícil lembrar-se do sonho perfeitamente. Nós lembramos sempre de fragmentos.

árvores desfocadas

Os sonhos são misteriosos. Muitas vezes, o significado não está claro e interpretá-los pode não ser tão simples

É certo dizer que os sonhos duram apenas alguns segundos? Não há um tempo determinado. Mas com certeza a duração real do sonho não pode ser equiparada à duração do sonho no inconsciente. Outro ponto é que o inconsciente tem dificuldade com o tempo. Dificilmente, ele aparece representado nos sonhos. Quando há alguma menção ao tempo, normalmente, é porque o sonho precisa mostrar alguma transformação.

Como interpretar os sonhos? Existem muitas técnicas de interpretação dos sonhos. Para a psicanálise, o sonho é profundamente ligado à pessoa que sonha e ao momento da vida no qual ela está. Por isso, eu acho que essas tentativas de banalizar a interpretação do sonho com manuais ou imagens descritivas não funcionam, porque depende do que cada elemento representa para a pessoa que sonhou. E, geralmente, os sonhos trazem memórias que são individuais. A interpretação também não pode ser feita apenas pelo analista. É preciso que o autor do sonho participe. É um trabalho em conjunto. Jung, que acreditava na questão do inconsciente coletivo, usava mais uma forma de interpretação de sonhos baseada nos arquétipos, em símbolos, que pertencem à humanidade. Ele fazia uma interpretação a partir desses dados coletivos. Já a psicanálise tem como foco o indivíduo.

O sonho nunca pode ser entendido ao pé da letra, porque o que você vê do sonho, para começar, não é o que ele quer transmitir. Por exemplo, se sua mãe morreu no sonho, não quer dizer que ela vai morrer. Provavelmente, o seu inconsciente precisa que a sua mãe morra, porque ela está sendo um empecilho para você assumir a si mesmo e a sua vida e ele se sente oprimido. Então, o inconsciente a elimina no sonho.

Há elementos que sempre representam algo específico? Há alguns elementos que costumam ter o mesmo significado nos sonhos. Por exemplo, os animais ferozes, geralmente, representam os instintos. A cobra é um animal que aparece bastante e, normalmente, traz sensações de ambiguidade e de perigo. Mas o significado pode variar dependendo da relação que a pessoa tem com a cobra. Jung a via como um símbolo de continuidade da vida, principalmente na imagem da cobra comendo o próprio rabo. Ela também pode ser um símbolo fálico. Obeliscos e colunas também podem ser representações do falo.

Outros símbolos como a casa e o carro são recorrentes nos sonhos. O carro, por exemplo, é um símbolo relativamente novo. Do ponto de vista sensorial, o carro é uma extensão da pessoa. No sonho, ele pode ser uma representação do eu. É importante perceber a posição da pessoa no carro. Se está dirigindo ou se é outra pessoa, se está sentado na frente ou atrás.

Existe essa possibilidade de usar imagens, mas desde que isso faça sentido para o sonhador. Por exemplo, quem sofreu um grave acidente de carro tem uma memória traumática associada, então, o carro pode ter outro significado. A interpretação do sonho é complexa.

Os números sempre me chamam atenção. Na análise, vamos ‘cavando’ e descobrimos que há eventos importantes que esse número está remetendo de forma bem misteriosa. Por exemplo, se aparecer um 4 pode se referir à idade que a pessoa tinha quando algo aconteceu. Às vezes, o número se refere à casa em que pessoa morou em um determinado momento da vida. É como se o inconsciente montasse uma peça teatral. Ele escolhe o cenário, os personagens, o roteiro, mas nada disso é casual. Tudo tem um fim que é revelar aquilo que a psicanálise chama de pensamento oculto do sonho.

Como os sonhos podem nos ajudar na vida desperta? Eu tenho uma teoria, que não é comprovada, mas eu acredito que a atenção que a pessoa dedica para entender seus sonhos faz com que o inconsciente tenha prazer em sonhar. Atualmente, há uma hiper-realidade do mundo externo como se só ele fosse real. A percepção que nós temos do mundo externo também é uma construção da nossa mente. Nós não vemos a mesma coisa. Os sonhos podem ser tão reais quanto a realidade. A realidade é uma construção da nossa mente, claro, que ela parte de algo que existe externamente, mas o que nós construímos é total.


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