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A força das danças circulares sagradas

A arte que auxilia no processo de resgate da autoestima nos processos depressivos

Niko_Shogol / Pixabay / CC0 Creative Commons

Naquela tarde, eu nem sabia por que estava ali. Uma certa curiosidade por um anúncio lido numa faixa de rua e uma desmedida falta de motivação por qualquer outra coisa fez com que eu me deslocasse até aquele ginásio.

Eu estava em um momento muito difícil em minha vida, por diversos fatores, mas o pior deles era a depressão. Quando eu me olhava no espelho, não me reconhecia. Aquela pessoa refletida ali não era eu. Abatida, com lesões de pele no rosto, tive que me acostumar e voltar ao trabalho, pois os remédios estavam fazendo efeito, mas vagarosamente. Embora fisicamente eu estivesse bem melhor, emocionalmente eu me sentia paralisada frente à reação das pessoas que me olhavam e transmitiam vários sentimentos: medo, compaixão, dó, distanciamento.

Estar em meio a uma crise é algo muito pessoal e, embora eu sempre tenha tido todo apoio da família e dos amigos, a solidão era algo central. A dor era imensa por perceber que era eu que tinha que fazer algo por mim, mas sem saber o quê. Ler, estar com pessoas, rezar, chorar, assistir filmes. Eu já tinha tentado de tudo para me tirar daquele buraco em que eu tinha me colocado, mas nada tinha surtido efeito.

Convite à alegria

Ao chegar naquela escola, nem foi preciso perguntar. A música me guiou até o ginásio de esportes onde havia muitas pessoas dançando em roda. Era uma música enlevante, que eu nunca tinha ouvido. Depois, uma música alegre, que logo identifiquei ser de outro país. Sentei-me e perdi a conta do tempo. Olhar os dançarinos se divertindo foi um bálsamo. Pessoas de todas as idades sorriam. Acabava a dança, todos aplaudiam. Nova música, alguém ensinava os passos e tudo recomeçava.

Em um dado momento, uma mão apareceu bem na minha frente. “Vamos dançar?” disse a moça.

Aqueles segundos pareceram eternos. Aquele convite me pegou desprevenida e totalmente indefesa a ponto de não ter como retrucar ou negar. Dei a mão a ela e entrei na roda. Ali, aprendendo os primeiros passos, fui capaz de perceber que existia vida além de mim mesma e que eu me sentia aceita. Indescritível a sensação que me fez sair de dentro e ir para fora: o “mover-se” junto com outras pessoas no mesmo sentido, de forma repetitiva. Fortes emoções brotaram dentro de mim e foi assim que a dança entrou na minha vida.

Doze pessoas fazem uma dançam em roda na praça

Quem dança, seus males espanta

Em seu artigo “Meditation of the dance – Sacred dance and overcoming a crisis”, Susanne Riedel-Zeller diz que um elemento importante que influencia o processo de superar uma crise positivamente, é o movimento em geral. Uma crise sempre tem um efeito paralisante e depressivo. Em contraste a isso o movimento tem, em um nível simplesmente biológico, um efeito de revitalização e limpeza. O movimento da Dança Circular Sagrada, combinada com a respectiva música, postura, gestos e o significado simbólico pertencente a isso, tem um efeito holístico profundo no corpo, alma e mente3.

A dança abrange todas as atividades musculares, rítmicas, expressivas, sensitivas, sensoriais e criativas, proporcionando, pelo movimento corporal, o conhecimento do próprio corpo e de sua potencialidade, permitindo constatar as limitações corporais e a descoberta de novos potenciais2.

Outro ponto importante é a experiência da interdependência. O fato da Dança Circular Sagrada não se tratar de palavras faladas, mas sim de ser um ato de ouvir e ficar em silêncio juntos é uma grande ajuda, porque as palavras nunca são o bastante. "Olhar para os próprios abismos capacita as pessoas a estar aberto aos outros e ser compassivo com suas próprias fraquezas. Além disso, o centro surge como ponto de alinhamento. Para superar uma crise, é importante colocar sua própria vida dentro de um contexto maior de significado." (Riedel-Zeller, 2003)

Dança e movimento

Considerando que a dança nasceu do ritmo e que este é o elemento propulsor dos movimentos, os quais se estruturam como um todo harmônico, pois a música é a ordem no movimento sonoro e a dança é a ordem do movimento do corpo, além de permitir a exploração do espaço, transformando o ambiente e gerando autoconfiança, autonomia e liberdade em “estar” e “ser” o espaço em sua volta1.

"No universo nada é estático, tudo se movimenta com ritmo e direção [...]. O homem, como parte desse universo, não poderia ser diferente. No interior do seu corpo, a nível celular, também existe um contínuo movimento rítmico. Todas as células, nos seus grupos específicos, estão continuamente oxigenando, excretando, nutrindo, defendendo, enfim, traduzindo a vitalidade do nosso corpo, cujo movimento externo é a nossa forma de expressão e de celebração da vida."4

A dança circular sagrada entrou em minha vida de forma completamente não planejada e intensa, mas no momento certo e de forma totalmente agregadora.

Como escreve Maria-Gabriele Wosien: “Pela dança, o homem reage no mundo exterior e tenta aprender os fenômenos do universo. Nessa tentativa, ele se aproxima cada vez mais de seu ser mais profundo [...]. Dançando, o homem transcende a fragmentação, esse espelho partido, cujos pedaços representam as partes diversas do todo. Enquanto dança ele percebe novamente que é uno com seu próprio eu e com o mundo exterior. Quando atinge tal nível de experiência profunda, o estado de êxtase, o homem descobre o sentido da totalidade da vida”.

Vamos dançar?


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Referências

1. NANNI, D. Dança educação - Pré-escola à Universidade. 2ª ed, Rio de Janeiro: Sprint, 1998.

2. RENNÓ, E. Coreoterapia – Terapia através da dança. Belo Horizonte: Interlivros, 1980.

3. RIELD-ZELLER, S. Article: Meditation of the Dance – Sacred Dance and Overcoming a Crisis. Balance Magazine (A selection of articles translated into English from the German Magazine by Judy King).

4. RAMOS, R. Danças Circulares Sagradas: Uma proposta de educação e cura. Vários autores. São Paulo: Triom, 2002.